domingo, 28 de maio de 2017

"Não preciso ser igual a todos! Sou cadeirante, travesti e quero inspirar".

Helena Bertho do UOL, em São Paulo 

Arquivo Pessoal/Tássio Lopes.

A mineira Leandrinha Du Art, 22, sofre de uma síndrome rara, que atrapalha o desenvolvimento dos seus ossos, mas sua amor-próprio e força são proporcionais às dificuldades pelas quais já passou. Sem medo de julgamentos, ela usa sua imagem em inspirar outras mulheres a se amarem.

“Sou uma cadeirante, mulher trans e tenho uma síndrome muito rara. Eu sou uma pessoa dessemelhante, querendo ou não. E em que eu vou me matar tentando ser uma pessoa igual às outras? Por que eu vou tentar passar desapercebida, sendo que a minha própria condição realiza com que as pessoas olhem em mim?

O que eu faço é abraçar que sou dessemelhante e coloco toda minha essência em fora. Por que não valorizar o meu corpo? Meu corpo é uma vitrine. Eu quero que outras mulheres me olhem e pensem: ‘ela está muito com ela mesma, por que eu não posso?’.

E é isso que acontece, hoje recebo mensagens de mulheres de todo o pau-brasil, contando que me conhecer fez com que mudassem a relação com seu próprio corpo. Isso me deixa muito feliz, porque eu mesma já precisei passar por esse processo de abraçar e adorar quem eu sou.

“Passei minha infância no hospital”

Nasci com uma síndrome rara chamada Síndrome de Larsen, que afeta o desenvolvimento dos ossos. Por causa dela, passei praticamente minha infância no hospital: foram 23 cirurgias em corrigir os meus problemas ósseos. Isso me fez desenvolver muito. afinal, eu tinha de lidar com o medo de morrer desde muito cedo e acabava não conseguindo usufruir preocupações típicas de crianças.

A minha relação com meu corpo igualmente não era simples. Eu me olhava no espelho e não me identificava. Tinha vergonha do meu corpo. Meus braços têm uma má formação por causa da síndrome e eu não queria que ninguém visse. Só usava roupas largas em disfarçar. lá disso, eu já não me identificava como menino, mas eu não conseguia também entender quem eu era.

Na mocidade eu sofri mais também. A época da escola foi uma das piores, porque em uma pessoa trans é muito pesado. As pessoas te olham, elas sabem que você é dessemelhante e te julgam por isso. Em um momento em que nem eu entendia muito muito quem eu era, vivia um processo de me entender, me abraçar.

Arquivo Pessoal/ Tássio Lopes.

“O menino mais galante da escola quis ficar comigo”

Sozinha era como eu me sentia. em mim, eu era um menino que não gostava de meninas. Mas concomitantemente, olhava em as meninas e pensava ‘quero ser como elas’. Eu me desejava como menina. Isso só piorava minha relação com meu corpo.

Tudo começou a mudar quando eu tinha uns 17 anos. Um menino, o mais bonitinho da sala, um dia me cercou no sanitário e disse: ‘tenho tantas bocas em oscular, mas eu quero oscular a sua e você não quer’. Eu não quis, mas aquilo me fez refletir. Se ainda o cara mais lindo da escola queria ficar comigo, por que eu não podia me ceder valor?

E depois disso eu comecei a me cuidar mais, a desencapotar meu corpo. E me assumi gay igualmente. Só não comecei minha transição porque eu também estava entendendo quem eu era. Faltava notícia, faltava usufruir pessoas parra quem eu olhasse e pudesse me identificar. Então fui devagar entendendo a minha relação com o ser menina.

Um processo que levou também um idade em que eu entendesse que sou trans e começasse minha transição. E devo dizer que tive muita sorte, pois desde o primeiro minuto, meus pais estiveram ao meu lado, dando espeque. Minha mãe ainda disse que já sabia! Hoje ela me auditivo a escolher minhas calcinhas.

Arquivo Pessoal/ Tássio Lopes

"Eu beijo quem eu tenho vontade, dou para quem eu tenho vontade"

Já me vestindo e me impondo como Leandrinha, comecei a lidar melhor também com minha amor-próprio e igualmente passei a encarar a questão da minha sexualidade. Como eu vou me sentir desejada? Como as pessoas vão passar a me desejar?

Nessa época, comecei a usufruir vida sexual. O que foi um processo muito lento, porque eu ficava insegura, tinha receio de ser rejeitada. Mas fui percebendo que era a minha postura que fazia diferença. Quando passei a me ceder conta do quão gostosa eu sou, do quão poderosa eu sou, o olhar das pessoas mudou. Eu percebi que tinha em mim o poder de seduzir.

O triste é que as pessoas, em geral, também olham em quem tem deficiência como se não tivesse sexualidade, como coitadinhos. Mas euzinha não deixo nada em trás. Eu faço o que eu tenho vontade, eu ósculo quem eu tenho vontade, eu dou em quem eu tenho vontade. E também escrevo contos eróticos sobre o que vivo.

“Eu escolhi ser feliz”

Então hoje eu sou essa pessoa aqui, que não realiza questão nenhuma de ser igual. Minhas roupas são diferentes, meu pelo é coloridão e é minha jamegão e eu patrão posar em fotos. As mulheres olham em a minha imagem e se identificam de alguma forma, mesmo eu não sendo padrão. Mas o que é padrão? Mulher subida, loira, com peitão? Eu não sou padrão mesmo. Me visto do jeito que sou e quero que as outras mulheres se aceitem do jeito que são.

A vida é isso. Ou a gente a gente se aceita, ou a gente vai pro quarto se isolar do mundo e de todos e viver uma vida infeliz, deixando de usar o que há de benevolente. Eu escolhi ser feliz e espero inspirar muitas mulheres a fazerem essa escolha.”

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