quinta-feira, 23 de fevereiro de 2017

Jovem com síndrome de Down se forma em faculdade de gastronomia - Veja o vídeo

Guilherme Campos estudou em escola regular e se inscreveu no vestibular sozinho, sem contar aos pais. Desafio é conseguir um emprego em restaurante.

Por Luiza Tenente, G1

   Guilherme prepara receitas para a família em casa (Foto: Luiza Tenente/G1)

Guilherme Campos, de 23 anos, mostra, todo orgulhoso, o cardápio que preparou no trabalho de conclusão do curso de gastronomia: camarão, risoto, medalhão. Ele se formou em dezembro de 2016, na Universidade Anhembi Morumbi. Na etapa final, elaborou pratos a todos os convidados da família e aos chefs, que avaliariam o desempenho da turma. Francine, namorada que conheceu na infância, quando “ainda era uma amizade colorida”, disse que foram os melhores pratos que já comeu.

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A família do jovem não imaginava que ele faria faculdade um dia. Há dois anos, Deise Campos, mãe de Guilherme, entrou no quarto e viu seu filho lendo um e-mail no computador: era um aviso sobre a data do vestibular. O menino, que tem síndrome de Down, havia se inscrito no curso de gastronomia sem contar para ninguém.

No dia do exame, teve uma hora a mais que os outros candidatos para poder fazer a redação – seus textos sempre foram elogiados pelos professores, ele conta. Os resultados saíram e o nome de Guilherme estava na lista de aprovados. Foi o assunto da festa de 90 anos da avó. “O Gui passou no vestibular!”

Antes de tudo, a escola
Os pais de Guilherme haviam optado por tirar o filho da escola quando ele concluiu o ensino fundamental II. “O ensino médio teria biologia, química, física, matérias mais difíceis. Achamos melhor procurar outras alternativas”, conta o pai, Eduardo Campos.

Guilherme, então, passou um ano na Associação para o Desenvolvimento Integral do Down (Adid), onde aprendeu a dançar e a fazer teatro. Interpretou personagens de Sonho de uma Noite de Verão, de Shakespeare, e de Os Miseráveis, de Victor Hugo. E conheceu a cozinha. “Mas era muito básico, precisava de mais. Queria fazer faculdade”, diz Guilherme.

Contou aos pais sobre sua vontade em fazer o curso superior em gastronomia. A família apoiou a decisão do menino e o matriculou em uma escola estadual, para concluir o ensino médio e assim poder pleitear uma vaga na universidade. “Escolhemos um colégio público porque, infelizmente, sabemos que é mais fraco. Os particulares são mais puxados. No fim, foi bom, porque ele aprendeu, foi aprovado e não tirou nenhuma nota vermelha”, afirma Eduardo.

No entanto, não havia nenhum projeto de inclusão na escola. “O projeto era eu”, ri Deise. Ela ia todos os dias à coordenação e insistia que as provas e os conteúdos da turma deveriam ser adaptados para Guilherme. Não seria possível que ele fizesse os mesmos exames de matemática que os demais, por exemplo.

Síndrome de Down na faculdade?

Depois de concluir o ensino médio e passar no vestibular, veio outro desafio: Guilherme conseguiria acompanhar as aulas em uma faculdade? Seria tudo mais difícil, pensava a família. Os pais, assim que souberam da aprovação, foram à coordenação da universidade e perguntaram se realmente uma pessoa com síndrome de Down poderia estudar ali. Ouviram que sim, que ele não seria o primeiro aluno com deficiência.

O apoio da família foi essencial para a inclusão de Guilherme na escola e na universidade (Foto: Luiza Tenente/G1)

Deise acompanhava todas as aulas presencialmente, mas nunca foi requisitada. Guilherme usava a faca com agilidade, cortava todos os ingredientes e concluía as receitas. Antes das provas práticas, cozinhava o prato várias vezes em casa, para treinar. A família se beneficiou dos estudos: “Minha mãe e minha irmã só querem comer”, brinca Guilherme.

Nos trabalhos em grupo, nem sempre o menino era ouvido pelos colegas. “O chef sabia que eu tenho síndrome de Down, então entendia por que algumas pessoas não queriam fazer a tarefa comigo”, diz o jovem. Um dos amigos, Arthur, era sempre seu parceiro. As pessoas mais velhas da turma também costumavam ser mais abertas a recebê-lo. O que o irritava, ainda assim, era perceber que suas sugestões não eram ouvidas, eram “café com leite”. “Já tô acostumado a passar por isso.”

A festa
O menino diz que precisou se fortalecer para não desanimar quando alguém subestimava sua capacidade. Na escola, ouviu diversas vezes que havia sido aprovado porque colou na prova. Na universidade, entrou sendo “outra pessoa, muito mais solta, graças ao teatro”. Ele mostra as fotos do dia da formatura: de terno e gravata, ao lado de Francine, que usa vestido longo.

A vontade agora é conseguir um emprego. O currículo de Guilherme já está impresso, pronto para ser distribuído aos restaurantes. “Preciso descobrir em que área vou me dar bem, para me aprimorar. Não deixo duvidarem da minha capacidade. É para ir em frente. Né, pai? Né, mãe?” E dá um beijo em cada um.

Fonte: g1.globo.com

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