terça-feira, 6 de junho de 2017

Autonomia, inclusão e independência no alvo da MODA INCLUSIVA

              


   Modelo com prótese na perna desfila na passarela do desfile de Moda Inclusiva

Pense rápido: não importa quem você seja ou onde viva, o que você faz todo santo dia, sem falhar um dia? Se respondeu: se vestir, acertou. E, dependendo para onde você vai, ou o que vai fazer, escolhe um determinado traje, não sem antes observar o horário e o ambiente. Dificilmente alguém vai à praia ou piscina vestindo roupa de trabalho e vice versa: ninguém vai ao trabalho de maiô, biquíni ou saída de banho. Todo ambiente requer uma roupa apropriada. Mas vestir-se tornou-se um ato automatizado, e a gente não pensa muito sobre isso, escolhe uma roupa confortável, elegante ou aquela que combina com nosso jeito e pronto. Mas se você tem deficiência, essa ação – escolher o que vestir – não é tão simples ou automatizada.

Para chamar atenção a esse aspecto, em 2008 uma nova proposta surgiu no meio da moda, pensar o design das peças criadas para atender a todos os públicos, com e sem deficiência. O projeto Moda Inclusiva da Secretaria de Estado dos Direitos da Pessoa com Deficiência de São Paulo foi criado com esse intuito, utilizar-se do desenho universal para a elaboração das vestimentas, propiciando a todas as pessoas o acesso a um vestuário que facilita, por exemplo, o uso por pessoas em cadeira de rodas, amputadas, cegas ou mesmo as que tenham dificuldade de mobilidade. Essas pessoas têm certa restrição com manuseio de zíper, botões ou cadarços.

Desde então, há nove anos, inúmeras ações foram realizadas para que isso seja levado em conta: workshops, cursos sobre Moda Inclusiva, cartilhas sobre conscientização e o carro chefe do projeto, o Concurso Moda Inclusiva.

No início, o Concurso era realizado apenas em âmbito estadual, mas as proporções e o interesse pelo tema se expandiram, o que o transformou em nacional e logo internacional. Da primeira edição até a última, realizada em 2016, foram mais de 1.500 inscritos do Brasil e do mundo. A edição deste ano está com inscrições abertas desde abril, finalizando essa etapa em 15 de junho. Já participaram países como Itália, Argentina, Chile, Paraguai, Canadá, França, Índia, Irã e Japão

Podem se inscrever estudantes de cursos técnicos, universitários, alunos de cursos livres e profissionais das áreas de Moda e da Saúde, do Brasil e do mundo. As inscrições devem ser feitas pelo site oficial do Concurso.

Atualmente, o Brasil tem cerca de 45 milhões de pessoas com algum tipo de deficiência. Somente no Estado de São Paulo, esse contingente ultrapassa 9 milhões. O objetivo do concurso é fazer com que jovens estilistas lancem um novo olhar a soluções que facilitem o cotidiano de pessoas com deficiência e restrição de mobilidade.

Modelo feminino cadeirante desfila no evento do Concurso Moda Inclusiva

Gabriela Sanches Radesca, atual responsável pelo projeto na Secretaria, explicou que o anseio de realizar algo na área de moda vem desde o início da Secretaria, quando percebeu-se a necessidade de algo nesse sentido dentro dos hospitais de reabilitação.

Junto a outras prioridades da Pasta, a Moda Inclusiva foi inserida às ações que visam permitir às pessoas com deficiência se sentirem, de fato, incluídas na sociedade. Junto a acessibilidade física, comunicacional, também buscou-se com o projeto dar a possibilidade para que as pessoas façam suas opções. Possam escolher, como as pessoas sem deficiência, as vestimentas adequadas para cada ocasião.

PIONEIRISMO
O Concurso foi o primeiro realizado no país, pioneiro no segmento. Gabriela traça uma linha entre os avanços que já podem ser percebidos na área e os que ainda estão por traçar. “O maior número de trabalhos acadêmicos e pessoas se aprofundando no tema por meio de pesquisas científicas mostram o quanto já avançamos na área”, destaca. Segundo Gabriela, antes do projeto existir havia pequenas discussões sobre o tema, era algo muito pequeno.

“Ter mais lojas especializadas e que mudem sua maneira de produzir a moda, e passem a ter roupas mais inclusivas são um avanço ainda a conquistar”. Gabriela também falou sobre a importância da mudança nas confecções. “Ao mesmo tempo que possam criar lojas exclusivas, é interessante que as empresas que já existem mudem a forma de produzir e consigam atender a pessoa com deficiência”.

