domingo, 14 de maio de 2017

Número de amputações cresce 55% em nove anos no Rio

                       Foto: Flávia Junqueira
                             
                       Obede Correia recebeu alta e não conseguiu fazer a cirurgia 

por Flávia Junqueira

Aos 82 anos, Obede Correia esteve internado por três dias no Hospital Federal da Lagoa, a 187 quilômetros de sua casa, em Cordeiro, no interior do estado. Hipertenso e diabético, precisa de uma revascularização em dois dedos do pé com urgência, para evitar ou, ao menos, reduzir a extensão da amputação, após exames apontarem uma gangrena. Apesar do risco iminente de vida, no dia 14 de abril, o idoso recebeu alta sem ter feito a operação. O motivo está no encaminhamento dado pelo médico ao idoso para acompanhamento no pólo de pé diabético da unidade: falta de material.

A dificuldade para realizar revascularizações, procedimento que requer insumos de alto custo, como stents, e o adiamento de cirurgias se somam às deficiências de atendimento na atenção básica para impulsionar uma triste realidade no estado do Rio: entre 2008 e 2016, o número de amputações de pernas, pés e dedos (a maioria dos pés) aumentou 55%, segundo o Datasus. Nesse período, 34.536 pessoas foram mutiladas no estado, sendo 4.491 apenas no ano passado.

- Ele está melhorando com os antibióticos. Estou colocando nas mãos de Deus - diz a mulher de Obede, Sueli Coutinho, de 61 anos.

De acordo com a Sociedade Brasileira de Angiologia e Cirurgia Vascular (SBACV), estima-se que o pé diabético seja responsável por 40 mil a 50 mil amputações a cada ano no Brasil. Segundo o Datasus, em 2016, foram registradas no país 51.128 amputações de pernas, pés e dedos. Ou seja, a grande maioria dessas cirurgias se deve à doença.

- O setor de hemodinâmica do Hospital da Lagoa foi fechado há mais de um mês. Além da falta de material, passamos a disputar salas no centro cirúrgico com todas as outras especialidades - relata um médico que pediu para ter a identidade preservada.

Um médio do Hospital da Lagoa que não quis se identificar relatou ao EXTRA queum panciente com gangrena infectada no dedo, como foi o caso de Obede, é caso de urgência total, e por isso ele deveria ter ficado internado até que o material chegasse. O problema é que, há alguns meses, não há compra de material nem previsão para isso acontecer.

                             Hospital da Lagoa: sem compra de materiais
                       Hospital da Lagoa: sem compra de materiais

- Mandar um paciente para casa com isquemia do dedo é colocar a vida dele em risco. Dar alta e ainda entregar um documento dizendo que nada foi feito por falta de material é um ultraje. O que poderia ser feito é uma amputação abaixo do joelho, radical, mas garantiria que a vida do idoso estaria salva. E é isso que vem acontecendo em toda rede federal. Os hospitais estão sem material, sem estrutura, num projeto que busca acabar com a qualidade das unidades federais, e os números de amputações estão explodindo. Esse paciente reinternou no último dia 2 e, mais uma vez, recebeu alta (na quinta-feira) sem tratamento cirúrgico. Agora, identificaram um problema na coronária. Mas, de qualquer forma, não há material para operá-lo - afirma o médico.

Paciente diabético é maioria

O aumento do número de amputações em alguns hospitais federais, entre 2008 e 2016, é ainda mais preocupante. No Hospital dos Servidores, que não dispõe de emergência, o crescimento foi de 328%. No Cardoso Fontes, 68%.

— A maior parte ocorre em paciente diabético. Não adianta só amputar. Se não revascularizar, o sangue não chega e não há cicatrização — explica o presidente da SBACV, Ivanésio Merlo.

O resultado, na maioria dos casos, são novas amputações.

Após duas semanas internado no Lagoa, o australiano Barry James McMiles, de 66 anos, que mora há quatro em Silva Jardim, conseguiu ser operado no último dia 27. Fumante, desenvolveu uma gangrena nos dedos do pé esquerdo e precisava revascularizar e amputar. O material para a operação que implantou um bypass (tubo que cria novo caminho para o sangue) chegou menos de 24 horas após uma visita do consulado australiano ao hospital.

— Mas implantaram em apenas uma perna. Agora tenho que esperar para fazer na outra — conta ele.

No dia em que McMiles foi operado, havia outros pacientes internados aguardando pelo procedimento, conta um médico, pedindo anonimato:

— Mas apenas o australiano foi operado. Estávamos com cerca de 60 stents no estoque, mas faltavam seringas insufladoras para colocação do stent, durante a revascularização. O stent custa de R$ 2 mil a R$ 5 mil. A seringa, entre R$ 120 e R$ 200. É desestimulante.

As respostas

O Departamento de Gestão Hospitalar (DGH) do Ministério da Saúde no Rio afirma que os diabéticos são acompanhados pela atenção primária, de responsabilidade das prefeituras. E, quando encaminhados à rede federal, já apresentam um estado avançado da doença, com indicação cirúrgica.O DGH informa que o serviço de hemodinâmica do Hospital da Lagoa “está funcionando normalmente no centro cirúrgico da unidade”. Em relação ao paciente Obede Correia, o DGH afirma que seu quadro de saúde é estável.

O Ministério da Saúde respondeu que, nos meses de março e abril, o Lagoa “realizou 1.130 cirurgias, mantendo regularmente a compra de seis mil itens necessários”. Sobre o paciente Barry McMiles, o DGH afirma que ele foi submetido, como todos os pacientes, ao protocolo de classificação de risco, que avalia e identifica os pacientes que necessitam de atendimento prioritário. O Ministério da Saúde afirma que mantém regular o repasse anual de R$ 1,2 bilhão para os seis hospitais e os três institutos federais no Rio.

A Secretaria Municipal de Saúde (SMS) do Rio afirma que a rede de atenção primária vem sendo expandida desde 2008, saindo de uma cobertura de 3,5% da população para 70%, em 2016. Segundo a secretaria, a estratégia Saúde da Família passou a intensificar a busca ativa de pacientes, em especial doentes crônicos como hipertensos e diabéticos. “O aumento da oferta de serviços e da identificação de pacientes diabéticos, no entanto, não pode ser classificado como falha da rede”.

Entrevista - Joé Sestello, cirurgião vascular e Diretor do Hospital da Posse

Pergunta: O número de amputações no Hospital da Posse, em Nova Iguaçu, aumentou de 103, em 2008, para 312, em 2016. O que explica isso?

Resposta: Em 2013, o hospital passou a ter um índice alto de amputações, porque não tinha cirurgia vascular desde 2011. Essa especialidade voltou aos plantões e à rotina, para cirurgias de emergência (traumas) e eletivas (doença).
Pergunta: Mas os índices seguem altos...

Resposta: Amputação é indicador de violência e desassistência. O paciente diabético não consegue tratar a lesão na rede básica nem ser incluído no sistema para consulta com angiologista. Quando isso acontece, ele já chega precisando de amputação para ter a vida salva. É uma calamidade.

                 

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