segunda-feira, 6 de março de 2017

Morte foi 'um descaso', diz marido

Pedro Heideruch Hortolândia

                          Divulgação
                    
                          Ana Lúcia Tinha 45 anos

Ana Lucia Santos, 45, morreu na madrugada de ontem depois de ficar o dia todo no Hospital Mario Covas, em Hortolândia. O seu marido, o autônomo José Leal Da Hora, 45, acusa o hospital de negligência por demora no atendimento. A vítima, levada ao hospital após desmaiar em casa, só foi colocada em uma maca 12 horas depois de chegar, segundo o marido.

Outra reclamação do esposo foi a demora da equipe médica em conseguir coletar urina da paciente para realizar exames. Ana Lucia foi atendida a partir das 7h da manhã de anteontem e o procedimento, segundo o homem, era a coleta de urina e sangue para exames. O hospital só foi conseguir coletar a urina da paciente por volta das 20h, após insistência de José.

A primeira coleta de urina e sangue aconteceu por volta das 11h, de acordo com o marido. "Estava esperando o resultado e nada, nada. Deu 16h procurei a enfermeira e perguntei do exame. Ela disse que não tinha chegado e que era para eu ver na recepção. Na recepção descobri que o laboratório tinha avisado que a amostra não foi suficiente", relata.

José conta que teve que ir avisar a médica de plantão. "Disse que minha esposa estava no hospital desde manhã e que não conseguia urinar para fazer o exame, que algo tinha dado errado". A médica, que atendia outro paciente, orientou o marido a solicitar a sonda. Demorou para a sonda ser colocada na vítima. "Só um enfermeiro podia e estava ocupado".

O marido de Ana Lúcia teve que ir atrás do enfermeiro, que atendia um caso de emergência. A sonda foi colocada por volta das 18h. Uma hora depois, ele foi informado que nem com sonda a sua esposa conseguia urinar. "Fui atrás da médica de novo e ela sugeriu um remédio diurético que faz urinar", conta José. Por volta das 20h, a urina foi coletada.

O tempo todo Ana Lucia era atendida sentada, mas passava bem. "Eu perguntava se não podiam fazer o ultrassom para ver o que era, não é normal não conseguir urinar. Mas diziam que tinham que seguir as normas e que o ultrassom era depois do exame de urina e de sangue". A amostra foi enviado ao laboratório e José foi jantar.

Quando o autônomo retornou, foi informado por uma enfermeira que sua esposa seria liberada pelo médico que acabara de iniciar o plantão da noite. "A enfermeira me relatou que ele ia dispensar ela, mas que o enfermeiro que fez todo o procedimento de coleta de urina teve acesso aos resultados do exame, que apontavam um quadro grave de infecção".

O enfermeiro teria avisado o médico, que ordenou que Ana Lúcia passasse a noite internada. "Me disseram que ela ia ter que dormir no hospital. Ai perguntei da maca. Ela ia passar a noite sentada? Tem que ter uma maca. Os enfermeiros disseram que só quem entrava em caso de emergência podia ficar em maca, mas que iam conseguir uma para ela".

Enfim na maca, Ana Lucia já estava tomando soro. "Perguntei a eles se além da insulina, tinha algum medicamento para infecção no soro e fui informado que não, pois o médico ainda ia vir atende-la para prescrever, ver o quadro dela para aplicar outro medicamento. Ela estava normal, sem sentir dor, me despedi, dei um beijo nela e fui dormir".

PARADA CARDÍACA
Eram 22h30. José tinha combinado de pegar a esposa logo cedo no dia seguinte, que fariam o ultrassom nela e eles iam embora do hospital. Por volta das 2h30 de ontem, o autônomo recebe uma ligação. "Ligaram falando para eu ir urgente para o hospital". No local, fora informado da morte da esposa, após duas paradas cardíacas.

"No atestado de óbito colocaram morte natural causa desconhecida, mas lá me falaram que ela teve um quadro de infecção generalizada. Agora, como que as pessoas que estão lá, sabendo que a paciente chegou mal e passou o dia todo sem conseguir urinar e dão medicamento só para dor? Não se preocupam se chegou o exame dela. Um descaso total".

"Foi uma fatalidade, mas faltou um mínimo de consideração com as pessoas. Um atendimento mais rápido, com mais atenção. Eu que tinha que buscar informação e contar para os médicos o que estava acontecendo. Demoraram na coleta dos exames e para dar medicamento contra infecção", destacou.

José registrou um BO (boletim de ocorrência) na Delegacia de Hortolândia, mas garante que não quer processar o hospital. "Achei que foi erro médico, mas não quero processar ninguém, queria só ter o direito de saber o que aconteceu, porque minha esposa morreu". O caso foi registrado como outros não criminal e ficou sob responsabilidade do 1° DP (Distrito Policial).

O marido da vítima não foi informado se o hospital chegou a dar medicamento contra infecção. Ele chegou a falar com o médico de plantão que atestou o óbito. "Ele não apareceu pessoalmente, falou ao telefone e me perguntou se ela tinha seguro de vida. Não gostei da forma que ele falou, fiquei nervoso e desliguei o telefone, não consegui perguntar".

Ana Lucia Santos era dona de casa e deixa três filhos, todos homens, de 17, 21 e 24 anos. Ela será enterrada a partir das 9h de hoje no Cemitério Municipal de Hortolândia.

A reportagem tentou contato com a Prefeitura de Hortolândia, responsável pelo Hospital Mario Covas, mas não obteve respostas por conta do horário de expediente da administração. O TODODIA também ligou para o telefone de assessora de imprensa, mas ela não atendeu.


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