domingo, 15 de janeiro de 2017

Relato de Thaíse Maki...

                           

E então percebo que já se passaram 16 anos; que a data do acidente (10 Janeiro) deixa de ter tantas lembranças amargas; que prefiro (sem sombra de dúvidas) ser essa mulher que a vida lapidou, apesar das limitações...

Um carro seguro, uma tarde de férias, animal na estrada e estar sem o cinto de segurança... Uma combinação que me "deu" a vida em uma lesão cervical C4 a C6, aos 19 anos.

Muita gente fala muita coisa, dão mil versões e outros mil "se" para o meu acidente. Não importa!

Fato eh: Nunca aprendi a andar sob 2 rodas (odiava bicicleta e nunca aprendi a andar naquilo) e agora sou obrigada a viver em 4 rodas enquanto vida eu tiver.
                                            
Se me assustou? POR ÓBVIO. E eu ainda era "gigante" o suficiente pra ter uma cadeira que não passava nas portas comigo (aff)... Não gostava de espelhos (fiquei tanto tempo no CTI que descobriram que meu cabelo nem era preto e liso kkkkk)... Não gostava dos mesmos passeios que antes... Odiava quando as pessoas me olhavam com cara de dó (mas nem percebia que nem todas elas faziam isso. Na verdade, esse sentimento partia muito de mim e isso me cegava).
Quem gosta de ficar ao lado de gente negativa assim? Cruzes...

Então, já que "estava na merda mesmo" (pois é assim que interpretamos a situação, num primeiro momento), era hora de tirar proveito disso e de aprender a gostar daquilo que eu via quando passava por qualquer coisa que mostrava meu reflexo.

Sair do respirador... Reabilitação... Dieta... Terapia... Fechar escaras (que nem foram poucas)... Mais dieta!!!

        

Como muitos outros, posso dizer que minha família foi determinante para a minha recuperação. Dias e noites fazendo plantão, tentando entender o que eu falava com os lábios (porque com a traqueostomia não saia som), carregando, dando banho, trocando fraldas, fazendo cafuné até nos dias em que eu mandava eles pro *$#@%$#... O que eu seria sem eles???

Perdi "amigos", ganhei outros pais e irmãos que a vida cuidou de colocar no meu caminho...
E como "escolhas implicam em renúncias", optei por voltar a fazer o que mais gostava... Estudar! Só assim iria garantir uma oportunidade de trabalho no futuro e conseguir certa "independência".

                                  

E o futuro foi complicado, mas gratificante.
Graduação, Pós Graduação, OAB, Concurso Público ( e ainda precisando tomar vergonha na cara para melhorar mais e mais...)

Hoje só posso agradecer a Deus pelas escolhas feitas e pela proteção que me destes durante toda minha trajetória. VIVER não é fácil... precisamos SOBREVIVER às vezes. Mas "nada como um dia após o outro"...
Tem hora que dá vontade de gritar e sair correndo (mas minha parte respiratória não é lá uma "Brastemp" e sair correndo... ... ...)
Daí paro, olho pra trás e vejo o que esses 16 anos representam pra mim... Olho para o lado e vejo Pais maravilhosos e Anjos ao meu redor...
Eu reclamo sim... Mas passa logo... Também aprendi a me conhecer no meu silêncio.

   

Pensa na cena: uma taça de vinho, um queijinho (limão e sal hummmmmm), olhando pela janela numa noite perfeita e "aquela" sensação de dever cumprido (ou quase) na busca da melhor versão de mim. Gosto de dias assim.

Um dia é muito bom... O outro é mais quieto... Mas se você puder se dar um instante que te traga prazer (5 minutos da sua noite, por ex.) e aprender a olhar tudo o que passou e quanto amor está em sua volta, você certamente será UMA PESSOA MAIS FELIZ e menos complicada (rsrsrsr)!

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