quinta-feira, 15 de junho de 2017

A doença que a vergonha prejudica o tratamento

Por Priscila Torres


Não se pode tratar nenhuma doença com desprezo, pois cada uma revela características e desigualdades que exigem atenção específica. É certo que algumas doenças são mais discutidas em sociedade como, por exemplo, dor de cabeça, dor nos olhos, dor no estômago. Mas algumas doenças não são nem debatidas por sofrerem com tabus criados pela sociedade. Não é corriqueiro discutir diarreia. Ou mesmo o sangramento retal, um dos sintomas característicos da Doença de Crohn e da Retocolite Ulcerativa. A vergonha prejudica o tratamento.

As Doenças Inflamatórias Intestinais, sendo Doença de Crohn e Colite Ulcerativa as mais comuns, tiveram um aumento de três a quatro vezes em países da América Latina na última década, segundo dados da Organização Pan-americana de Doença de Crohn e Colite (Pancco). No Brasil, entre 1991 e 2000, houve um crescimento de 117% de incidência da Doença de Crohn e 75% da Colite Ulcerativa. Os sintomas mais comuns são dor abdominal, diarreia crônica, urgência para evacuar, sangue nas fezes e perda de peso.

No último Simpósio Multidisciplinar de Atualização em Doenças Inflamatórias Intestinais, que foi realizado juntamente com o Congresso da Pancco, em São Paulo, nos dias 2 e 3 de junho, pesquisadores e médicos discutiram a importância da divulgação das Doenças Inflamatórias Intestinais, sua prevenção, causas e tratamentos.

De acordo com o Mark Silverberg, gastroenterologista e professor de medicina da Universidade de Toronto, a Doença Inflamatória Intestinal é uma doença que ataca jovens e adultos no momento mais ativo da vida, entre 15 e 35 anos. E não escolhe sexos: homens e mulheres são vítimas. “Não é uma doença fácil, pois há muito preconceito. Ninguém quer conversar sobre sua diarreia. Para um tratamento adequado é necessário um novo comportamento tanto da população quanto dos especialistas, que às vezes não dão o devido valor a doença”, explica.

No simpósio, Silverberg disse que o tratamento adequado melhora a qualidade de vida do paciente. O contrário também acontece: sem orientação correta, ela ocasiona incapacidade funcional. Pacientes com algumas das Doenças Inflamatórias Intestinais podem apresentar dificuldade em executar tarefas cotidianas básicas ou mais complexas. “Precisamos evoluir para um diagnóstico precoce, pois mesmo no Canadá, com uma estrutura de saúde mais avançada, metade da população não tem acesso aos medicamos, pois são caros”.

As causas das Doenças Inflamatórias Intestinais não são totalmente conhecidas, explica o presidente emérito da Associação Brasileira de Colite Ulcerativa e Doença de Crohn, Flávio Steinwurz. Para ele, que é especialista em doenças inflamatórias intestinais, sabe-se que fatores genéticos e o meio ambiente podem ter papel importante para o surgimento das doenças, e que são mais frequentes em centros desenvolvidos ou em desenvolvimento. Mas aspectos físicos, psicológicos e financeiros, em geral, podem ocasionar as doenças.

Jesús Yamamoto-Furusho, fundador e presidente do Departamento de Gastroenterologia do Instituto Nacional de Ciencias Médicas y Nutrición do México, e também um dos participantes do simpósio multidisciplinar, relata que hospitais de nível inferior não se dedicam a esta modalidade de doença. Também critica os clínicos gerais, que muitas vezes não possuem o conhecimento necessário para descobrir a doença e encaminhar o paciente para tratamento correto. “É muito importante os médicos, principalmente os clínicos gerais, realizarem cursos de educação médica continuada para inibir as dificuldades iniciais de diagnóstico enfrentadas pelo paciente”, pontua.

Segundo Jesús, 90% dos pacientes que vão à sua clínica apresentam um diagnóstico tardio e a maioria dos pacientes já visitaram antes pelo menos três especialistas.

O diagnóstico tardio das doenças inflamatórias intestinais ocasiona baixa qualidade de vida, recaídas, maior risco para câncer, risco de infecção, anemia, doença progressiva com estenoses e doença penetrante.

Pesquisa realizada pelo Datafolha revela, ainda, que 25 milhões de brasileiros, com mais de 16 anos, têm dor de barriga ou diarreia frequente. Destes, 38% utilizam medicamentos caseiros, 27% vão ao posto de saúde mais próximo e 25% tomam remédios sem prescrição médica.

Em espaço destinado para perguntas, Silverberg foi questionado se havia evidências científicas sobre os tipos de comida que poderiam colaborar para o surgimento de Doenças Inflamatórias Intestinais. O professor da Universidade de Toronto afirmou que não há uma pesquisa conclusiva, mas existem muitos grupos de estudo que pesquisam o impacto dos alimentos na flora intestinal. No entanto, fez um alerta: “Evitar refrigerante, fritura e industrializados em geral é sempre a melhor opção, pois apesar de não ter uma pesquisa que indique isso, uma alimentação à base de frutas e verduras fará as pessoas serem mais saudáveis, prevenindo assim não só doenças intestinais, mas uma série de outras”.

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