sábado, 20 de maio de 2017

Falta de sintonia entre secretarias reduz acessibilidade na Virada Cultural de São Paulo

Pastas da Cultura e da Pessoa com Deficiência não chegaram a um entendimento sobre os recursos para o evento deste fim de semana, limitados a três atrações. Edições anteriores tiveram oferta muito maior de apresentações acessíveis. Além disso, estrutura montada pela SPTrans para "facilitar o deslocamento do público" não menciona veículos acessíveis nem faz referência a esquemas específicos para pessoas com deficiência.

Luiz Alexandre Souza Ventura

13ª edição da Virada Cultural ocupa vários espaços da capital paulista a partir das 18h deste sábado, 20, até 18h de domingo, 21. Imagem: Reprodução13ª edição da Virada Cultural ocupa vários espaços da capital paulista a partir das 18h deste sábado, 20, até 18h de domingo, 21. Imagem: Reprodução

A falta de sintonia entre a Secretaria Municipal de Cultura (SMC) e a Secretaria Municipal da Pessoa com Deficiência (SMPED) resultou em uma decepcionante redução nos recursos de acessibilidade da primeira Virada Cultural da gestão João Doria na cidade de São Paulo. A 13ª edição do evento ocupa vários espaços da capital paulista a partir das 18h deste sábado, 20, até 18h de domingo, 21.

Ao contrário das anteriores, quando atrações de todos os tipos tiveram intérpretes da Língua Brasileira de Sinais e até audiodescrição, na edição deste ano somente três apresentações são acessíveis.
Estão previstas traduções para Libras no show de comédia ‘Roupa Suja Se Lava No Palco’, no sábado, 20, a partir das 20h, com os atores Micheli Machado e Robson Nunes, e na apresentação de MC Guto Andrade / Criss Paiva + Davi Monsour (Stand UP), também no sábado, a partir das 21h, ambos no tablado Risadaria, montado na José Bonifácio, nº 160.
E no domingo, 21, a partir das 13h, no Vale do Anhangabaú, no musical ‘60! Década de Arromba’, com a cantora Wanderléa, também terá tradução para Libras.
Show de comédia 'Roupa Suja Se Lava No Palco' com os atores Micheli Machado e Robson Nunes terá tradução para Libras. Imagem: ReproduçãoShow de comédia ‘Roupa Suja Se Lava No Palco’ com os atores Micheli Machado e Robson Nunes terá tradução para Libras. Imagem: Reprodução
Nenhuma outra atração foi contemplada com recursos acessíveis porque não houve acordo da pasta de Cultura, comandada por André Sturm e responsável pela organização do evento, com a SMPED, liderada por Cid Torquato.
“Somos uma secretaria meio, atuamos para que a lei seja respeitada e todos os eventos culturais da cidade sejam acessíveis, mas não houve entendimento com a Cultura”, informou ao #blogVencerLimites a SMPED, que tem como principal função a articulação com as outras secretarias para que essas cumpram, em suas específicas áreas, as políticas e ações voltadas às pessoas com deficiência.
Resposta – Procurada para esclarecer a situação, a secretaria de Cultura não se pronunciou sobre a falta de entendimento mencionada pela SMPED. Em nota, a SMC afirma que a acessibilidade está contemplada nesta 13ª Virada Cultural.
“Equipamentos públicos como centros culturais, casas de cultura e teatros, todos com acessibilidade total, recebem programação”, ressalta a secretaria. “Os palcos e tablados também possuem acessibilidade para pessoas com mobilidade reduzida. E 10% dos banheiros químicos do evento atendem a este público”, destaca a pasta
“A contratação do serviço de tradução em Libras neste ano, assim como no ano passado, é feita pela Secretaria Municipal da Pessoa com Deficiência”, conclui a nota da SMC.
Além disso, no esquema especial montado pela SPTrans, e divulgado no site da Virada Cultural (clique aqui), com alteração no trajeto de 64 linhas “para facilitar o deslocamento do público e garantir fluidez ao transporte coletivo” não há qualquer menção a veículos acessíveis e muito menos alguma referência a estruturas específicas para pessoas com deficiência.

Cid Torquato é secretário municipal da Pessoa com Deficiência de São Paulo. Imagem: ReproduçãoCid Torquato é secretário municipal da Pessoa com Deficiência de São Paulo. Imagem: Reprodução

Prioridades – Em entrevista ao #blogVencerLimites no ano passado, Cid Torquato disse, logo após ser anunciado por João Doria como secretário da pessoa com deficiência, que a prioridade máxima da pasta seria a situação das populações mais carentes. “As pessoas com deficiência que vivem nessa realidade são muito vulneráveis”, afirmou Torquato.
“Apesar dos avanços, principalmente nos últimos dez anos, essas pessoas ainda não têm acesso aos serviços públicos, municipais, estaduais e federais. É necessário uma atenção especial a esse assunto, para fazer com que essas pessoas tenham acesso aos serviços básicos, para que consigam exercer seus direitos fundamentais. Precisamos fazer com que as políticas publicas existentes cheguem a essas pessoas”, ressaltou o secretário.
Calçadas – Na entrevista, Cid Torquato afirmou que a oferta de calçadas adequadas e acessíveis em toda a cidade de São Paulo seria uma prioridade da gestão Dória.
“Ainda há quem entenda a acessibilidade como um conceito válido apenas para pessoas com deficiência, mas todos precisam de algum tipo recurso acessível. Eu sempre digo que até as escadas são recursos de acessibilidade, para quem consegue usar essas escadas, porque, sem elas, chegar a todos os andares de um prédio seria possível somente por elevador”, exemplificou. “Mas é fato que precisamos ter disponíveis todos os recursos de acessibilidade possíveis em todos os locais”, ressaltou.
“A questão das calçadas virou um problema de saúde pública. O SUS (Sistema Único de Saúde) gasta atualmente, em todo o Brasil, mais de R$ 3 bilhões no tratamento de pessoas que sofreram acidentes em calçadas. É dinheiro que poderia ser gastos em ações muito mais importantes. Por isso, precisamos melhorar a mobilidade, os espaços de circulação, a ‘cara’ da cidade, para aprimorar a qualidade de vida dos cidadãos”, disse.
Serviços públicos – A falta de acessibilidade, na avaliação de Cid Torquato, é o maior impedimento para o exercício de direitos. E essa dificuldade, diz o secretário, não está restrita ao acesso físico, arquitetônico, abrange também a acessibilidade comunicacional, e até mesmo atitudinal.
“Fazendo uma avaliação geral sobre a situação da pessoa com deficiência, quando ela consegue sair de casa, não consegue se locomover na rua; quando se movimenta na rua, não consegue usar o transporte público; quando usa o transporte e chega um determinado local, não consegue entrar nesse lugar; e quando entra – especialmente pessoas cegas, surdas e com deficiência intelectual -, muitas vezes não há acessibilidade comunicacional, e a pessoa não é incluída, não entende o que está acontecendo naquele momento”, avaliou Torquato.
Atitude – Quando uma pessoa com deficiência chega a um local, seja público ou particular, em uma loja, uma repartição pública, em um banco, ele tem de ser atendida com decência, defende Cid Torquato.
“Esse estranhamento que ainda existe sobre pessoas com deficiência faz com que muita gente não saiba lidar com essa pessoa. Isso é causado por essa ignorância, essa falta de conhecimento, e também pelo preconceito. Precisamos quebrar essa barreira para que o tratamento dado às pessoas com deficiência, de forma geral, seja apropriado. É um conjunto de ações”, concluiu o secretário.

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