domingo, 21 de maio de 2017

Sonho de mãe

Para celebrar o Dia das Mães, o #blogVencerLimites conta a história de Benita dos Santos, que decidiu, 18 anos atrás, após um sonho, incluir na família duas meninas de três meses de vida, mesmo após criar 15 filhos. O juiz responsável pela adoção havia determinado que separá-las não seria permitido. Uma das gêmeas, Natália, era disputada por vários casais, mas sua irmã Natalina, com paralisia cerebral, não fazia parte dos planos de ninguém.

Luiz Alexandre Souza Ventura

A partir da esquerda: Natália dos Santos Silva, Fernanda dos Santos Silva, Antônio Marcos Alves Paulina, Natalina dos Santos Silva, Wagner Regis Vieira dos Santos, Benita Elias dos Santos, Vashnne Augusto Regis dos Santos, Valéria Elias dos Santos, José Benedito dos Santos, Aliete Elias dos Santos Ramos, Alian Regis dos Santos Gonçalves e Maria Aparecida de Araújo Diniz. Imagem: Divulgação/Prefeitura de Itanhaém
A partir da esquerda: Natália dos Santos Silva, Fernanda dos Santos Silva, Antônio Marcos Alves Paulina, Natalina dos Santos Silva, Wagner Regis Vieira dos Santos, Benita Elias dos Santos, Vashnne Augusto Regis dos Santos, Valéria Elias dos Santos, José Benedito dos Santos, Aliete Elias dos Santos Ramos, Alian Regis dos Santos Gonçalves e Maria Aparecida de Araújo Diniz. Imagem: Divulgação/Prefeitura de Itanhaém

As irmãs Natália e Natalina tinham três meses de vida quando foram morar na casa da família de Benita e José Benedito em Itanhaém, no litoral sul de SP. A lista de casais interessados em adotar somente Natália era grande, mas ninguém queria Natalina porque a menina havia passado por complicações no parto, não recebeu oxigênio e ficou com paralisia cerebral. Serapar as gêmeas não era permitido pelo juiz que iria decidir, 18 anos atrás. quem poderia adotá-las.

José Benedito dos Santos, na época com 55 anos, estava próximo da aposentadoria, após muitos anos dedicados ao cartório eleitoral do Fórum de Itanhaém e à carreira de professor no ensino estadual. Benita Elias dos Santos, então com 49 anos, trabalhava em uma barraca de feira livre. Naqueles tempos o casal já havia criado 15 filhos, seis biológicos e nove ‘do coração’. Sua casa sempre esteve aberta para acolher crianças que precisam de ajuda. Sendo assim, cuidar das gêmeas pareceu natural para aquela mãe.

“Eu viajei naquele dia e voltei somente à noite. Minha esposa já havia até sonhado com duas menininhas. Quando cheguei, elas estavam no berço. Fiquei preocupado e cheguei a questionar se, com a nossa idade, teríamos condições de ficar com elas”, conta José Benedito.

As irmãs gêmeas Natália e Natalina (de cabelo preso) têm 18 anos. Imagem: Divulgação/Prefeitura de Itanhaém
Natália e Natalina (de cabelo preso) têm 18 anos. Imagem: Divulgação/Prefeitura de Itanhaém

A preocupação tinha fundamento, porque a saúde de Natalina era frágil e existia o risco iminente de ela não sobreviver. “Nós já havíamos recebido muitas crianças e ela poderia ser a primeira a falecer dentro da nossa casa”, lembra o professor.

O momento exigia dedicação e Benita largou o trabalho na feira livre para ficar ao lado das gêmeas em tempo integral. Um ato de absoluta entrega que resultou na formação do vínculo poderoso que Natalina e sua mãe mantêm até hoje.

A possível perda da menina foi se tornando cada vez mais distante e remota, mas ainda havia a missão de proporcionar a Natalina o máximo de autonomia e independência, apesar da deficiência física e intelectual. E mais uma vez a perseverança de Benita foi fundamental. A previsão era de que a menina sequer conseguiria andar, mas isso não se concretizou e ela jamais usou uma cadeira de rodas. Suas restrições de mobilidade e de cognição não a impedem de viver de forma plena e os estímulos que sempre recebeu foram determinantes.

Benita e José Benedito têm 18 filhos e 30 netos. Imagem: Divulgação/Prefeitura de Itanhaém
Benita e José Benedito têm 18 filhos e 30 netos. Imagem: Divulgação/Prefeitura de Itanhaém

As gêmeas têm hoje 18 anos, mas não são as caçulas. Há ainda mais uma irmã, também ‘do coração’, que tem 15 anos. A primeira a chegar foi Eva, quando tinha 7 anos. Além dos 18 filhos, Benita, hoje com 67 anos, e José Benedito, aos 73, têm 30 netos.

“Todos são iguais. Minha família representa muito para mim. É cada vez mais comum encontrar famílias desestruturadas. A adoção de meus irmãos foi um ato de amor”, afirma Wagner Regis Vieira dos Santos, de 47 anos, um dos filhos biológicos.

Para Antônio Marcos Alves Paulina, de 44 anos, filho ‘do coração’, o apoio que recebeu na adolescência foi fundamental para seu futuro como professor. Ele dá aulas de Língua Portuguesa e de Inglês na Escola Estadual Professor Jon Teodoresco, em Itanhaém. “Eles entraram na minha vida e mudaram meu destino quando eu tinha aos 13 anos”, diz Antônio.

José Benedito sempre acreditou no poder transformador da educação e investiu forte na própria formação para poder levar conhecimento a seus alunos. Quando eram escassas escolas de ensinos fundamental e médio em Itanhaém, ele e outros professores criara a ‘Maduzera’, com disciplinas dos antigos ginásio e colegial, sistema conhecido atualmente por Educação de Jovens e Adultos (EJA).

O professor é especializado em matemática e biologia, além de ser formado em direito, geografia e história. José Benedito foi diretor em duas escolas municipais (Professora Maria Conceição Luz, no Jardim São Fernando, e Professora Divani Maria Cardoso, no bairro Vila Loty), além de docente concursado na Escola Estadual Professor Jon Teodoresco, no Mosteiro.

Nenhum casal queria adotar Natalina por causa da paralisia cerebral. Imagem: Divulgação/Prefeitura de Itanhaém
Nenhum casal queria Natalina por causa da paralisia cerebral. Imagem: Divulgação/Prefeitura de Itanhaém

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