domingo, 11 de dezembro de 2016

Queremos uma educação voltada para o mercado ou para a inclusão?

Todos nós sabemos que, apesar da complexidade dos desafios enfrentados pelo Brasil, determinados argumentos parecem ser compartilhados.

Por Rodrigo Hübner Mendes *

                           Retrato lateral de Rodrigo Mendes

Um deles diz respeito ao papel da educação na construção de um país mais igualitário. Em linhas gerais, acredita-se que a redução das desigualdades econômicas e sociais é diretamente dependente da garantia, a qualquer brasileiro, de acesso a uma educação de qualidade.

Essa constatação nos leva a uma pergunta que deveria estar presente na pauta dos gestores públicos que usufruem do poder de decidir sobre os rumos a serem tomados pela educação de nosso país: que tipo de educação precisamos?

Nos últimos anos, tenho viajado para diversas regiões do mundo em busca de experiências consistentes de educação inclusiva. Com esse objetivo, tive a oportunidade de visitar escolas que se destacam por implementar propostas pedagógicas orientadas não só pelo desempenho escolar mas também pelo acolhimento das diferenças humanas. Além de entrevistar professores e diretores dessas instituições, sempre me aproximo dos gestores públicos responsáveis pela educação da respectiva cidade ou do país.

Ao perguntá-los sobre o tipo de educação que almejam, observo a existência de uma aparente dicotomia entre duas vertentes: uma que é defensora da meritocracia e do desenvolvimento de competências cognitivas voltadas às demandas tradicionais do mercado de trabalho; outra que é comprometida com a igualdade de direitos e é pautada pelo desenvolvimento de competências socioemocionais e pela construção de uma sociedade inclusiva. Em outras palavras, parece haver uma tensão binária entre a educação para o mercado e a educação para a cidadania.


Tenho refletido muito sobre essa suposta dicotomia, e acredito que seja resultado de uma falta de visão. Sejam quais forem os referenciais políticos e ideológicos que nos guiam, todos somos conscientes da amplitude de demandas que nos impactam a cada instante. Somos chamados a planejar, calcular, analisar, estruturar e persuadir, e, ao mesmo tempo, somos convocados a ponderar, tolerar, respeitar, ressignificar e ceder.

Não se trata, portanto, de escolher entre: competitividade ou cidadania; meritocracia ou tolerância; competências cognitivas ou competências socioemocionais. Trata-se de assumirmos a necessidade de uma visão mais ambiciosa de sociedade e, consequentemente, de educação.

Há alguns anos, tive a chance de conversar com Pirjo Koivula, integrante do Ministério da Educação da Finlândia –país que tem se destacado em rankings internacionais sobre qualidade de ensino. Ao perguntá-la sobre como conciliar a busca por desempenho acadêmico com o acolhimento das diferenças, Pirjo explicou que a Finlândia investe continuamente em suporte ao aluno.

Seja qual for o background, todo aluno em algum momento pode precisar de atenção individualizada e os professores são orientados a identificar diariamente aqueles que precisam de apoio. Pessoas com deficiência fazem parte desse processo e acabam sendo tratadas como iguais, pois, assim como as outras, uma criança com deficiência pode precisar de “suporte” e é isso que buscam oferecer. Outra evidência de que tal abordagem não é discriminatória é a opção por abandonar a expressão “educação especial”.

Uma fonte notável de ideias para um educação inclusiva é o professor Thomas Hehir, membro da Harvard Graduate School of Education. Segundo ele, os docentes precisam ter em mente as diversas necessidades e os desafios que os estudantes podem enfrentar. Por exemplo, um aluno disléxico ou um que sofra de ansiedade podem se sentir constrangidos quando chamados para uma leitura oral em classe.

É papel do professor conhecer a história de cada aluno e evitar esse tipo de situação. Ao mesmo tempo, Hehir argumenta que todos os estudantes podem se beneficiar de estratégias de ensino que são criadas a partir de um conceito de desenho universal de aprendizagem. É o caso das pessoas que preferem utilizar tecnologias que transformam textos escritos em textos falados, em vez de utilizarem a leitura convencional. Esse é um recurso normalmente adotado por pessoas cegas, mas que pode ser útil para todos.

Voltando à nossa reflexão inicial, nenhuma das referências aqui citadas rendeu-se à dicotomia entre educação para o mercado versus educação para a cidadania. Mais do que isso, indicaram que é possível transcender a armadilha da escolha simplista entre dois extremos e perseguir uma educação baseada na soma.

Sob outro ponto de vista, assumo a crença de que a educação que precisamos não deve se contentar com a formação de pessoas que se limitam a seguir as regras do jogo e a enxergar o mundo tal como o herdamos. Precisamos buscar um tipo de educação que nutra o desenvolvimento de cidadãos críticos e incomodados. Isso implica considerarmos a formação de seres humanos capazes de romper com visões dicotômicas e de interferir positivamente na complexa tessitura de uma sociedade coesa e igualitária.

*Rodrigo Hübner Mendes é fundador do Instituto Rodrigo Mendes, organização que desenvolve programas de educação inclusiva. Membro do Young Global Leaders e empreendedor social Ashoka.

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