domingo, 14 de maio de 2017

Mãe faz relato tocante sobre amor ao filho que sobreviveu ao aborto e contraiu deficiências

A rejeição à criança com deficiência é uma realidade no mundo todo, por mais que pareça algo pouco cabível ao “serumano”.

POR JAIRO MARQUES*


  
 Silvia e o filho Nickcollas, hoje com dez anos

O peso de ter um bebê afetado em suas funções motoras ou sensoriais é muito vezes maior do que um potencial de amor, de construção de uma vida para o mundo.

Neste dia das mães, proponho um texto em que essa questão é levada ao extremo: uma mulher que resolve amparar um bebê que sobreviveu a um aborto, mas ao custo de desenvolver uma série de limitações.

O intuito aqui não é dar lição de moral ou abrir discussões que cabem ao íntimo feminino. O que importa a este espaço é tanto a força de viver como a fundamental importância do apoio para que se viabilize a existência de um ser em sua diversidade, qualquer diversidade.

Importa também conscientizar sobre um problema social e de saúde que pode ter repercussões enormes se não for enfrentado com seriedade.

Agradeço demais ao relato corajoso da Silvia Prin Grecco, que serve como inspiração, reflexão e tomada de atitude, e ao Nickollas, por emprestar seu brilho a esta página.

Quando a vida é amor

Ser mãe, para mim, é dádiva, é mistério, é amore ao mesmo tempo uma tarefa desafiadora. Como tantas mulheres, experimentei a maternidade gerada no ventre, e tive o privilégio de também gerar no coração. Isso me fez entender que o amor pelo filho é único, não tem distinção.

Dois filhos, duas histórias, Márjori e Nickollas. Márjori, com 30 anos, uma linda filha. Arquiteta de formação, mãe, cúmplice, amiga, irmã dedicada, filha abençoada. Nickollas, com dez anos, um príncipe, lindo, meigo e surpreendente.

              
           Silvia com os dois filhos: Márjori e Nickollas

Veio ao mundo com apenas cinco meses de gestação, pesando 500g após a prática de um aborto provocado. Adotei o Nickollas com quatro meses de nascimento. O desejo de adotar levou-me aos trâmites legais junto à vara da Infância e da Juventude e entrar na fila de adoção.

Processo durou cerca de sete meses.Uma burocracia necessária; porém, não tão demorada como se pensa. Durante a entrevista com os técnicos do fórum, não fiz nenhuma exigência em relação a cor dos olhos, idade, sexo, nada. Desejava apenas receber em meus braços, aquele que chamaria de filho, gerado em meu coração.

Certamente um ato de amor!

Adotar não é caridade, é um ato de amor! Caridade é algo pontual, adotar é receber um filho para sempre. É ter a responsabilidade na criação, na educação. É enfrentar desafios. Soube desde o início que, por conta da prematuridade, não houve a formação da retina, tendo como sequela uma retinopatia da prematuridade grau 5, ou seja, meu filho tem deficiência visual, é cego completamente.

Isso não foi motivo para não adotá-lo. Embora entendesse que a tarefa não seria fácil, uma experiência nova, desafiadora, bastou recebê-lo em meus braços para o amor desabrochar, e minha vida tornou-se com ele uma festa. Uma euforia tomou conta de mim e da minha família.

Depois de seis anos, identificamos mais uma deficiência: autismo de grau leve. Novo desafio e aprendizado. Estava ele ali, precisando do seu tempo para assimilar todas as informações que circulavam ao seu redor.

Ele vivendo em seu mundo à procura do aconchego, do carinho, da atenção no momento certo, no momento dele. Apenas dele. Esse processo gerou no meu íntimo uma inquietação e muitos questionamentos em relação à deficiência e ao aborto.


Não quero entrar no mérito da religião quanto ao aborto, tampouco no julgamento da mulher que assim decidiu. Fui batizada e criada nos preceitos da Igreja Católica que é contra a prática do aborto. Eu, particularmente, também sou.

Porém a mulher acaba sendo vítima de julgamento e de preconceito perante o olhar de uma sociedade que julga, condena e não costuma perdoar. Não quero incorrer no mesmo equívoco. Pensei sobre as circunstâncias, sobre as razões pessoais daquela mulher que havia optado por dizer “não” a uma vida, a vida do filho que estava sendo gerado em seu ventre.

Razões que, com certeza, ela carregará em seu íntimo e que servirá para justificar ou não o seu ato por toda vida. De coração, não me cabe julgar. A minha única certeza é que aquele “não” transformou-se em duas vitórias. A vida que persistiu, pois o feto sobreviveu, e a nova vida que ganhei, uma vida que me faz a mulher e a mãe mais feliz do mundo.

Muitas mulheres, com certeza, carregam a culpa por entenderem, ainda que intimamente, que praticaram um ato pecaminoso – como rotula parte da sociedade – e que não serão “perdoadas”, o que causa, não raro, muitos transtornos psicológicos.

Muitas dessas mulheres são crucificadas, sim! Creio que necessitam de apoio, amparo, colo e não de julgamento. Sou cristã, defendo a vida em todas as circunstâncias, sou contra o aborto, mas jamais julgaria esse ato, até porque o Deus em que creio é o Deus que representa o amor.

Difícil esse tema; porém, necessário e relevante. É urgente que se coloque luz nesta discussão. Por mais complexa que seja. No caso do meu filho, ele sobreviveu! Sobreviveu e presenteia nossa família com a oportunidade do aprendizado, de humanidade, de amor.

JAIRO MARQUES* que é cadeirante, aborda aspectos da vida de pessoas com deficiência e de cidadania. Aqui, você encontra histórias de gente que, apesar de diferenças físicas, sensoriais, intelectuais ou de idade, vive de forma plena.


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