terça-feira, 13 de dezembro de 2016

Este cadeirante quer falar com quem produz e vai a festivais de música!

  

Há oito anos, Madonna mudou a vida de Pedro Américo Arruda. "Eu tinha medo de ir a grandes shows por causa da minha condição. Mas sou muito fã da Madonna e criei coragem. Não poderia perder aquele show por nada", lembra o cadeirante de 32 anos, que sofre de distrofia muscular, sobre a turnê da cantora "Sweet And Sticky Tour", de 2008.

Desde então, Pedro, que é funcionário público em Sorocaba (SP), já foi em mais de 50 eventos, quase sempre acompanhado de amigos que o incentivaram a criar o canal "Mais Uma Rodada", no YouTube, para dar dicas e mostrar as dificuldades que os deficientes físicos enfrentam em lugares com muita aglomeração.

Pedro percebeu que, na maioria dos shows em que ia, a área destinada aos cadeirantes estava geralmente vazia. "Em um evento para 50 mil pessoas, às vezes só tinha eu e mais um no lugar reservado. Descobri que a maioria dos deficientes fica com medo de sair. Falta informação e até coragem para sair de casa. Eu também era assim. Eu sentia vergonha da minha condição".

De fato, é preciso planejamento e muita paciência. "Compro os ingressos com muita antecedência e tento sempre ir com meus amigos. Compro também o ticket do estacionamento para deficientes e procuro me informar das rotas de acesso ao lugar. Mesmo assim, sempre algo dá errado. As pessoas ainda não estão completamente preparadas para nos atender".

Todas as dificuldades enfrentadas por Pedro são mostradas no canal. E um problema que poderia ser de simples resolução, se torna um imenso transtorno. "Eu já fiquei parado na portaria por 1 hora aguardando o segurança trazer a chave do acesso lateral porque só tinha catraca. E não dá para passar com a cadeira de rodas na catraca. Em outros lugares até existem banheiros adaptados, mas eles ficam trancados e nunca ninguém sabe onde está a chave".

Entre os shows que Pedro já foi, estão grandes eventos como o Lollapalooza, Planeta Terra, Sónar, XXXPerience e Natura Nós. "Aqui em Sorocaba é uma loteria. Eu nunca sei se vai ter acesso para deficientes. Imagino que seja igual em qualquer cidade do interior. É por isso que prefiro ir em São Paulo, onde as coisas já estão um pouco mais avançadas".

No YouTube, Pedro mostra com bom humor que é possível aproveitar grandes shows e elogia quando a organização acerta. No festival Tomorrowland, por exemplo, o segurança o colocou em um carrinho de golfe e o levou até o local reservado. Em um outro festival, o Preparadx, ele comemorou o fato de ter banheiro de alvenaria adaptado. "Na maioria dos casos, nem banheiro tem e eu tenho que segurar a vontade".

Agora, a grande vontade de Pedro é ir ao Rock in Rio. "É o sonho da minha vida. Vou tentar, mas acho que não vou conseguir porque é muito longe e não consegui comprar os ingressos ainda".

Após tantos anos, Pedro já se considera um especialista em grandes eventos. A pedido do UOL, apontou cinco problemas que os organizadores precisam resolver para atender bem todo o público.

Cinco dificuldades que precisam ser resolvidas já:

1. Áreas reservadas

"É imprescindível que existam em todos os eventos áreas reservadas para deficientes físicos. Os organizadores também precisam garantir que o espaço fique em um lugar elevado e com boa vista do palco. Acho importante também que a área tenha cadeiras extras para pessoas com mobilidade reduzida, tipo alguém que quebrou o pé. Um deficiente não pode ficar no meio da plateia porque, se ele cair no chão, pode ser pisoteado. Outra preocupação importante é que o banheiro fique próximo desta área. Já fui em shows com um excelente banheiro, mas muito longe da área, aí não adianta. Em outro evento a área reservada ficava na lateral e não dava para ver o palco".

2. Banheiros adaptados

"Parece uma coisa básica, mas os organizadores ainda não se preocupam com o banheiro adaptado. Quando há, eles têm diversos problemas, como pouco espaço para manobra da cadeira ou simplesmente estão trancados e ninguém sabe onde está a chave. A melhor opção é ter um banheiro de alvenaria, mas já existem no mercado modelos de banheiro químicos para cadeirantes que são excelentes. O banheiro também tem que ficar em um lugar de fácil acesso. Às vezes, existem banheiros, mas eles ficam em um lugar que não tem rampa".

3. Mobilidade dentro do evento

"O evento reserva espaço para deficientes e tem banheiro adaptado, mas esquece de colocar rampas até lá. No Lollapalooza, por exemplo, eu não conseguia me deslocar com facilidade por causa das ladeiras e do gramado. Acho importante ter um caminho adaptado da portaria até os palcos, a área reservada, o banheiro, a praça de alimentação e o estacionamento. Tem que ter um piso preparado por onde possa circular a cadeira, sem ter que passar pela grama ou pela terra. Outro ponto é a criação de saídas alternativas para deficientes. Em muitos shows eu tive que esperar todos saírem para eu conseguir sair, porque era impossível circular naquela multidão".

4. Equipe de apoio

"Um grande evento sempre tem equipes de apoio, como seguranças, bombeiros, mas nem sempre tem uma equipe preparada para atender aos deficientes. Eu já fui em eventos que contava com este tipo de equipe. Tinha um rapaz que ficava "pescando" os deficientes logo na entrada e informava onde ficavam todos os lugares importantes. Depois, ele chamava uma outra pessoa que me acompanharia até os lugares em segurança. Outro ponto sobre essa equipe de apoio também envolve os vendedores de água e cerveja que circulam na plateia. Eles nunca entram na área reservada e nós temos que sair de lá para ir até o bar".

5. Sinalização eficiente

"Todos os festivais já contam com placas que informam onde fica o bar, o banheiro, mas quase nenhum tem placas informando onde ficam os banheiros para deficientes, a entrada para deficiente e o estacionamento. Então, sempre que vou em festivais, eu me informo antes. Quase sempre o funcionário também não sabe onde fica os lugares. Eu conto com a ajuda dos meus amigos. Eles circulam antes pelo festival e depois me buscam na portaria. Desta forma, eu só passo por onde eu tenho certeza que a cadeira de rodas vai passar também".

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