sexta-feira, 6 de janeiro de 2017

Deficientes apontam os maiores problemas de acessibilidade nos espaços culturais de BH

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A cadeirante Laura Martins sobe a rampa de acesso à Assembleia Legislativa de Minas Gerais

Acessibilidade é… oferecer condições às pessoas portadoras de deficiência ou com mobilidade reduzida de utilização dos espaços públicos ou coletivos com segurança e autonomia, total ou assistida. A vanguarda da luta por um mundo acessível tem sido conduzida pelos portadores de deficiência física, mas as conquistas deles, avisam os especialistas, são para todos. Belo Horizonte, nos últimos anos, avançou no que diz respeito à implantação de estrutura acessível, conta a funcionária pública Laura Martins, que é cadeirante. No entanto, entre aprovar um princípio e implantá-lo há uma distância notável. “Temos ônibus adaptados, mas os elevadores não funcionam”, exemplifica.

Nos espaços culturais, a acessibilidade também oscila. “A maior parte dos teatros está adaptada”, comemora.“Todos têm direito à arte e à cultura. Deficiente não é ser humano de segunda categoria”, avisa. “E há cinemas onde os lugares reservados para cadeirantes são tão próximos da tela que o deficiente acaba no hospital por ficar com o pescoço muito levantado”, critica Laura. O ideal são salas semiplanas e lugares para os cadeirantes no fundo, “o que também existe”. A maior parte dos museus entrou na linha. “Mas ainda não existe projeto de acessibilidade para o conjunto arquitetônico da Pampulha”, observa.

Laura relata que há bares e restaurantes “excelentes”. Outros, atendendo a pedido dos clientes, fizeram mudanças e se tornaram acessíveis. “E há quem me deu resposta grosseira por eu perguntar se a casa estava adaptada a cadeirantes”, lembra Laura. “Ainda há muita incompreensão com o universo público da deficiência”, garante. Só rampa não basta, já que algumas são muito íngremes. Ajudam, e muito, banheiros com portas largas e barras de apoio, pias sem colunas, vagas reservadas em estacionamentos. Fã de viagens, ela criou o site Cadeira Voadora (cadeiravoadora.com.br), onde dá dicas e relata as condições de acesso a determinados locais em várias cidades.

O humorista Geraldo Magela, o Ceguinho, confirma que muitos espaços culturais já incorporaram o tema da acessibilidade. “O problema é como chegar até eles, já que, muitas vezes, o caminho é acidentado”, observa, lembrando-se de buracos nos passeios.

“Sinalização tátil no piso é uma boa ideia, mas é comum ela conduzir a orelhões, bancas de revista, mesas de bar e até terminar em degraus”, conta. Na opinião de Magela, bom mesmo para os deficientes são aplicativos e programas que permitem o acesso às novas tecnologias. “Mas eles ainda são caros para a maioria dos cegos”, observa.

Os teatros, assim como os botecos, são lugares tranquilos, de acordo com o ator. “Sempre tem quem ajude”, observa. Com bom humor, diz que chato é quando alguém confunde cego com surdo. “Em vez de oferecer o braço, fica gritando no ouvido”, conta. Filmes com audiodescrição ainda são raros. Uma exceção é o curta Morte cega, dirigido por Paulo Villara e estrelado por Magela.

O aposentado Gilberto Porta tem 55 anos e, em 1987, sofreu acidente ao mergulhar em piscina rasa. Bateu a cabeça no fundo e fraturou duas vértebras da região cervical, ficando tetraplégico. Ele é fã de esportes radicais, ou, como prefere, esportes de aventura. Já fez tirolesa, rapel, voo de balão, mergulho – inclusive em lagoa no fundo de uma caverna. Em geral, faz isso tudo acompanhado.

“Se dá vontade, faço e ponto. Só tenho medo de ficar parado”, brinca o criador do blog bhlegal.net sobre lugares acessíveis e prestadores de serviço na área.

