quarta-feira, 4 de janeiro de 2017

Mortes por excesso de trabalho refletem desafios do Japão para mudar cultura da hora extra

Simeon Paterson Da BBC News

Reprodução/TV Asahi
Antes de se suicidar, Matsuri Takahashi (retrato) disse que estava exausta pelo trabalho
Antes de se suicidar, Matsuri Takahashi (retrato) disse que estava exausta pelo trabalho

Mortes por excesso de trabalho são um problema tão antigo no Japão que há até uma palavra para designá-las: karoshi.

Agora, o governo e a iniciativa privada estão tomando uma medida para tentar diminuir o problema: trabalhadores poderão sair do trabalho mais cedo uma vez por mês.

O plano "Sexta-Feira Prêmio" incentiva empresas a liberarem seus funcionários às 15h da última sexta-feira do mês, a partir de fevereiro. Ainda não se sabe quantas companhia vão aderir.

A ideia ganhou força após o suicídio de uma funcionária da Dentsu, maior agência de publicidade do país, que costumava fazer mais de 100 horas extras mensais.

Sua morte foi apontada como um caso de karoshi e gerou uma investigação, levou ao pedido de demissão do presidente da companhia e causou muita preocupação em relação à cultura de trabalho japonesa.

Mas, com cerca de 2.000 mortes anuais ligadas ao excesso de trabalho no Japão, muitos dizem que o plano é apenas um pequeno passo rumo a uma mudança de atitude.

E não é a primeira vez que isso é visto como um problema no país, nem se trata da primeira tentativa de remediá-lo.

Descanso forçado

O governo já tentou --sem sucesso-- fazer com que os japoneses aproveitem todo seu tempo de folga, porque, segundo o Ministério do Trabalho, eles usam só metade do que têm direito.

O número de feriados foi elevado para 16 por ano --em parte, para forçar as pessoas a descansarem.

O governo também encorajou a adoção de horários flexíveis, permitindo que funcionários públicos entrassem e saíssem mais cedo do escritório durante o verão.

Outra tentativa foi cortar a energia nos escritórios tarde da noite --algo que a Dentsu está tentando agora.

Isso contribuiu para mudar a ideia de que trabalhar além do horário é algo bom e fez alguns trabalhadores passarem a ir para casa na hora certa em alguns dias e a anunciarem a mudança nas redes sociais para encorajar outros a fazerem o mesmo.

Ainda assim, a carga horária não foi muito reduzida. Cerca de 22% da população trabalha mais de 49 horas por semana, de acordo com dados de 2014 do Instituto de Política do Trabalho e Treinamento do Japão.

Os dados colocam o país atrás da Coreia do Sul, com 35% dos trabalhadores cumprindo uma jornada assim, e na frente dos Estados Unidos, onde o índice é de 16%.

Por que mudar?

Para o governo e empresas, há um interesse próprio, já que a economia do Japão está estagnada há mais de duas décadas.

A situação ficou pior com uma redução do consumo e da taxa de natalidade, dois fatores agravados pelo fato da maioria dos trabalhadores passar a maior parte do tempo útil em uma mesa de escritório.

A produtividade e a eficiência também estão sendo prejudicadas à medida que os trabalhadores estão sempre à disposição. Dessa forma, as empresas não investem em tecnologias que economizam mão de obra.

Toshihiro Nagahama, economista-chefe do Instituto de Pesquisa de Vida Dai-ichi, disse que o consumo privado poderia subir 124 bilhões de ienes (R$ 3,24 bilhões) em cada "Sexta-Feira Prêmio" se 100% dos empregados incluídos no programa forem para casa às 15h.

Mas ele diz não saber quantas pessoas de fato farão isso, o que pode minar o impacto positivo na economia caso muitos ignorem a ideia.

Mas por que companhias e empregados não adeririam ao plano? Bom, ser o primeiro a mudar seria difícil. As empresas estão enfrentando custos elevados, e os trabalhadores japoneses se sentem culpados de deixar colegas para trás.

"Há senso aguçado de trabalho em equipe e uma preocupação em não desapontar os colegas", disse Magahama.

Menos lealdade

Ter menos mão de obra ainda é especialmente difícil para pequenas empresas e negócios que estão batalhando para reduzir seus custos. O fato de muitas empresas serem familiares também torna antecipar o fim do expediente algo ainda mais complicado.

Mesmo com a "Sexta-Feira Prêmio", Nagahama acredita que muitos empregados compensarão as horas de trabalho em outros dias da semana ou se comprometerão com tarefas no horário de folga recém conquistado.

E não está claro se o governo do Japão implementará a ideia em sua própria estrutura - apesar do ministro da Economia, Trabalho e Indústria, Hiroshige Seko, ter dito que não marcará compromissos depois das 15h nestes dias.

Ainda que mudar uma cultura de trabalho tão enraizada seja difícil e que muitas tentativas anteriores tenham fracassado, ironicamente, o esforço atual pode ter a seu favor um declínio na lealdade dos trabalhadores às empresas.

Afetados pela reestruturação dos contratos de emprego que duravam a vida toda e faziam seus pais trabalharem em apenas uma companhia, os jovens podem achar que a chance de ir para os izakayas (bares) mais cedo em algumas sextas-feiras é o estímulo que faltava para adotar uma rotina de trabalho mais equilibrada.

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