segunda-feira, 24 de abril de 2017

14 anos após ser obrigado a saltar de trem em movimento e perder braço, vítima de skinheads abre barbearia em Mogi

Flávio Cordeiro foi obrigado a pular do trem da CPTM em 2003. Ele perdeu o braço e o amigo morreu.

Por Jamile Santana, G1 Mogi das Cruzes e Suzano

Flávio Cordeiro abriu barbearia no distrito de Brás Cubas, onde nasceu em Mogi das Cruzes (Foto: Bruno Marcílio/ Arquivo Pessoal)
Flávio Cordeiro abriu barbearia no distrito de Brás Cubas, onde nasceu em Mogi das Cruzes (Foto: Bruno Marcílio/ Arquivo Pessoal)

Aos 29 anos, Flávio Cordeiro começou a viver a segunda grande mudança em sua vida: abriu uma barbearia em Brás Cubas, distrito onde nasceu em Mogi das Cruzes. A primeira reviravolta foi há 14 anos, quando ele e o amigo Cleiton da Silva Leite, na época com 20 anos, foram obrigados a saltar de um trem em movimento por um grupo de skinheads. Flávio perdeu o braço direito e Cleiton morreu. Enquanto aguarda justiça - já que apenas um dos três condenados está preso - Flávio conta que está '"em sua melhor fase".

Barberaria aberta por Flávio Cordeiro, em Mogi das Cruzes, segue tendência moderna com video game, wi-fi e bar (Foto: Flávio Cordeiro/ Arquivo Pessoal)
Barberaria aberta por Flávio Cordeiro, em Mogi das Cruzes, segue tendência moderna com video game, wi-fi e bar (Foto: Flávio Cordeiro/ Arquivo Pessoal)

Com tema londrino, a barbearia resgata um ambiente predominantemente masculino: enquanto faz a barba ou corta os cabelos (com a boa e velha navalha, inclusive), os clientes podem tomar uma cerveja, jogar vídeo game, ou navegar na internet por meio do Wi-Fi do estabelecimento. Dois barbeiros fazem o atendimento, enquanto Flávio cuida de outros detalhes da administração. Com cadeiras robustas e tradicionais das antigas barbearias e decoração rock'n roll, o objetivo é atender homens que não se sentem confortáveis em salões unissex.

"Eu gosto muito de rock, comecei a usar barba e a frequentar barbearias na cidade e percebi que em Brás Cubas, que é o bairro onde nasci e cresci, ainda não era atendido por um negócio desse porte, que oferece esse serviço mais direcionado. Então concentrei minhas energias para planejar tudo e deu certo", contou. Os preços, são acessíveis: R$ 20 a barba e R$ 20 o corte de cabelo. "A intenção é oferecer um serviço diferenciado por um preço acessível", destacou.

Para Flávio, além do fato de ser um jovem empreendedor - já que tem o seu próprio negócio aos 29 anos de idade - a conquista também representa uma superação. "Já fazem 14 anos desde o dia em que tudo aconteceu e vamos sempre seguindo em frente. Eu não sei te dizer se eu estaria melhor ou pior se nada daquilo tivesse acontecido. O que eu sei é que estou bem pra caramba agora e tenho orgulho do que conquistei", disse. Antes de abrir a barbearia, Flávio trabalhou com logística.

Sobre o processo criminal onde os três condenados por obrigar Flávio e Cleiton a pularem do trem em movimento, o jovem segue desapontado. "Quatroze anos depois do crime, três condenados e dois deles ainda continuam em liberdade. Só um foi preso no ano passado. É tudo muito demorado, mas eu acredito que ainda vou ver a justiça terrena sendo feita, é só questão de mais tempo para vê-los todos presos", disse a vítima.

O caso
Em dezembro de 2003, Juliano Aparecido Freitas, o Dumbão, Vinícius Parizatto, o Capeta, e Danilo Gimenez Ramos teriam obrigado Flávio e Cleiton a pular de um trem em movimento.

Juliano Aparecido Freitas foi condenado a 24 anos e 6 meses de reclusão, em maio de 2011 e foi preso em 2015. Vinícius Parizzato, julgado em setembro de 2011, recebeu pena de 31 anos, 9 meses e 3 dias de reclusão. O último a ser julgado foi Danilo Gimenez Ramos, que foi condenado a 26 anos, oito meses e 25 dias.

Segundo os jovens, um grupo de garotos, tidos como skinheads, entrou no vagão. As vítimas usavam cabelos moicanos e camisetas de bandas punks.

De acordo com a denúncia feita pelo Ministério Público, os três acusados gritaram "ou pula ou morre" para as vítimas. As agressões foram filmadas pelas câmeras de segurança da CPTM, que registraram o desespero das vítimas. Com medo de serem mortos, os jovens pularam do vagão em movimento.

Em 2003 Flávio e Cleiton foram obrigados a pular de um trem em movimento em Mogi das Cruzes (Foto: Reprodução/TV Diário)
Em 2003 Flávio e Cleiton foram obrigados a pular de um trem em movimento em Mogi das Cruzes (Foto: Reprodução/TV Diário)

No dia do crime, os três acusados estavam vestidos com jaquetas, coturnos, e calças com detalhes militares. Além das roupas, o grupo de amigos estava armado com machadinha e tchaco (instrumento de dois bastões ligados por uma corrente).

O processo contra os réus foi desmembrado e cada um responde aos crimes em separado. Todos os acusados negam os crimes e alegam que os jovens saltaram do trem por vontade própria.

A defesa de Danilo Gimenez Ramos afirmou que entrou com recurso no Supremo Tribunal Federal após o Tribunal de Justiça ter negado a anulação do júri. Ele aguarda em liberdade por meio de um habeas corpus expedido pelo STF. O G1 tenta contato com os advogados dos outros dois condenados.

Fonte: g1.globo.com

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