“Avançamos muito no tema da acessibilidade”, conta Gilberto Porta, explicando que o conceito chegou a comércio, hotéis, bares, restaurantes e até às agências de viagem. Porém, afirma que ainda é um desafio andar de cadeira de rodas nas ruas de Belo Horizonte. “É difícil encontrar um quarteirão onde se possa andar sem problemas”, garante. Para ele, pesa “a mania de usar pedras portuguesas nas calçadas”, o que complica o andar de todos – não só dos cadeirantes. “Todo mundo tem alguma dificuldade”, alerta.

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Calçamento com piso tátil muitas vezes é mal instalado, guinado o deficiente visual a obstáculos

Gilberto explica que é uma satisfação quando encontra cardápios em braile, alguém que fale libras e banheiros adaptados. Os últimos, explica, com detalhes como espelho levemente inclinado para que o cadeirante possa se ver ou porta-toalhas mais baixos.

Por outro lado, relata encrencas, como carros estacionados sobre rebaixamentos para cadeirantes e motoristas que desrespeitam vagas reservadas. “É falta de educação”, critica.

O deficiente visual Flávio Oliveira, historiador, doutor em educação e consultor em acessibilidade cultural, explica que hoje existe razoável consciência no tocante à importância da remoção de barreiras arquitetônicas nos equipamentos culturais e de lazer.

“Para que BH seja percebida como uma cidade onde o lazer e a cultura são mais humanizados, é preciso investir bem mais no treinamento das pessoas que lidam diretamente com o público para que essas adquiram, por exemplo, naturalidade e desenvoltura ao lidar com pessoas com deficiência”, argumenta.

Flávio aponta carência na oferta de recursos de acessibilidade comunicacional, como audiodescrição e interpretação em língua de sinais em quase todos os filmes, exposições e espetáculos. O especialista confirma que o maior nó são calçadas em péssimo estado. “Especialmente fora do Hipercentro”, frisa.

“Mesmo no Hipercentro, as calçadas estão repletas de obstáculos, como lixeiras, postes mal colocados, mesinhas de bares, orelhões sem sinalização. Esses equipamentos urbanos constituem embaraço e um sério risco de acidente para as pessoas com quaisquer limitações, o que inclui não só pessoas com diferentes tipos de deficiência visual ou motora, mas também idosos, pessoas com carrinhos de bebês ou qualquer outra situação permanente ou temporária de mobilidade reduzida”, conclui.

Três perguntas para…

Flávia Pinheiro Tavares torresarquiteta, urbanista e assessora técnica especializada em acessibilidade do Crea-MG

1 Acessibilidade é um tema exclusivo das pessoas com deficiência?

Não. Quando há garantia da acessibilidade, a sociedade em geral será beneficiada e poderá usufruir de melhores condições de acesso e de uso de equipamentos/mobiliários urbanos. As pessoas que não têm deficiência estão sujeitas a quebrar uma perna e também envelhecerão… Da mesma forma, mulheres grávidas e pessoas obesas necessitam de espaços e acessos mais amplos. O ideal seria que todo projeto fosse concebido e executado de acordo com os princípios do desenho universal, promovendo a inclusão e a utilização por qualquer indivíduo com autonomia e segurança.

2 Quais os erros mais comuns em espaços culturais e de lazer?

Os erros mais comuns, não só em espaços culturais e de lazer, mas também em qualquer tipo de edificação, são com relação aos centímetros. Por exemplo, uma soleira mais alta, um degrau para acessar uma rampa, uma porta de acesso de 70cm, corrimãos altos ou baixos demais… Além dos “centímetros” a mais ou a menos, também é comum a sinalização inadequada e, quando há piso tátil, geralmente é instalado de forma incorreta.

3 Calçadas em boas condições são fundamentais para garantia da acessibilidade?

Sim. São essenciais, pois integram as rotas acessíveis. O conceito de rota acessível é primordial para a promoção completa da acessibilidade. Trata-se do trajeto livre, desobstruído e sinalizado que conecta os ambientes externos e internos de espaços e edificações, proporcionando o deslocamento autônomo e seguro de todas as pessoas. Ou seja, uma edificação pode ser totalmente acessível, mas se a calçada de acesso a ela não for acessível, uma pessoa com deficiência não conseguirá acessá-la. Assim, as calçadas são fundamentais para a garantia da acessibilidade, uma vez que funcionam como elo entre os espaços externos e internos.

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