quinta-feira, 27 de outubro de 2016

A inclusão de crianças com deficiência no Brasil

Por Lilian Kuhn* 

Criança cadeira de rodas (Foto: ThinkStock)

A Paralímpiadas 2016 acabou já faz um tempo, mas deixou algumas grandes lições para todos nós. Afinal, levante a mão quem não se comoveu com tantos exemplos de superação física e emocional? Desde a abertura com a ex-atleta Márcia Marsal, portadora de paralisia cerebral, que se levantou sozinha de uma queda durante seu percurso no revezamento da tocha até o encerramento com o hino nacional sendo cantando pelo tenor Saulo Lucas, que tem autismo e deficiência visual. O evento foi realmente lindo, mas não podemos nos limitar a falar sobre inclusão de pessoas com deficiência apenas a cada quatro anos e em um evento esportivo. Afinal, sabe-se que 23% da população geral tem deficiência e estima-se que, ao menos, 7,5% das crianças brasileiras (até 14 anos de idade) têm uma deficiência diagnosticada, segundo pesquisa do IBGE, de 2010.

Apesar desse número alto de pequenos cidadãos, a inclusão social é a grande barreira para a plena vivência das crianças com deficiência. Mas, o que realmente é “inclusão”? Será apenas aceitar a presença da criança com deficiência em uma sala de aula ou no parquinho do condomínio? Não! O conceito tem a ver com a noção de pertencimento: para ser incluída uma pessoa tem que fazer parte dos grupos (familiar, social e escolar) nos quais ela convive. Para isso, nós precisamos estar preparados para lidar com as diferenças de mobilidade, de pensamento, de interação, de comunicação... Na minha experiência profissional, a receita para uma sociedade realmente inclusiva é empatia + direitos.

Vamos falar mais sobre isso? Anotem aí os ingredientes:

Empatia: Ser pai ou mãe não é tarefa nada fácil por muitos motivos. Mas, para pais que têm crianças com deficiência isso vai além, como encarar muitas investigações médicas, ter inesgotáveis dúvidas sobre o futuro e enfrentar infindáveis lutas contra planos de saúde, governo, escolas, etc... Para completar, imagine se a cada saída de casa esses pequenos cidadãos tiverem que lidar com olhares de reprovação e comentários preconceituosos?

Não são poucos os relatos de familiares sobre a exclusão sofrida em festinhas, brincadeiras e parquinhos. É sempre importante nos lembrarmos de que, neste momento, você ou seu filho não precisam de adaptações ou cuidados singulares, mas todos nós estamos propensos. Então, adicione uma pitada generosa de empatia – capacidade de entender e sentir o que o outro está experimentando – na sua vida e contribuir para a efetiva inclusão social das crianças com deficiência!

Direitos: Respeito e cumprimento dos direitos é essencial para melhorarmos a inclusão na nossa sociedade. Uma das principais dificuldades das famílias com crianças com deficiência é no quesito escolar. Não preciso nem dizer que toda criança tem direito à educação e, de acordo com a Lei Brasileira de Inclusão (LBI – 13.146/2015), instaurada em 2015 - depois de DOZE anos em tramitação - as escolas não podem mais recusar oficialmente as matriculas dos pequenos com deficiência. Entretanto, apesar disso, muitas instituições de ensino continuam o fazendo na surdina: seja colocando “empecilhos sutis”, não dando a atenção efetiva ou até não cumprindo as solicitações/ orientações para aquela criança.

A Declaração de Salamanca (1994) proclamou que toda criança com deficiência tenha direito à educação e acesso à escola regular, a qual deve ser capaz de inseri-la em um sistema pedagógico apropriado para satisfazer as suas necessidades e de promover chances de aprendizagem. O que a escola da sua criança faz pela inclusão? Observe quantos colegas com algum tipo de deficiência seu filho tem. E acredite: se aproximadamente um quarto da população brasileira tem algum tipo de deficiência, não é estranho que não exista nenhum aluno em inclusão na escola ou na sala do seu filho? Questione e ajude a mudar essa realidade! Afinal, praticar a inclusão é aceitar e incentivar a diversidade (de pensamentos, de gostos, de habilidades, de raças, de culturas, etc). Além disso, todas as nossas crianças – com ou sem deficiência - possuem características, interesses, habilidades e necessidades de aprendizagem que são únicas e diferentes dos outros alunos, né?

Enfim, nós fomos espectadores de muitos momentos lindos e de atitudes inclusivas nos Jogos Paraolímpicos, mas “o show tem que continuar” e, para a inclusão e acessibilidade se tornarem parte do cotidiano dos brasileirinhos com deficiência só “depende de nós...”!

*Lílian C Kuhn Pereira é fonoaudióloga com especialização em Audiologia e Mestrado e Doutorado em Linguística Aplicada e Estudos da Linguagem. Há mais de dez anos atende crianças e adultos com distúrbios de linguagem. Escreva para ela: redacaocrescer@gmail.com

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