sábado, 18 de fevereiro de 2017

Pioneiro, DJ cego cria programa para deficientes aprenderem a discotecar - Veja o vídeo.

O DJ paulistano Anderson Farias, que criou ferramenta o BlinDJ

Leonardo Rodrigues Do UOL, em São Paulo

imagem: Reprodução
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O DJ paulistano Anderson Farias

Professor daquele que é considerado o primeiro curso para DJs cegos no país, Anderson Farias, 38, logo percebeu o tamanho da sanha tecnológica de seus alunos. Vidrados no mundo digital, os jovens queriam de alguma forma utilizar ferramentas que aprimorassem suas discotecagens, uma tendência da cena eletrônica atual.

O pedido ao professor evoluiu e se transformou um “script”, um programa de computador que permite a qualquer um usufruir de todos os recursos do software de mixagem Virtual DJ, um dos mais populares do mundo.

Utilizado em conjunto com o leitor de tela NVDA, o BlinDJ (DJ cego, em português) "lê" as telas por meio de um sistema de voz e dá as coordenadas ao usuário. Pode ser empregado em dobradinha com uma controladora real (veja o vídeo abaixo a demonstração).

  
Bancado pelo Programa Vai Tec, da Prefeitura de São Paulo —o curso ministrado por Anderson também foi realizado por meio de editais públicos—, o recurso foi desenvolvido ele e lançado no último dia 3, na Campus Party.

O paulista enxerga longe em seu projeto pessoal: entre outras coisas, quer promover a cidadania integrando o deficiente ao universo da arte e entretenimento.

“A molecada de hoje é muito diferente. Ela é mais agitada e ligada em tudo o que é digital. Eles me serviram muito de incentivo”, diz Anderson, que é formado em gestão de eventos e ganha a vida dando palestras sobre inclusão e trabalhando como DJ em eventos.

O BlinDJ é gratuito e tem código aberto. Ou seja, qualquer um pode baixá-lo e aprimorá-lo para, quem sabe, ajudar no nascimento de futuros talentos

"A verdade é que todos que têm deficiência, especialmente a visual, demoram muito tempo para entrar no mercado formal de trabalho. Ajudar esse jovem também é um dos objetivos.” Segundo Anderson, a resposta ao programa vem sendo positiva.

“Não tenho como medir quantas vezes ele foi baixado, mas várias pessoas do Paraná e do Rio já me procuraram para suporte. Inclusive um menino de Macaé que tem baixa visão e disse estar muito feliz por conseguir usar a ferramenta. As coisas vão acontecendo devagarinho.”

imagem: Reprodução/Facebook
Reprodução/Facebook
Anderson Farias participa do revezamento da tocha paralímpica no Rio de Janeiro

DJ da tocha paralímpica

Nascido no bairro do Tatuapé, zona leste de São Paulo, Anderson perdeu a visão aos 9 anos devido a um glaucoma congênito, e aos 17 começou começou a fazer da paixão pela música uma profissão, inscrevendo-se em campeonatos de DJ.

Aos poucos, ganhou quilometragem à base de house music, hip hop e o que mais pedissem nas festas. Em 2007, ele chegou a ser premiado pelo pioneirismo nas pick-ups ao lado do amigo Roger Marques e da mulher, Camilla, que também é DJ.

A chance de virar instrutor veio em 2011, quando foi convidado por Ban Schiavon, dono da escola paulistana DJ Ban EMC, para comandar um curso inédito. Foram meses assistindo a aulas tradicionais para elaborar uma metodologia inédita, que fosse ao mesmo tempo simples, interessante e dinâmica. O curso ainda pode ser encomendado na escola, embora não seja mais gratuito.

O jovem, que também desenvolve o projeto No Vision Experience, em que convida pessoas a dançarem vendadas para refletir sobre a vivência de quem não enxerga, foi o DJ oficial das festas da tour da tocha paraolímpica no ano passado.

Mesmo com o currículo de respeito, ele ainda se queixa de oportunidades. “Hoje você vê o David Guetta tocando em festival, o cara saindo do Big Brother e virando DJ duas semanas depois. Hoje o DJ é o cara bonitinho e descolado, e o deficiente foge dos padrões de beleza."

“Hoje se investe mais acessibilidade, mas eu te cito um exemplo: eu moro numa rua com três condomínios, e o cara do outro lado dela não me chama para fazer festas para ele. Prefere contratar alguém que enxerga. Mesmo que a pessoa não admita, o preconceito ainda existe e é muito forte.”

imagem: Reprodução/Facebook
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Anderson ao lado da mulher, Camilla, que também é DJ


Fonte: musica.uol.com.br

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