quinta-feira, 11 de maio de 2017

Cadeirante supera deficiência física e desenvolve trabalho social em Aracaju

Sem apoio financeiro, ele teme que o projeto de dança, que existe há 10 anos, acabe.

Por Anderson Barbosa, G1 SE, Aracaju

Gilmar Evaristo com alguns integrantes do grupo. (Foto: Anderson Barbosa/G1)
Gilmar Evaristo com alguns integrantes do grupo. (Foto: Anderson Barbosa/G1)

Eles têm entre 15 e 20 anos e na garagem apertada de uma residência na Rua Gararu, Bairro Cirurgia, em Aracaju (SE), passam horas ensaiando as coreografias das danças que apresentam em diversos eventos na capital. O grupo “As Impossívas e oz Boys” é criação de Gilmar Evaristo, 37 anos, que sempre sonhou em ser dançarino e há cerca de 10 anos o projeto atende jovens carentes de Aracaju e até de cidades vizinhas.

A única ajuda que recebe para manter o projeto vem da aposentadoria que recebe como cadeirante, somada com ao salário da mãe, também aposentada. Com isso, Gilmar consegue confeccionar às roupas, custear o lanche dos integrantes e até transporte, já que muitos não têm condição de se deslocar de casa para os ensaios.

“Na verdade não escolhi a dança. Foi o dom que Deus meu deu" - Gilmar Evaristo, criador do projeto 'As Indomáveis e os Boys"

“Esse é o único recurso que temos. Meu medo é acabar com o projeto que tem feito um trabalho social interessante tirando os jovens das drogas, além de evitar, por exemplo, gravidez precoce, entre outras situações que possam atrapalhar o sonho deles, que é igual ao meu. Sou cadeirante, poderia estar trancado em casa, mas mesmo com meus obstáculos comecei a fazer o bem. Se cada um fizesse sua parte o mundo seria bem melhor”, diz.

Por causa das dificuldades financeiras, sem sempre todos os integrantes conseguem se reunir nos ensaios. No dia que o G1 esteve com eles, alguns que residiam no interior não compareceram porque estavam sem dinheiro para pagar a passagem do ônibus.

A mãe dele é dona Gildete Silva, 77 anos, sempre acompanha os ensaios e sente-se orgulhosa em poder ajudar financeiramente . Orgulho maior é observar o filho realizado com o serviço na comunidade. “Acho muito legal o que meu filho faz. Com fé em Deus vai continuar dando certo”, diz.

Dona Gildete Silva, 77 anos, mãe do Gilmar. (Foto: Anderson Barbosa/G1)
Dona Gildete Silva, 77 anos, mãe do Gilmar. (Foto: Anderson Barbosa/G1)

Além de ser o responsável pela coreografia do grupo, Gilmar atua também como aconselhador. Durante os encontros, ele fala de temas que nem sempre às famílias encontram tempo de conversar ou, se tem, não priorizam. “Eles desabafam e comigo e com o que aprendi com meus pais, somado a experiência da minha vida, tento ajudá-los”, explica.

A professora de dança Lalany Azevedo faz parte da diretoria e conta que resolveu ser voluntária e ajudar ao cadeirante a distanciar os jovens das drogas. Ela conta que os meninos mais velhos chegaram ainda muito crianças e foram crescendo com o trabalho do grupo.

“Eles não só aprendem a dançar, mas a desenvolver e crescer na vida. Pra mim, acompanhar isso é muito gratificante. Conheci o Gilmar e me apaixonei pelo trabalho que faz na nossa comunidade. Somamos nossos conhecimentos, habilidades e todos acabam crescendo juntos”, conta.

Apesar das dificualdades, quandoe stão em cena deixam os problemas de lado e oferecem ao público o melhor que podem fazer. "A gente faz por amor. Esperamos que os empresários e os gestores públicos se sensibilizem com a nossa causa e não deixem o projeto morrer", apela Gilmar.

Integrantes ensaiando para se apresentar em Aracaju. (Foto: Anderson Barbosa/G1)
Integrantes ensaiando para se apresentar em Aracaju. (Foto: Anderson Barbosa/G1)

Os Meninos

Para Flávia Santos, 19 anos, que é moradora do bairro e uma das integrantes do “As Indomáveis e os Boys”, o grupo é um estímulo muito grande para ficar mais perto de realizar o sonho de ser bailarina. “Aqui a gente apende a ser uma pessoa melhor. Deveria ter mais espaços como este do Gilmar”, diz.
Marcus Antônio Souza, 20 anos, conheceu o grupo quando tinha 15 anos durante uma apresentação na escola e hoje é um dos mais assíduos. “Vi a apresentação e me apaixonei pela dança. Com o Gilmar acabamos aprendendo muita coisa e tendo oportunidades que não teríamos fora”, diz.

Gilmar Evaristo, idealizador do projeto social que atende jovens carentes em Aracau (SE). (Foto: Anderson Barbosa/G1)
Gilmar Evaristo, idealizador do projeto social que atende jovens carentes em Aracau (SE). (Foto: Anderson Barbosa/G1)

Gilmar Evaristo

Gilmar Evaristo perdeu os movimentos das pernas gradativamente, depois de receber uma aplicação de vacina quando tinha 8 meses de idade. Segundo ele, a vacina foi aplicada em uma farmácia, em Aracaju, para combater sintomas da gripe. “Minha mãe conta que a aplicação foi nas nádegas e acabou afetando os nervos. Com isso, perdi os movimentos das pernas”, conta.

Ele foi crescendo e descobrindo o gosto pela dança. Se não tinha os movimentos das pernas, adaptou o sonho a cadeira de rodas, que o leva a vários palcos. Nas festas em Aracaju sempre se faz presente e em muitas delas já dançou com bandas como “É o Tchan”, “Gang do Samba”, “Guig Ghetto”, além de ter participado da gravação do DVD de Cid Natureza. “Na verdade não escolhi a dança. Foi o dom que Deus meu deu”, justifica.

Gilmar ao lado de Carla Perez em um dos shows do 'É o Tchan'. (Foto: Arquivo Pessoal)
Gilmar ao lado de Carla Perez em um dos shows do 'É o Tchan'. (Foto: Arquivo Pessoal)

Fonte: g1.globo.com

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