quarta-feira, 28 de dezembro de 2016

Mulheres cadeirantes necessitam de mais cuidados ao engravidar

Depois da dúvida de como seria fazer sexo após o acidente que a deixou tetraplégica, Luciana da novela “Viver a Vida” agora quer saber se pode engravidar.

Lilian Ferreira Do UOL Ciência e Saúde

                                       Arquivo Pessoal
               Aldrey Laufer, cadeirante desde os 21, é casada há 18 anos e tem uma filha de 15

"Há um grande medo do médico que desconhece as limitações da mulher com lesão medular em falar sobre gravidez. O melhor na cabeça dele é falar que não pode, por preconceito", diz a ginecologista Miriam Waligora, coordenadora do programa de atendimento médico à pessoa com mobilidade reduzida do Hospital Maternidade Vila Nova Cachoeirinha.

Mas uma mulher com lesão medular que menstrua normalmente e tem seu sistema reprodutivo fértil pode engravidar. "A gravidez é de risco, como uma mulher com hipertensão ou diabetes", explica Cristiano Milani, vice coordenador do Departamento de Atenção Neurológica e Neurorreabilitação da Academia Brasileira de Neurologia.

Ele lembra ainda que o útero pode ficar mais contraído, o que dificulta a fecundação. E uma vez que isto acontece, o risco de aborto é muito grande em decorrência da infecção urinária, situação bastante comum em cadeirantes. Há também maior incidência de formação de cálculos nos rins e tromboembolismo, por isso os exames de rotina devem ser feitos com maior frequência

                                      
                                Simone Menegotto é tetraplégica e está grávida de 5 meses

Além disso, a grávida cadeirante sente mais dificuldade de posicionamento, com dor nas costas e no corpo. "Sinto dores nas costas e de cabeça, não posso ficar muito tempo sentada, tenho que colocar as pernas para cima. Com o peso a bexiga também ficou mais solta e o intestino não funciona bem", relata Simone Menegotto, que ficou tetraplégica aos 21 anos e, agora, aos 29, está esperando um menino.

Simone conta que a gravidez não foi planejada, já que não poderia cuidar dos filhos. "Eu dependo dos meus pais para tudo: tomar banho, comer etc. Sempre fui muito cautelosa para prevenir, mas uma vez a camisinha furou e eu fiquei grávida. A família quase ficou louca com a notícia, mas agora está todo mundo muito feliz".

Já Aldrey Laufer, paraplégica há 19 anos, diz que quase perdeu a filha, hoje com 15 anos, por causa de uma infecção urinária. Aldrey engordou muito e assim como Simone teve problemas com intestino, bexiga e muitas dores nas costas.

Como é a sensibilidade?

"A sensibilidade é subdividida em tátil, dolorosa, cinético-postural, que você nem pensa, é automática, e é essa que percebe a movimentação dentro do corpo, do intestino ou de um bebê se mexendo", conta o neurologista.

Quando a mulher tetraplégica tem um grande comprometimento, ela pode não sentir os primeiros movimentos do bebê na barriga, mas o lesado medular tem ainda os reflexos vagais. "Quando tem alguma coisa diferente acontecendo, a pessoa tem uma reação, que pode ser um arrepio, por exemplo", conta Waligora.

A mãe cadeirante também sente seu bebê apalpando a barriga ou com percepção de movimentos pelo diafragma. "A pessoa que tem uma deficiência aprende a identificar outras sensações", relata a ginecologista.

Na fase final da gestação a mulher é colocada em um hospital controlado. Dependendo da sensibilidade há um controle mais rigoroso para saber o momento em que deve ser feita a cesariana. Quando a mulher consegue ajudar nas contrações, é possível tentar um parto normal, mas é muito difícil de ocorrer, pondera o neurologista.

As contrações podem ser percebidas, mas a dor é diferente na mulher com lesão medular. "Eu senti as contrações, mas os médicos diziam que não era possível. Aí viram a dilatação e pediram desculpas", lembra Aldrey.

Waligora destaca ainda que a falta de centros de referência é um problema para mulheres com lesão medular grávidas, já que muitos médicos não sabem como agir. "Como as mulheres não estão concentradas em um lugar, é importante que todo médico tenha informação para atender a este público. O centro é importante por isso também, além de poder disponibilizar uma orientação a distância", conclui. O Centro do Hospital Maternidade Vila Nova Cachoeirinha deve abrir em maio.


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