domingo, 29 de janeiro de 2017

Deficiente e idoso sofrem em 80% das unidades de saúde

por Elton Rodrigues

Deficiente e idoso sofrem em 80% das unidades de saúde
“É muito inclinada, por isso vou bem devagar. Tenho osteoporose, então preciso tomar muito cuidado”, diz Minervina Pereira de Mello, de 85 anos, sobre a rampa inclinada e má conservada da UBS do Eldorado

A cada cinco postos de saúde de Rio Preto, quatro têm problemas de acessibilidade e dificultam a vida de idosos e deficientes físicos. É o que aponta relatório do Conselho Municipal de Saúde (CMS). De 50 serviços visitados, apenas dez contavam com os principais requisitos para atender deficientes físicos, ainda assim, com alguma de falha na estrutura.

Os conselheiros visitaram as unidades entre janeiro e setembro. As principais irregularidades encontradas foram: falta de rampa para acesso de cadeirantes, ausência de sinalização de solo para deficientes visuais e senha visual e sonora. Também foi avaliada a acessibilidade entre o ponto de ônibus mais próximo e a entrada da unidade. Verificamos se o deficiente tem como descer do transporte coletivo e chegar até a unidade. Na maioria dos casos, a situação é caótica.

No ARE, por exemplo, é difícil para o paciente atravessar a avenida (Philadelpho Manoel Gouveia Neto) e algumas calçadas do entorno estavam precárias", afirmou Julio Caetano, do Conselho Municipal de Saúde. De acordo com ele, as dez unidades que conseguem atender deficientes físicos e visuais são as recém-inauguradas, como as Unidades Básicas de Saúde (UBS) do Parque Industrial e a do Solo Sagrado. "Mesmo assim, em algumas delas faltam sinalização de solo e senha sonora destinadas a deficientes visuais", explica Caetano.

O objetivo dos conselheiros era mostrar para a Secretaria Municipal de Saúde quais as principais dificuldades enfrentadas e cobrar por melhorias. O relatório preliminar foi entregue ao município e o trabalho dos conselheiros vai continuar em janeiro. Existem 10 serviços de saúde pública que ainda não foram visitados. Antes do trabalho, 12 técnicos fizeram treinamento para aprimorar o conhecimento sobre o que é necessário para facilitar o acesso de deficientes físicos e visuais.

O relatório também contou com o auxílio de entidades que representam esse público na cidade, como Apae (Associação de Pais e Amigos dos Excepcionais), Instituto dos Cegos e AACD (Associação de Assistência à Criança Deficiente). Segundo o Conselho, as unidades mais caóticas são as mais antigas e que não passaram por reformas nos últimos anos. Uma delas é a UBS do Eldorado. O piso do local é escorregadio, não tem sinalização para deficientes físicos e nem senha para esse tipo de público.

Na parte externa, uma rampa com inclinação superior a 10% de inclinação - o máximo permitido - e sem corrimão não permite a subida de cadeirantes e dificulta o acesso de idosos com dificuldades de locomoção. "É muito inclinada, por isso vou bem devagar. Tenho osteoporose, então preciso tomar muito cuidado. Essa unidade requer uma reforma", disse a aposentada Minervina Pereira de Mello, de 85 anos. Outra que se queixa é a pensionista Maria das Dores Bazzuto, 67 anos. "Essa unidade de acessível não tem nada.

Não pensam nas pessoas mais velhas e nos deficientes", afirmou. Na UBS do São Francisco, outros exemplos de falta de acessibilidade. A rampa de acesso de cadeirantes, que já foi feita fora dos padrões, está com buracos. O piso não é antiderrapante e as portas são estreitas. "O local de pegar remédio é descoberto e não tem rampa e muito menos sinalização para deficiente físicos. Estamos lutando para conseguir uma reforma aqui", afirmou a vendedora Eva Rubiati, de 51 anos, paciente da unidade e que integra o CMS.

Saúde diz que faz adequações

A Secretaria de Saúde de Rio Preto afirmou que todos os novos prédios e espaços entregues - 22 prédios novos, ampliados ou reformados - durante a gestão do prefeito Valdomiro Lopes (PSB) foram construídos de acordo com as normas de acessibilidade previstas na legislação. "Os demais prédios têm sido adequados, conforme disponibilização de recursos para ampliações e reformas", disse, por meio de nota, a secretária interina de Saúde, Teresinha Aparecida Pachá. Na nota ela citou que a secretaria participa com o Conselho Municipal de Saúde da comissão intersetorial de atenção à saúde da pessoa com deficiência, que trata de assuntos referentes a portadores de deficiências e suas necessidades.

