sábado, 14 de janeiro de 2017

Pesquisas para incluir pessoas com deficiência têm cortes em Campinas - Veja o vídeo.

Centro voltado à inclusão no CTI Renato Archer perdeu 17 bolsas.Governo federal diz que suspensão foi necessária para reestruturar setor.

Roberta Steganha Do G1 Campinas e Região

Lousa digital é um dos projetos desenvolvido no centro (Foto: Reprodução/ EPTV)
Lousa digital que ajuda pessoas com deficiência foi desenvolvida no centro (Foto: Reprodução/ EPTV)

O Centro Nacional de Referência em Tecnologia Assistiva (CNRTA), que é vinculado ao Centro de Tecnologia da Informação Renato Archer (CTI Renato Archer), de Campinas (SP), perdeu 17 bolsas de pesquisas voltadas para a inclusão de pessoas com deficiência em janeiro deste ano. Os estudos fazem parte do programa “Viver sem Limite”, que é o Plano Nacional dos Direitos da Pessoa com Deficiência. O governo federal afirma que a suspensão é necessária para reestruturação do setor.

Com os desligamentos dos pesquisadores-bolsistas, sobraram apenas dois servidores no CNRTA para gerenciar os projetos que visam, por meio da tecnologia, garantir a igualdade de oportunidades para as pessoas com deficiência.

"A gente tem pesquisas aqui que já estão em andamento e pesquisas que já são comprovadas, que nem a leitura de tela. Então, por exemplo, a criança que está na escola, que é cega, como é que ela vai acompanhar? Então, a tecnologia que a gente utiliza é uma lousa digital (adaptada). É uma coisa criada aqui e que tá difundida", conta a pesquisadora Tatiane de Vietro, que foi uma das bolsistas desligadas.

"Por exemplo, a criança que está na escola, que é cega, como é que ela vai acompanhar? Então, a tecnologia que a gente utiliza é uma lousa digital. É uma coisa criada aqui e que tá difundida"
Tatiane de Vietro, pesquisadora

Além da lousa digital, que usa uma caneta que transforma vibração em movimento, e do leitor de tela, que funciona como um tradutor de imagens, alguns exemplos de projetos já desenvolvidos no centro são o "Auxilis", que ajuda pessoas com redução de mobilidade a usar tablets e computadores por ruídos ou piscar de olhos e o "Movimento Libras", que consiste em um programa que lê movimentos de membros e expressões faciais para a criação de um banco de dados para a criação de uma intérprete virtual da linguagem.

"Alguns projetos como o da educação e da mobilidade já estavam sendo testados na comunidade. Alguns projetos tentam melhorar também os já existentes como a cadeira de rodas para que a pessoa possa realmente fazer parte da sociedade", explica Tatiane.

Pesquisadora da área da educação foi uma das desligadas (Foto: Roberta Steganha/ G1)
Pesquisadora Tatiane de Vietro da área da educação foi uma das desligadas (Foto: Roberta Steganha/ G1)

Cancelamento
Segundo Tatiane, em dezembro os pesquisadores ficaram sabendo que as bolsas seriam canceladas e organizaram uma petição online para tentar sensibilizar o Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI) sobre o impacto social do corte. A previsão inicial era de que as bolsas tivessem até três anos de duração, mas os profissionais foram dispensados com oito meses de projeto.

"Nossas bolsas foram interrompidas"
Marli Andreia Abraão, pesquisadora

"Em dezembro, a gente ficou sabendo e 5 de janeiro foi a data estipulada. Eu fiquei angustiada. [...] Aí você tem um processo do andamento da sua pesquisa, aí acabou, vai vir alguém? Não é isso que vai acontecer. A gente é o pólo que tá discutindo isso, como é que vai ficar a inclusão dessas pessoas? Vai ficar prejudicada", desabafa.

A bolsista Marli Andreia Abraão também foi uma das desligadas. Ela estava no CNRTA há oito meses e conta que ficou surpresa com a interrupção do projeto.
"Nossas bolsas foram interrompidas. O meu projeto era como passar a Lei Brasileira de Inclusão para linguagem acessível [...] Nem dormi à noite, fiquei muito triste. Mas, como a causa é nobre e eu tenho pendências, ainda estou trabalhando para entregar", revela.

