segunda-feira, 30 de janeiro de 2017

Casal de cadeirantes relata a emoção do primeiro Dia da Criança como pais

Por Jairo Marques*

Quanto mais a sociedade avança na garantia de valores que tentam colocar todas as pessoas na “roda da vida” em sua plenitude, mas a diversidade física, sensorial, intelectual e de gênero vai demostrar que “pode tudo”, a sua maneira.

Com mais acesso ao trabalho, com melhores condições de ir e vir (embora não se dispense em nenhum momento um baita esforço pessoal), com menos olho torto para a realidade alheia, todo o mundo consegue praticar cidadania, e ser cidadão significa ter o direito de construir uma família, de mantê-la, de ter planos de levá-la para passear no parque, na fazenda ou onde bem entender.

Neste contexto, mora também o empoderamento reprodutivo! É cada vez mais comuns casais com algum tipo de deficiência, nas mais diversas combinações: ela cega, ele cadeirante; ele cadeirante, ela cega; ele “malacabado”, ela modelo; ele corredor de maratona, ela com o escutador de novela prejudicado ufa.. e aí por diante.

Até pouquíssimo tempo atrás, pessoas com deficiência mal conseguiam se relacionar fruto tanto de preconceito como da falta de oportunidades de sair de casa, de ter domínio da própria vida. Hoje, o povo tá mandando ver e colocando menino no mundo! Aeeeee

E para marcar o Dia da Criança aqui no blog, nada melhor do que um relato pra lá de bonito e emotivo de um casal de cadeirantes que, para a minha honra, se aproximou, namorou e casou após terem se conhecido por “ruas e vielas de palavras” deste diário: a médica Natália Sousa (conheça um pouco da história dela clicando aqui) e o contador Marcos Zufelato.

Os dois relatam um pouco da aventura (ela em vermelho, ele em azul), dos sabores e dos receios de terem um bebê em casa e com eles viverem o primeiro Dia da Criança em família, dando conta de doze rodas… oito de suas cadeiras de rodas e mais quatro do carrinho de Rafaela, a bela filha do casal!

Divertam-se, reflitam e curtam!

Rafaela dorme abraçada com bichinho de pelúcia, em ensaio fotográfico
Rafaela dorme abraçada com bichinho de pelúcia, em ensaio fotográfico

Colocar uma criança no mundo carrega consigo uma tonelada de responsabilidades. E tudo começa antes mesmo dela ser gerada. Será que conseguimos? Como faremos no dia a dia com o carro, carrinho, cadeiras? E quando ela começar a andar? Brinco que não se pode pensar demais, senão desistimos de muitos desafios dessa vida por medo do que pode vir! O melhor é seguir a vontade do seu coração e superar as dificuldades que surgirem com o tempo. Afinal, qual pai não tem desafios diários com suas crianças?! Não seremos os primeiros nem os últimos.

E assim começamos nossa história a três ! Uma vontade enorme de sermos pais, e o desejo prontamente materializado! Era um sinal, se Deus nos abençoou com nosso desejo é porque estamos no caminho certo! “É uma menina!” Não existem palavras para descrever a alegria desse dia. Desde então, nossos dias são muito mais cor de rosa! Dia após dia, fomos estudando como seria o quarto, o trocador, o melhor carrinho e fizemos tudo para cuidar da nossa criança da melhor maneira… A gestação passou com tanta tranqulidade, nos engradeceu e nos preparou para a chegada daquela pequena. Um mundo novo estava por vir ….. e veio…


                        Natália amamenta Rafinha
                       Natália amamenta Rafinha

04/07/2016 : Ela chegou mostrando a que veio …. chorando para que todos soubessem que Rafaela Zufelato tinha nascido!!!! Para mim (Marcos) foi um momento bastante conflitante, não sabia se me preocupava com a mamãe ou com a filhinha, se pudesse me dividiria em dois. Fui acompanhar a gentil e carinhosa enfermeira encarregada de todos os ritos iniciais: limpeza, pesagem, medição. E eu lá, como diria a poetisa Anitta: “babando”.Uma coisa era certa: era linda e tinha uma garganta em perfeita potência. E muito “serelepe” como definiu a enfermeira, pois Rafinha não parava de se mexer, mesmo com poucos minutos de vida já demonstrava seu apetite por tudo o que viria.

                         Marcos tira uma foto com Rafaela colada em seu peito, ainda recém-nascida
                     Marcos tira uma foto com Rafaela colada em seu peito, ainda recém-nascida

Os primeiros dias são desafiadores! Nesse momento nascem medos, inseguranças mas um amor arrebatador. Ali realmente nascemos como pais.

                        Natália em passeio ao sol com a filha, Rafaela
                        Natália em passeio ao sol com a filha, Rafaela

Nosso planejamento foi bem feito, e o mais importante… estávamos dando conta do recado. Isso tirou um enorme peso das costas, pois era o que mais nos preocupava… será que vamos conseguir???? Para espanto de todos, um casal cadeirante e um bebe? E sozinhos??? O mundo está virado!!!! E está mesmo!!! Mais espantados ficam quando eu pego a Rafinha e seguro-a com a desenvoltura de um expert de 12 filhos!!!

Costumo dizer que somos a família de 12 rodas. Até ela começar a andar e descobrir o mundo.Outro momento engraçado é quando entramos no fraldário de um shopping…. quase todos param o que estão fazendo para analisar aquela cena. E para ajudar mais um pouco a amamentação é por conta da mamãe, que dá um show!!!

Ela entrando na salinha com as outras mães é uma cena linda, com um sorriso que não cabe no rosto. E eu lá, firme e forte como segurança dessas preciosidades.Esse mês nossa princesa fez três meses e atingiu a maioridade de bebe, o tão sonhado primeiro trimestre, onde (segundo o pediatra) 75% dos problemas somem…. e sabem que estou achando que ele tinha razão??? Rafaela mostrou-se uma criança muito mais sorridente, chora pouco e adora ver tudo o que está acontecendo ao seu redor.

Os pais Natália e Marcos exibem a cria com orgulho: "somos a família de 12 rodas"
Os pais Natália e Marcos exibem a cria com orgulho: “somos a família de 12 rodas”

Nem sempre é fácil, mas os pequenos momentos fazem tudo, absolutamente tudo, valer a pena!

Não há palavras para descrever o que sentimos quando vemos nossa cria ali, cheia de saúde nos nossos braços.

São três meses que nosso mundo ganhou mais cor, três meses com a família completa e uma vida inteira pela frente. Ter filho é ter o coração cheio de vontade de superar os maiores desafios.

E aí voltam as preocupações e aflições de todos os pais. Será que daremos conta? Os três primeiros meses se foram, mas foi apenas uma gota no oceano chamado vida.

O primeiro Dia da Criança de Rafinha será muito mais festejado pelos pais!
O primeiro Dia da Criança de Rafinha será muito mais festejado pelos pais!

Mal sabe ela que não somos nós que estamos tornando a vida dela mais alegre com toda nossa dedicação. É ela quem nos ensina e nos engrandece a cada dia! O que desejamos para nossa criança é que a felicidade seja rotina, que sua pureza e doçura encantem sempre e transponham qualquer obstáculo.Nossa criança está crescendo e muitos outros “dia das crianças” virão, mas esse primeiro é mais nosso do que dela, tenho certeza!

Jairo Marques*, que é cadeirante, aborda aspectos da vida de pessoas com deficiência e de cidadania. Aqui, você encontra histórias de gente que, apesar de diferenças físicas, sensoriais, intelectuais ou de idade, vive de forma plena


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