terça-feira, 23 de maio de 2017

A mãe de filho autista

Por trás de uma mãe de autista

  

Existe uma vida... Por trás de uma mãe de autista existe uma mulher com uma história de vida cheia de capítulos como a de todo mundo. Existem situações mal resolvidas, medos não trabalhados, choro entalado na garganta...

Por trás de uma mãe de autista existe uma mulher que, ao contrário das demais, necessariamente teve que escolher entre prioridades mais urgentes e prioridades mais urgentes ainda. Nesse meio tempo, às vezes ficou mais fácil deixar pra lá a ofensa que recebeu, o desmerecimento que sofreu, o tanto de vezes que teve seu emocional ferido.
Então a mãe de autista segue a vida com a cabeça erguida, vira especialista em projetos de pesquisa sobre saúde, comportamento, descobertas da medicina e até criação de projetos de lei ela começa a inventar... O travesseiro passa a ser a mesa de trabalho de um cérebro que nunca para.

                        

Por mais forte que seja, a mãe de autista também queria que seu filho não sofresse as consequências dessa desordem chamada TEA, que tudo fosse apenas um sonho pelo menos uma vez na vida, ainda que a mãe do autista seja também autista. Porque se ela assim for, terá também a carência emocional de uma criança que chora pela sua mãe, por um amor que talvez nunca tenha sido correspondido à altura de seu frágil sentimento e que, agora, na vida adulta com a responsabilidade de criar sua própria família e filhos segue com sua mente altamente programável e também amável, mas não menos dolorida e exigente de amor das demais pessoas que não olham para elas.

É necessário um cuidado além do normal para não colocar em cima do filho especial a expectativa única de felicidade da vida de uma mãe, porque se ele perceber irá se entristecer e trazer para si uma culpa que não é dele no dia em que essa mãe sentar e chorar.

E sim! Mães de todas as formas possíveis - especiais, autistas, adotivas, emprestadas - sem exceção devem sentar e chorar de vez em quando. Porque o mundo pode ser pesado demais para apenas uma pequena espinha dorsal suportar.

Ser mãe de autista não é tarefa fácil, mas também é gratificante, mágico e verdadeiro como nada na vida nunca foi. A mãe de autista aprende a falar a verdade na cara, doa a quem doer, se isola com facilidade caso veja que o clima não está bom para grandes encontros, passa a ter um coração tão sensível e tão forte ao mesmo tempo. O autismo tem disso, é uma única via de mão dupla que por vezes nos faz sentir perdidas em nós mesmas.

Mas ao aceitar esta nobre tarefa, de coração, mente e alma, passamos a experimentar uma vida com cheiros mais intensos, sons mais altos, toques mais suaves, tão suaves que chegam a doer. Os toques na pele precisam de pressão... E isso tudo está longe de ser ruim. Na verdade isso tudo te obriga a ser mais de você do que dos outros.

Se por um lado há o abandono afetivo de todos que olham para nós como se fôssemos as guerreiras capazes de salvar o planeta, por outro temos o amor de nossos filhos de uma forma tão intensa que realmente seremos capazes de salvar o planeta caso haja necessidade de lutar pela vida deles. Mas infelizmente não somos essa muralha que pensam que somos o tempo inteiro..


Toda mãe gostaria de ter um dia para si, um dia em que pudesse passar a tarde com as amigas sem pensar na hora do remédio, da roupa extra na mochila do filho, sem se preocupar se entenderão o que ele tentará expressar... toda mãe gostaria de dormir quatorze horas seguidas uma vez na vida para recuperar o sono que ela pensou que iria recuperar quando seu filho completasse dois anos, mas que com o passar dos anos foi se acumulando porque os dois anos se estenderam em cinco, oito, dez...

Mas não conheço nenhuma mãe especial que tenha coragem de deixar seu filho aos cuidados de outra pessoa ou que consegue desligar a mente, mesmo que a oportunidade apareça. Porque toda mãe especial é especial não apenas porque é mãe de uma criança que precisa de cuidados especiais, também porque ela própria precisa de cuidados especiais (ainda que raramente o tenha), mas especialmente porque mãe especial é especial de verdade em sua essência, doçura, força e coragem.

A coragem a que me refiro inclui admitir os erros, as fragilidades, os medos e a carência afetiva gerada pela solidão. Mas que solidão? Você pode pensar que tem muitas pessoas em volta de si, mas falo da solidão de luta, de ideais, de conflitos emocionais, de palavras que nunca serão ouvidas por ninguém pelo simples fato de talvez nunca haver alguém interessado em ouvir.

Coragem, sobretudo, de enfrentar o mundo, de dar a cara a tapa, brigar com médicos, orientadores, terapeutas, familiares ou seja lá quem for que tente magoar nossos filhos e ameaçar sua segurança emocional.

Somos mães especiais porque não temos medo de escrever sobre as mães quase um mês depois do dia das mães já ter passado, porque mãe especial tem seu próprio tempo, sua própria luz e faz a sua vida conforme o momento assim permite.


Lembre-se que muitas pessoas serão capazes de enxergar o teu sorriso, mas raros serão aqueles que conseguirão decifrar o teu olhar e o sentimento que carrega em teu coração. De nada adianta você estar linda por fora se por dentro houver uma grande destruição, cuide de você.

Ame e espalhe amor, existem dores que talvez nunca serão curadas, mas existem alegrias que Deus reservou somente para você! Se agarre a elas!

Beijo muito carinhoso, fiquem com Deus.

Mamãe.
Kenya Diehl
Escritora, blogueira e
Coordenadora do MOAB/POA
kenyadiehl@gmail.com
kenyadiehl.wixsite.com/olhandonosolhos

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