terça-feira, 22 de novembro de 2016

Brasileiros constroem modelo virtual 3D de bebês ainda no útero

Cesar Baima - O Globo


Feto de 26 semanas visto com a nova tecnologia de realidade virtual
Feto de 26 semanas visto com a nova tecnologia de realidade virtual Foto: Heron Werner Júnior/Sociedade Norte-americana de Radiologia

RIO - Até pouco tempo atrás, os futuros pais tinham que esperar o bebê nascer para saber o sexo da criança, entre outras informações básicas hoje reveladas por exames simples. Em breve, porém, eles não precisarão passar nem perto de uma sala de parto para começar a ouvir até mesmo a clássica frase “é a cara do pai (ou da mãe)”. Isto graças a médicos brasileiros que desenvolveram uma tecnologia para criar um modelo virtual em três dimensões do feto ainda dentro do útero.

E o avanço não vai só ajudar a saciar a curiosidade de pais mais afoitos, já que a técnica também permite identificar problemas no desenvolvimento do feto que exijam intervenções pré ou neonatais. Por unir imagens de exames de ultrassom e ressonância magnética, ela também revela a estrutura interna do feto, permitindo que especialistas observem em detalhes, por exemplo, como seus órgãos estão crescendo.

Esta técnica é uma evolução do trabalho que já fazíamos de reconstrução de fetos em três dimensões para prototipagem rápida (impressão em 3D) com a qual possibilitávamos que mães e/ou pais com deficiências visuais pudessem ter uma ideia da aparência de seus futuros filhos — conta Heron Werner Júnior, médico especialista em medicina fetal da Clínica de Diagnóstico por Imagem (CDPI), no Rio de Janeiro, responsável pelo seu desenvolvimento e que vai apresentá-la na semana que vem durante reunião anual da Sociedade Norte-americana de Radiologia em Chicago, EUA. — Hoje, este arquivo digital tem uma qualidade tão boa que podemos navegar dentro dele. Assim, saímos de um vídeo colorido em 2D dos primeiros exames para os novos óculos de realidade virtual imersiva em 3D.

Treino para operação real
Segundo Werner, a nova tecnologia tem usos que vão muito além de ser só um método para os pais visualizarem seu bebê ainda não nascido, reforçando a ligação emocional com a criança. Ele cita como exemplo uma série de casos de fetos com anomalias no desenvolvimento da traqueia na qual a técnica já foi aplicada experimentalmente, facilitando a visualização dos cirurgiões dos problemas que iriam operar após o nascimento dos bebês.

De um lado, nos fetos com alguma patologia, ela pode ajudar a esclarecer para pais preocupados como vai ser seu filho que tenha uma síndrome, lesão ou má formação aparente — diz. — E, por outro lado, ela também será de muita ajuda para que, por exemplo, uma equipe de intervenção neonatal faça uma avaliação detalhada do caso que vai tratar após o nascimento da criança. Já no contexto de uma cirurgia intrauterina, ela vai possibilitar ainda que o médico treine virtualmente antes de fazer a operação real.

De acordo com Werner, as potenciais aplicações da tecnologia são tamanhas que estão adiantadas as negociações para que ela seja incorporada aos programas instalados nos novos aparelhos de ressonância magnética de um grande fabricante mundial destes equipamentos, que devem chegar ao mercado já em 2018.

Num futuro próximo, esta tecnologia tende a se tornar um padrão nas avaliações pré-natais, fazendo parte do repertório disponível para os médicos analisarem casos clínicos — aposta. — E isso não vai implicar necessariamente em maiores gastos, já que, incorporada nos programas dos aparelhos, ela pode ser oferecida dentro do próprio pacote de exames que a grávida terá que fazer no pré-natal.




Nenhum comentário: