domingo, 23 de outubro de 2016

O esporte no desenvolvimento de crianças com deficiência visual

Texto e fotos: Thiago Peixoto

UniSol 097

Era uma das muitas quintas-feiras de 2014, ansiosamente aguardada por algumas crianças da zona norte de São Paulo, que formavam uma roda gigante, sorrindo sentadas no chão da quadra da Universidade Anhanguera. Uma delas, andando em volta de mãos dadas com o monitor, solta um lenço no chão, bem atrás do menino sentado, e continua andando. Ele apanha o objeto com a mão esquerda e, com a direita, segura a mão do outro monitor, e corre atrás da menina, a fim de alcançá-la. Não consegue, ela é mais rápida e senta em seu lugar. O coro recomeça, “Corre cotia, na casa da tia, corre cipó na casa da avó, lencinho na mão, caiu no chão, moça bonita do meu coração. Pode olhar? Não.”

Com atividades como essa, envolvendo diferentes idades, que de forma lúdica trabalham o desenvolvimento por meio do brincar, e a prática de diversas modalidades esportivas, os alunos e professores da Universidade Anhanguera vêm realizando um importante trabalho no projeto “Inclusão social de deficientes visuais por meio da prática esportiva”, que está alcançando importantes resultados possíveis de serem medidos pelo sorriso de cada uma das pessoas envolvidas.

No total são 30 meninos e meninas, que vêm ampliando o convívio social e as suas habilidades motoras por meio desse projeto de extensão universitária. “Elas têm tanta capacidade quanto qualquer outra pessoa, é preciso dar uma oportunidade para que se desenvolvam”, defende Ricardo Bispo da Silva, um dos monitores do projeto, aluno da licenciatura em Educação Física. “Nessas brincadeiras, como o corre cotia, por exemplo, trabalhamos a socialização principalmente, mas também a coordenação motora, a percepção, a confiança”, acrescenta.

                           

Desenvolvido com o apoio do Programa Universidade Solidária (UniSol) no âmbito do Fumcad, o projeto promove, além dessas atividades de socialização, a prática de modalidades esportivas voltadas aos deficientes visuais, como o futebol de cinco, o goalball e a natação. “Nosso objetivo com o esporte é fazer com que desenvolvam o máximo de habilidades possível”, afirma a professora Roseneide Soares Rogério, que faz parte da equipe de coordenação do projeto.

A prática do esporte trabalha mais do que a questão física, influi na condição da independência, na auto-estima e valorização pessoal de cada um. “O esporte permite que desenvolvam segurança em si mesmos, isso é fundamental para que tenham uma vida social independente, para que percebam a capacidade que possuem, o que podem fazer ou ser, mesmo com sua limitação visual”, explica Roseneide.

Nesse aspecto, vários alunos dão sinais de autonomia e independência. Por meio da confiança adquirida nas aulas, por exemplo, Roberta Rodrigues Cunha, uma das alunas, já começa a sonhar longe. “Se eu tiver a oportunidade, eu quero jogar futebol profissionalmente”, diz a jovem menina. Ela garante que além da paixão, tem muito talento e potencial no esporte, que descobriu frequentando o projeto.

Sua mãe, Maricélia, destaca o quanto o projeto tem ganhado importância na vida de sua filha que, assim como as outras mães relatam, vive uma ansiedade muito grande nos dias que não tem aula, pois essas ocorrem duas vezes por semana. “Tem sido ótimo pra ela, porque às vezes a deficiência isola muito a criança, e aqui ela tem oportunidade de quebrar essa lógica”, conta. “Antes ela ia da escola pra casa e ficava lá. Agora não; ela interage com outras crianças diferentes dela, e isso eu acho muito importante para inclusão dela na sociedade” explica.

Acerca da inclusão, além das atividades, o projeto proporciona às crianças a possibilidade de conviver em um ambiente completamente novo para elas, o da universidade, interagir com os alunos e professores, brincar e fazer amizade com outras crianças que não possuem deficiência alguma, geralmente, irmãos ou parentes de algum dos alunos que já frequentam. “Meu filho, o Felipe, está frequentando com as irmãs, elas não têm problema na visão, mas adoram vir e incentivam muito o irmão. Ele teve um desenvolvimento considerável, antes não tinha postura, não conseguia correr, andava tropeçando, agora já até joga bola, faz exercícios, está evoluindo bastante”, conta Vanessa Barbosa da Silva.

                            

Marianice Silva Ribeiro conta que sua filha Thais, frequentando o projeto há apenas três semanas, já apresenta uma evolução muito grande em relação à autonomia: “na hora de comer, ela não fazia o mergulho da colher sozinha, eu ajudava. Já no primeiro dia aqui, quando deram a gelatina para ela, eu fiquei impressionada, assistindo de longe, ela simplesmente pegou a colher e comeu, sem ninguém”, conta a mãe, orgulhosa. “Quer dizer, é uma independência que ela já tinha e não sabia, ou não demonstrava, talvez porque quando insistimos muito, pode acabar criando um bloqueio na criança. Aqui deixaram que ela fizesse sozinha, no tempo dela, e deu certo”, acrescenta.

Percebendo que as mães das crianças têm um dia a dia desgastante, dedicados a cuidarem de seus filhos, o projeto integrou ginástica laboral e exercícios de relaxamento às suas atividades para que elas ocupem o tempo que ficavam ociosas esperando os filhos nas aulas. “O tempo inteiro elas estão voltadas a seus filhos, o mundo delas são essas crianças. Então nosso grupo sentiu a necessidade de fazer esse trabalho, porque seria importante trabalhar essa relação, e otimizar o momento que elas vêem acompanhar os filhos para tirarem uns instantes para si”, explica Roseneide.

Os resultados do projeto não se restringem ao desenvolvimento dessas crianças e à família, garante a estudante do curso de Educação Física, Flávia Nepomuceno Franseschini, que integra a equipe. Ela se diz feliz, pois se percebe evoluindo e adquirindo uma nova percepção de mundo, “grande parte dos alunos da minha área pensam em trabalhar com musculação, seja na academia, ou como personal trainer, são poucos que buscam outras atividades. Esse projeto mostra que o universo é gigante, abrange tudo que possa melhorar a qualidade de vida, precisamos explorar”, conclui.

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Fonte: unisol.org.br

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