segunda-feira, 8 de maio de 2017

'O público precisa se identificar', diz empresário de modelos com síndrome de down, transexual e plus size em Uberlândia

Intenção do projeto é quebrar tabus de famílias e pessoas 'perfeitas'. G1 participou de um ensaio e conheceu esses modelos.

Por Karla Pereira e Fernanda Vieira, G1 Triângulo Mineiro

                           Vitória tem sete anos e diz se sentir uma princesa quando fotografa (Foto: Bárbara Oliveira/Gallvão Model/Divulgação)
Vitória tem sete anos e diz se sentir uma princesa quando fotografa (Foto: Bárbara Oliveira/Gallvão Model/Divulgação)

No mundo da moda, beleza e atitude andam juntas. Além de criar tendências, as marcas apostam nas mudanças de comportamento. Por conta desta abertura no mercado, uma agência de Uberlândia resolveu quebrar tabus, instituídos pela sociedade e contratar modelos com síndrome de down, transexual e plus size. O G1 participou de um ensaio e conheceu essas pessoas.

João Galvão é dono da agência e contou que a ideia veio há três anos, quando empresas começaram a pedir esse elenco diferenciado para comerciais e catálogos. “Descobrimos que uma agência completa não era só aquela que tinha modelos altas, magras e manequim 38, mas sim a que atendia todos os perfis. Nossa intenção é destituir o tabu da família de ‘comercial de margarina’, mostrando a realidade. O público precisa se identificar no que vê e nós queremos levar isso a eles”, disse.

Na seleção, João doou 15 bolsas para crianças e jovens com síndrome de down, além de preparar toda a equipe. “Como nós temos um custo com fotógrafo, maquiador, produtor, cursos de teatro e etiqueta, assessoria de moda, a agência cobra por modelo para esse trabalho. Mas desses modelos especiais nós decidimos não cobrar, já que eles têm muitos gastos com acompanhamento médico e tudo mais”, contou.

Modelos

                        Gustavo sonha em ser modelo desde criança (Foto:  Bárbara Oliveira/Gallvão Model/Divulgação)
Gustavo sonha em ser modelo desde criança (Foto: Bárbara Oliveira/Gallvão Model/Divulgação)

Gustavo Alves Anchienta, de 22 anos, tem a síndrome e revelou o sonho de ser modelo desde criança, porém sabia que os pais não tinham condições de pagar um book e enxergou aí uma oportunidade. “Ninguém nunca acreditou que eu poderia ser modelo e eu amo fotografar e trabalhar”, disse o jovem.

Gabriel Resende é pai do Benjamin, de dois anos. A criança tem a síndrome e também participa do catálogo. Para o pai, esta é uma oportunidade de mostrar ao mundo que todos são iguais. “É o momento da gente incluir as crianças com deficiência em todas as dimensões da sociedade. Cada um tem sua beleza individual”, comentou.

                           Pai do Benjamin diz que é importante incluir as crianças com deficiência em toda sociedade (Foto: Bárbara Oliveira/Gallvão Model/Divulgação)
Pai do Benjamin diz que é importante incluir as crianças com deficiência em toda sociedade (Foto: Bárbara Oliveira/Gallvão Model/Divulgação)

Renata Gusmão é mãe de Vitória, de sete anos, e disse que ela vem se desenvolvendo depois que começou a modelar. “Ela já faz algumas atividades de socialização como natação e música, mas chegou aqui com tudo, como se tivesse em casa, como se fotografasse desde sempre. Ela diz que se sente uma princesa. Estou muito orgulhosa da minha filha”, contou.

Ticiane Fernandes é modelo, transexual e participou recentemente do ‘Miss T', representando Minas Gerais em São Paulo (SP). Para ela, o mercado têm dado muitas oportunidades e crescido cada vez mais no ramo. “Somos todas modelos, lindas. As pessoas têm que parar com o preconceito e dar espaço para todas, independente das nossas escolhas”, ressaltou.

Preconceito

Rayane e Ticiane, respectivamente, são modelos transexuais (Foto: Bárbara Oliveira/Gallvão Model/Divulgação)
Rayane e Ticiane, respectivamente, são modelos transexuais (Foto: Bárbara Oliveira/Gallvão Model/Divulgação)

João relatou que ainda vive e presencia algumas situações de preconceito por conta dos modelos fora do convencional. “Tive amigos de fora que ‘aconselharam’ a parar de trabalhar com plus size e não vincular a imagem com pessoas gordas. É triste, mas nós escutamos isso”, comentou.

Contudo, com as crianças com síndrome de down, ele disse nunca ter vivido algo assim. “Quando o cliente pede uma criança, enviamos todas e ele escolhe. Se ele escolher a criança especial, já sabem que têm que ter uma preparação maior. Elas fazem as mesmas coisas. A diferença é que é mais devagar, no tempo delas e talvez uma gravação ou sessão pode demorar mais. Porém, tudo depende do perfil. Assim como todas as crianças, existem umas mais tímidas e outras mais agitadas", acrescentou.

O empresário também contou que já chegou a perder trabalhos por oferecer modelo fora do padrão, mas que também já viveu situações únicas. “Quando a Ticiane foi para a Casa de Criadores como mulher, ela não passou. Quando eu especifiquei que era trans, os olhares mudaram e a acharam incrível”, concluiu.

            Merydianna e Stefani trabalham como modelos pluz size (Foto:  Bárbara Oliveira/Gallvão Model/Divulgação)
Merydianna e Stefani trabalham como modelos pluz size (Foto: Bárbara Oliveira/Gallvão Model/Divulgação)

Fonte: g1.globo.com

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