Tatiane ressalta ainda que os pesquisadores não receberam uma explicação formal sobre o motivo do corte de verbas. "Disseram que tem a verba para chegar do governo federal e que não foi repassada. Não deram uma explicação. Como é que fica sociedade perante isso? Tem projeto que tava em fase de maquete de teste. A gente tava fazendo uma modelagem da política pública. Com a modelagem, você consegue ter uma leitura antes, tipo será que aquela escola vai ser boa naquela comunidade? Então, a gente conseguiria fazer essa prevenção antes. Já tava isso em discussão em nível municipal, então, parou tudo", pontua.

Projeto lê expressões faciais  (Foto: Reprodução/ EPTV)
Projeto lê expressões faciais para criar intérprete virtual (Foto: Reprodução/ EPTV)

Questão financeira
Segundo o diretor do CTI, Victor Pellegrini Mammana, as bolsas do CNRTA foram cortadas por questões financeiras. "Perdemos bolsas em janeiro, mas o centro existe.[...] Então, em resposta a essa petição que foi feita e tem várias assinaturas, o CTI já está se mobilizando junto ao secretário do nosso ministério para que a partir do dia 20 a gente consiga já consertar isso", afirma.

"O CTI já está se mobilizando junto ao secretário do nosso ministério para que a partir do dia 20 a gente consiga já consertar isso"
Victor Pellegrini Mammana, diretor do CTI

Ainda de acordo com Mammana, a solução para o caso seria a realocação desses recursos na instituição.

"Nós perdemos muitas competências importantes. [...] Então, o trabalho principal que estava sendo feito pelo CNRTA era modelagem do programa Viver Sem Limite 2. Essa equipe que foi desmobilizada, embora o projeto tenha quatro anos, ele funciona de três em três anos pelo tipo de bolsa. Essa equipe estava de seis a oito meses. Então, é uma equipe nova, iniciando seus resultados e o principal resultado era a modelagem do projeto", destaca.

O diretor explica ainda que o CNRTA foi criado em 2012 e desde então, passou a fazer parte das atribuições do CTI a tecnologia assistiva, que é voltada para as pessoas com deficiência. "E em 2016, ele foi colocado no regimento interno, então, é uma coisa que está cristalizada, mas tem agora essa questão que se coloca a partir do dia 5 de janeiro que é a perda desses profissionais [...] Então, ganhamos o CNRTA no regimento interno, mas ao mesmo tempo vamos ter a partir do dia 20 uma discussão para ver se recuperamos (as bolsas)", conclui.

Reestruturação
Em nota, o MCTI informou que a cada ano há uma necessidade de renovação das bolsas e que neste, em razão da reestruturação do setor, houve a necessidade de suspender as bolsas.

No entanto, disse ainda que a situação dos bolsistas do programa será equacionada em breve e que acredita que não haverá prejuízo maior para os projetos em andamento.

Além disso, reforçou na nota que "o MCTIC apoia e incentiva as ações do Centro Nacional de Referência em Tecnologia Assistiva (CNRTA), o que é evidenciado, entre outras ações, pela recente inclusão do Centro na estrutura do CTI Renato Archer, unidade de pesquisa do MCTIC, por meio da Portaria nº 5146", consta no texto.

Sobre o CTI
Inaugurado em 2012, o CNRTA foi oficializado com uma portaria assinada pelo Ministro da Ciência, Tecnologia e Inovação e teve investimento inicial de R$ 12 milhões para desenvolver tecnologias voltadas para a melhoria da inserção das pessoas com deficiência na sociedade.

O CNRTA faz parte do Centro de Tecnologia da Informação Renato Archer - CTI, unidade de pesquisa ligada ao MCTI, que foi inaugurada em 1982 e desde então, atua na pesquisa e no desenvolvimento em tecnologia da informação.

Click AQUI para ver o vídeo.

Fonte: g1.globo.com


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