segunda-feira, 27 de fevereiro de 2017

A incrível história do piloto sem braços e pernas que compete no Rali Dakar

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Fã de automobilismo e esportes radicais, Croizon participa agora da competição que percorre estradas do Paraguai, Bolívia e Argentina

Sem limites na água, no céu e também na terra.

Assim pode ser definido o francês Philippe Croizon, primeiro piloto sem braços e pernas a participar da mais difícil e longa prova motorizada do mundo, o Rali Dakar, que começou há dois dias no Paraguai.

Com a nova empreitada, o atleta de 48 anos, que já recebeu o título de Cavaleiro da Legião de Honra da França, demonstra querer de novo se superar.

Depois de saltar de paraquedas a mais de 4 mil metros de altura, atravessar o Canal da Mancha e fazer a travessia dos cinco continentes a nado, Croizon agora vai cruzar um deles sobre quatro rodas.

Não tem sido um desafio simples, por causa da logística e da dificuldade de competir nas dunas e estradas que cortam o Paraguai, a Bolívia e a Argentina.

Cruzar a linha de chegada em Buenos Aires, no dia 14 de janeiro, é seu sonho.

Mas ele já cumpriu o primeiro objetivo: estava na largada do rali.

O começo

O atleta francês não é deficiente físico desde o nascimento.

Sua vida mudou aos 26 anos, depois de um acidente trágico em que sofreu ferimentos tão graves que foi necessário amputar seus membros.

Em 5 de março de 1994, o então metalúrgico subiu no telhado de casa para arrumar a antena de TV. Ele recebeu duas descargas elétricas de 20 mil volts, que provocaram queimaduras graves e uma parada cardíaca.

Croizon ficou três meses no hospital, onde passou por várias operações.

“Primeiramente, eu sou Philippe Croizon”, diz ao apresentar-se. E, só depois, acrescenta: “Sou deficiente físico”.

Mas sua transformação em adepto de esportes radicais e exemplo de superação não aconteceu da noite para o dia.

Foi um longo processo, que começou quando ele estava no hospital, dois meses depois do acidente.

Do leito, ele viu na TV a história de uma francesa que cruzara o Canal da Mancha a nado e se perguntou: “Por que não faço isso?”

Passaram-se 14 anos até que ele pudesse começar a treinar. Depois disso, nada mais foi capaz de pará-lo.

Após cruzar o Canal da Mancha, o francês decidiu unir os cinco continentes a nado – desafio que completou em 2012.

A ‘loucura’

Amante das competições automobilísticas, há pouco mais de um ano ele estabeleceu seu novo desafio: competir no Rali Dakar.

As pessoas mais próximas achavam uma loucura alguém sem braços nem pernas pilotar um veículo em uma prova tão difícil quanto essa, que desde 2009 é disputada na América do Sul.

O patrocínio da aventura conta em muito com a colaboração doo príncipe Nasser al Attiyah, do Catar, vencedor do rali em 2011 e 2015.

“Sempre comparo a deficiência física com o esporte de alto nível”, disse ele à BBC.

“O deficiente também luta por um resultado e para se superar, por exemplo, quando consegue pôr as meias sozinho.”

Equipe de peso

Philippe Croizon terá como copiloto Cédric Duplé em um buggy adaptado da equipe do francês Yves Tartarin, um experiente corredor que disputou o Dakar 18 vezes desde 1988.

O sistema de direção é idêntico ao que Croizon tem no seu próprio carro.

“Controlo tudo com o braço direito. Com o esquerdo quase não faço nada, só acendo os faróis e um pouco mais”, contou em entrevista ao jornal espanhol “Marca”.

“Tenho um controle que uso para acelerar, frear e girar o volante. É como jogar videogame em uma tela gigantesca”, brincou.

Até o momento, ele cumpriu a primeira etapa e completou o trecho entre as cidades de Assunção, no Paraguai, e Resistencia, na Argentina.

Foram os primeiros 454 km do total de 9 mil km da prova.

“O acidente mudou tudo, mas gosto da minha vida, consegui fazer algo. Sou independente e esta é a minha meta.”

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