Sergio Isso
UBS da Vila Elvira cujo espaço físico é o pior em Rio Preto na avaliação do Ministério da Saúde

Site ajuda deficiente localizar e avaliar UBS

Um site para ajudar deficientes e idosos dependentes do Sistema Único de Saúde (SUS) a localizar postos de saúde e saber se eles têm toda a estrutura necessária. Com essa proposta surgiu o www.saudeacessivel.com.br, site criado por uma empresa de Rio Preto que ganhou pelo segundo ano consecutivo o Prêmio Nacional de Acessibilidade na Web, o Todos@Web.

Promovido pelo World Wide Web Consortium (W3c), um dos mais importantes órgãos do mundo em qualidade na internet, o concurso tem como objetivo homenagear desenvolvedores que fazem os melhores sites voltado para pessoas com deficiência. O Saúde Acessível faz o seu papel. A página aceita comando de voz e atalhos do teclado como instrumentos de navegação, o que facilita o acesso para os deficientes. Quando o usuário fala "alto contraste" imediatamente o site fica em preto e branco.

Por comando de voz também é possível aumentar e diminuir o tamanho da letra, ouvir o conteúdo do site e procurar o endereço da unidade de saúde mais próxima, função principal da página virtual. Pelo teclado, além dessas opções pela voz, o internauta pode procurar o posto de saúde mais próximo ao digitar apenas três teclas. Ao apertar Alt + 1, o site mostra a Unidade Básica de Saúde (UBS) mais próxima. A página está recheada de dispositivos de acessibilidade e pode ser útil em qualquer cidade do País.

"O foco são as pessoas com algum tipo de deficiência, desde motora a visual. Ganhamos no quesito navegação porque conseguimos trabalhar com o áudio, o que é difícil de fazer", diz Plínio Theodoro, um dos sócios da Mixd, empresa desenvolvedora do Saúde Acessível.

A empresa ganhou troféu e R$ 5 mil como premiação. Assim como no ano passado, o valor será doado para a Associação de Assistência à Criança Deficiente (AACD), de Rio Preto. "A AACD faz um trabalho maravilhoso. Que o nosso gesto possa servir de incentivo para que outras empresas colaborem com esta entidade que sempre precisa de nós", ressalta Theodoro.

Aplicativo

O próximo objetivo da Mixd é criar um aplicativo do site, que será lançado no primeiro semestre do ano que vem. "No site, disponibilizamos notas que o próprio governo dá para as UBS, como estrutura física para deficientes e idosos, medicamentos e equipamentos. Com o aplicativo, o próprio usuário poderá dar suas notas, mostrando a real situação dos postos de saúde."

Basta digitar ou falar o CEP

O Saúde Acessível é abastecido com informações do banco de dados do Ministério da Saúde. Basta que o usuário digite ou fale o número do CEP para que a página indique uma lista de UBS mais próximas. Em primeiro lugar, aparece a unidade que tem melhores condições de atender deficientes e idosos. "Como cerca de 14% da população possui algum tipo de deficiência, seria muito bom se prefeituras e o próprio governo federal seguissem o exemplo e disponibilizassem de forma mais acessível impostos, contas e benefícios", afirma Plínio Theodoro, responsável pelo site.

A página ainda mostra a classificação de cada unidade no levantamento feito pelo Ministério da Saúde em abril do ano passado. Nele, as unidades receberam de uma a cinco estrelas nos itens estrutura física, estrutura para deficientes e idosos, medicamentos e equipamentos. Em Rio Preto, a unidade pior avaliada é a da Vila Elvira. Em três das quatro categorias, o posto de saúde levou uma estrela.

Só foi bem, com cinco estrelas, no quesito medicamento. Quem frequenta o local se diz satisfeito com o atendimento, porém se queixa da falta de espaço e acessibilidade. "No banheiro, por exemplo, não cabe um cadeirante", afirmou a dona de casa Jaqueline Coutinho de Almeira, de 26 anos. "As instalações são pequenas, mas o atendimento é bom. Uma reforma ajudaria", diz o operador de máquinas Aparecido Perpétuo Leopoldino.

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