terça-feira, 21 de fevereiro de 2017

Diagnóstico precoce de problemas oculares é imprescindível para desenvolvimento de bebês com zika

Vírus destrói retina e nervo óptico dos bebês; 30% dos bebês com vírus têm alterações graves

Ana Luísa Vieira, do R7

Reuters

Crianças com zika podem apresentar cegueira, glaucoma e estrabismo

As deficiências visuais e oftalmológicas das crianças infectadas pelo vírus zika são tema de preocupação entre os profissionais da saúde. Segundo Rubens Belfort, professor titular no departamento de Oftalmologia da Unifesp (Universidade Federal de São Paulo), 30% dos bebês com zika têm alterações oculares graves. “Com frequência, nós médicos vemos crianças com zika que são cegas, porque o vírus destrói a retina e o nervo óptico. Além disso, há ainda relatos de glaucoma e estrabismo. Os danos são sempre irreversíveis”. O assunto foi debatido no 40º Simpósio do Instituto Paulista de Estudos e Pesquisas em Oftalmologia, realizado na sexta-feira (17) em São Paulo.

No evento, a médica oftalmologista Liana Ventura, presidente da Fundação Panamericana de Oftalmologia, apresentou sua experiência com o tratamento de mais de 150 crianças diagnosticadas com o zika vírus em Recife, Pernambuco. De acordo com a especialista, o diagnóstico precoce dos problema visuais é imprescindível para que os pacientes apresentem avanços nos campos neurológicos e até motores. Entre as complicações mais comuns nessas crianças, a especialista destacou erros refrativos — como miopia, astigmatismo e hipermetropia —, estrabismo e hipoacomodação — que é quando o olho do bebê não consegue se acomodar no lugar certo para que ele veja as coisas de forma nítida.

Quando nós começamos a detectar esses problemas visuais, nós passamos a oferecer aos pacientes óculos com lentes de foco visual a 33 cm. Nós percebemos que, se os bebês têm um foco visual com distância entre 20 e 33 cm — que é a área de interesse maior da criança —, eles vão desenvolver mais os campos subsequentes. Quando o olho não consegue focar, por exemplo, no rosto da mãe, o bebê perde o interesse no meio ambiente à sua volta. Ele baixa a cabeça e até fica com os olhos fechados, muitas vezes. O melhor de tudo tem sido ver que a resposta é imediata: a criança começa a enxergar o mundo de novas formas assim que coloca os óculos. Ela descobre coisas que não estava vendo antes e aí, com o estímulo da terapeuta, os outros campos visuais, neurológicos e até motores se desenvolvem muito mais.

O zika vírus provocou alerta no Brasil principalmente pela possibilidade de provocar microcefalia nos bebês — condição em que cabeça e cérebro dos bebês são menores que o normal de outros indivíduos da mesma idade. Liana afirma, entretanto, que a condição é apenas a ponta do iceberg na realidade das crianças infectadas pelo vírus. O que realmente assusta são as outras condições associadas com a infecção pelo vírus.

São casos mais desafiadores para os profissionais, porque a microcefalia é evidente, mas os outros achados — neurológicos, visuais e de outros órgãos — exigem uma equipe muito mais especializada para detectar problemas funcionais, visuais e cerebrais. Geralmente, quando a mãe identifica um sintoma como rash cutâneo ou outra manifestação, é mais fácil diagnosticar de forma precoce e desenvolver um tratamento adequado. Mas quando a síndrome do zika congênita é assintomática — o que representa 80% dos casos —, a doença só vai ser identificada quando o desenvolvimento da criança já estiver comprometido.

Para a oftalmologista, o comprometimento das redes pública e privada em diagnosticar os bebês de forma precoce é imprescindível para uma melhora das perspectivas. A médica ainda enumerou outras morbidades causadas pela infecção do zika, como crises convulsivas, dificuldades de deglutir e acúmulo de líquido no crânio. Neste sentido, o tratamento individualizado faz toda a diferença, reforça a médica

É importante orientar a mãe e a família quanto aos primeiros socorros que são necessários durante essas crises rápidas, que exigem cuidados emergenciais. Vale ainda ressaltar que nenhum caso é igual a outro. É preciso que haja um planejamento da reabilitação, uma intervenção precoce. O objetivo é atuar no que se chama de período sensível para o desenvolvimento da criança, em que todas as estruturas nervosas do corpo do bebê desenvolvem novas rotas, novas estratégias para que ela possa ter melhores oportunidades.

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