Cadeirantes e apresentadores aguardam o início do desfile de Moda Inclusiva

O concurso visa contribuir para a construção de uma sociedade mais inclusiva para todos, com trajes adequados para as pessoas com deficiência, priorizando a eliminação de todas as barreiras, incluindo a remoção dos entraves de funcionalidade e estética cotidiana.
 
A moda pode ou não contribuir com a independência e autonomia da pessoa com deficiência. Gabriela deu alguns exemplos: “um zíper mais alongado ou com uma argola para que a pessoa com baixa mobilidade ou baixa coordenação motora fina, consiga puxar sozinha ou com menor dificuldade possível, também etiquetas em braile que possam ajudar a escolher sozinha na loja ou a organizar o próprio guarda roupa sem depender de outra pessoa, são exemplos de formas que a moda inclusiva pode impactar na vida da pessoa com deficiência”.
 
O projeto Moda Inclusiva estimula a criatividade de vários grupos, como estudantes, professores, pessoas com deficiência, além de fomentar um mercado com foco na ergonomia e estender a questão da deficiência para diversos grupos da sociedade propondo uma reflexão comportamental.
 
Letícia Nascimento, estilista que participou e venceu a segunda edição do Concurso Moda Inclusiva, em 2010, continua neste ramo e passou, após sua participação no Concurso, a difundir mais o tema. “Eu já estava no último ano da faculdade quando participei, já tinha noção de modelagem de tecido, mas eu fiz a peça de uma forma mais intuitiva”. Ela destaca ainda que “ no ano passado eu terminei o meu mestrado na USP que foi um trabalho que eu desenvolvi sobre a adaptação de vestuário para cadeirante e agora estou escrevendo meu livro, pretendo trabalhar em alguma marca para desenvolver essas peças também”.

Desfile do Concurso de Moda Inclusiva 2017, com moça cadeirante no centro das atenções e da passarela. 
 
O modelo Thiago Cenjor é cadeirante e já desfilou para alguns estilistas no Concurso de Moda Inclusiva e nos últimos anos tem sido apresentador do Concurso, “A Moda Inclusiva é uma forma da pessoa com deficiência ter uma independência maior em colocar e tirar a roupa e também de ter a liberdade de escolher a roupa que ela queira vestir”.
 
Segundo ele, “com a Moda Inclusiva a gente tem a total liberdade de escolher o que a gente quer vestir, tanto na parte estética quanto na parte de modelo”. Sobre os avanços na área, Cenjor foi enfático, “espero que cada vez mais as marcas da moda, de grife e empresas, busquem entender um pouco mais da moda inclusiva e colocar dentro de suas campanhas roupas acessíveis para pessoas com deficiência. Além disso, (falta no comércio) as lojas terem departamentos específicos, que facilitem e ajudem a pessoa com deficiência porque ela trabalha, ela tem dinheiro, consome, gasta, compra e as empresas não enxergam esse universo dessa forma”, afirma.
 
Além do formato abrangente, existem os Concursos regionais de Moda Inclusiva, a versão interior do Concurso deste ano acontecerá nas regiões de Barretos, Cruzeiro, Limeira, Paraguaçu Paulista e São João da Boa Vista. As inscrições são feitas no mesmo período, de 03 de abril a 15 de junho.
 
O Concurso Moda Inclusiva permite que as pessoas sejam as protagonistas da passarela e ganhem as ruas com elegância e estilo. Vestidas para viver.
 
Em paralelo ao concurso, a Secretaria também oferece, no Centro de Tecnologia e Inclusão, cursos de Moda Inclusiva em frentes diferentes: Moda Inclusiva com Ênfase em Varejo e Moda Inclusiva com Ênfase na IndústriaO primeiro visa apresentar e discutir conceitos da moda inclusiva no ponto final da cadeia produtiva, através da reflexão sobre a necessidade de capacitar e informar profissionais que trabalham no varejo e os proprietários de marcas e grifes, levando em consideração a enorme diversidade humana. O segundo apresenta e discute novos conceitos de criação e desenho, através de reflexão sobre a necessidade do desenvolvimento de produtos e serviços, atendendo e respeitando as particularidades que compõem a diversidade humana.

SERVIÇO
9º Concurso Internacional Moda Inclusiva e 
Edição Regional do Concurso Moda Inclusiva
Data de inscrições: 03 de abril a 15 de junho de 2017
Regulamento e inscrições: http://modainclusiva.sedpcd.sp.gov.br/inscricao
 
Informações gerais: http://modainclusiva.sedpcd.sp.gov.br/

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