quarta-feira, 15 de março de 2017

Família de garoto com autismo obtém liberação para importar canabidiol

Anvisa permitiu a aquisição de óleo que é rico no derivado da maconha. Agora, mãe luta na Justiça para que Governo de Goiás custeie tratamento.

Fernanda Borges Do G1 GO

Cássia Coelho e o filho Mateus Coelho, que obteve liberação para importação do canabidiol, em Goiânia, Goiás (Foto: Arquivo pessoal/Cássia Coelho)
Cássia e o filho Mateus: melhoria após uso de óleo de cânhamo (Foto: Arquivo pessoal/Cássia Coelho)

A família de Mateus Coelho, de 7 anos, que é portador de autismo, conseguiu liberação da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) para a importação de um produto rico em canabidiol (CBD), que é um derivado da maconha, para a terapia da criança. Moradora de Goiânia, a mãe do menino, a empresária Cássia Menezes Coelho, de 32, agora luta na Justiça para que o Governo de Goiás custeie o tratamento.

Cássia conta que o filho foi diagnosticado com Transtorno do Espectro Autista (TEA) quando tinha 1 ano e 8 meses. “Ele teve um atraso motor, não engatinhava, e suspeitamos que algo estava errado. Procuramos ajuda médica e fomos encaminhados ao Crer [Centro de Reabilitação e Readaptação Dr. Henrique Santillo], onde ele começou a fazer fisioterapia. No dia da alta, o neurologista diagnosticou o autismo”, lembra.

Segundo a empresária, a partir daí, começaram as buscas por uma terapia que trouxesse uma maior qualidade de vida para o garoto, como sessões de fonoaudiologia, em função de dificuldades na fala. Além disso, ele fez uso de diversas medicações fitoterápicas, mas não conseguiu se adaptar.

“Por conta dos remédios ele apresentava alucinações, agitação e teve problemas de privação de sono. Por conta disso, o neuropsiquiatra sugeriu o uso do RSHO [óleo de cânhamo], que é rico em canabidiol. Esse produto não é comercializado no país, mas, desde 2015, a Anvisa permite a importação de derivados da maconha, desde que haja toda a comprovação médica”, relata.

Assim, a empresária fez o pedido e obteve a liberação para a importação do produto em novembro do ano passado. Na época, a empresária procurou a Defensoria Pública de Goiás para entrar com uma ação para que o Governo de Goiás custeio o tratamento. No entanto, como ainda não houve decisão, ela decidiu fazer por conta própria a aquisição do primeiro lote do óleo de cânhamo.

“Ele começou a usar no dia 13 de janeiro deste ano, quando compramos seis frascos com 120 ml cada. Esse material deve durar até o fim deste mês, quando teremos de adquirir mais. Paguei mais de R$ 2 mil e não tenho condições de arcar com esses custos, ainda mais porque o tratamento será contínuo, por prazo indeterminado e as doses vão aumentar gradativamente. Assim, precisamos desse apoio do governo estadual para continuar com a terapia”, afirmou a mãe.

"Mateus teve uma melhora gigantesca [após o uso do produto], pois antes os diálogos eram muito precários. Ele também teve melhorias impressionantes no comportamento e interação social"
Cássia Coelho, mãe do menino Mateus

O defensor público Vitor Ulhoa está à frente da ação judicial, que tramita na 2ª Vara da Fazenda Pública Estadual. Segundo ele, até segunda-feira (13), não havia nenhuma decisão sobre o caso. “O juiz pediu para ouvir a Câmara de Saúde do Judiciário e estamos no aguardo desse procedimento”, contou.

Já a Secretaria Estadual de Saúde de Goiás informou ao G1, em nota, que “não recebeu nenhuma determinação judicial sobre esse caso. Assim que receber providenciará a importação do produto”.

A Anvisa, por sua vez, não quis comentar a liberação para importação de RSHO concedida a Mateus e destacou que não avalia nenhuma indicação de produto à base de canabidiol. No entanto, o órgão informou que "verifica documentos como: formulário de justificativa de uso, laudo com as condições do paciente e quais tratamento já realizou e um termo de responsabilidade assinado pelo paciente e médico, devido ao fato do produto não ter registro no país” para fazer a liberação da importação.

Ainda segundo a Anvisa, até o momento, 16 pacientes do país “já foram autorizados a obter esses produtos para tratamento de autismo infantil”.

Melhorias
Cássia conta que, antes de iniciar o uso do óleo de cânhamo, o filho apresentava várias crises nervosas, que chegavam a durar horas.

“Ele chorava muito, gritava, era como se estivesse completamente desestruturado emocionalmente. Isso ocorria de três a quatro vezes por semana e era muito difícil. Quem não tem conhecimento sobre o autismo, confunde essas reações como birras. Muita gente ri, fala que a criança não tem educação, mas na verdade não é nada disso”, conta.

Segundo a mãe, desde que o filho começou a usar o óleo de cânhamo, muitos avanços são facilmente perceptíveis, desde questões comportamentais até mesmo ao desenvolvimento da fala.

                    Cássia Coelho e o filho Mateus Coelho, que obteve liberação para importação do canabidiol, em Goiânia, Goiás (Foto: Arquivo pessoal/Cássia Coelho)
      Mãe diz que filho apresenta melhoras após uso do canabidiol (Foto: Arquivo pessoal/Cássia Coelho)

“Mateus teve uma melhora gigantesca, pois antes os diálogos eram muito precários. Ele também teve melhorias impressionantes no comportamento e interação social. Logo nos primeiros 10 dias percebemos que ele já começou a ficar sentado, brincando com o irmão mais novo, de 5 anos. Antes isso não acontecia, pois ele não tinha tempo de concentração e ficava muito agitado”, afirma Cássia.

A empresária diz que o filho não tem outras doenças ligadas ao autismo, como epilepsia, por exemplo. No entanto, precisa da terapia para desenvolver habilidades e ter mais qualidade de vida, não apenas para ele, mas para toda a família.

“Existe um preconceito muito grande em relação ao autismo, pois não há como saber desse transtorno olhando fisicamente. Então, a vida social da família acaba morrendo, pois não dá para ir em um restaurante, por exemplo, onde logo a criança começa a ficar agitada e ninguém entende. Sem contar que a convivência é difícil, exige muita paciência na hora das crises, e o Mateus tem melhorado demais. Ele está muito mais tranquilo e, por isso, manter esse tratamento é tão importante”, concluiu a mãe.

Liberação do canabidiol

A Anvisa passou a liberar em janeiro de 2015 a importação de produtos a base de canabidiol, que não são comercializados no Brasil. Antes, a venda do produto com a substância, classificada como proibida, era vetada.

O canabidiol, principal composto do remédio, é uma substância derivada da maconha. Diferente do tetraidrocanabinol (THC), princípio ativo da erva, o CBD não é psicoativo, não provoca sedação e não causa dependência.

Na época em que houve a liberação para importação, famílias de crianças que possuem paralisia cerebral, em Goiânia, comemoraram a medida, já que diziam que o produto pode ser uma esperança de melhorias. 

Fonte: g1.globo.com

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