quarta-feira, 7 de junho de 2017

Ele é completamente cego, mas foi a 1.640 estádios na Inglaterra para escrever sobre eles

   
John Stancombe é completamente cego, mas já foi a mais de 1,6 mil estádios ingleses.

John Stancombe não é um craque de bola, nem mesmo um técnico de renome, mas, sem dúvidas, é hoje um dos maiores personagens do futebol inglês.

Afinal, poucos no país podem dizer que já visitaram 1.640 estádios diferentes espalhados pela Grã-Bretanha, marca que ele completou há duas semanas, depois que acompanhou uma partida no Sandbach Football Centre, pertencente ao Sandbach United, equipe que disputa divisões amadoras da Inglaterra. Um groundhopper (como são chamados o adepto das práticas das viagens futebolísticas) de enorme respeito.

Mas o que torna a história de Stancombe realmente especial é que ele é completamente cego.

“Essa é minha 10ª temporada de futebol sendo 100% cego”, contou o fanático, ao jornal The Guardian.

“Eu não enxergo absolutamente nada desde 2006. Quando isso aconteceu, passei um ano sentado dentro de casa sem fazer nada. Eu não podia ir a lugar nenhum e não tinha ninguém para me ajudar”, lembrou.

“Fiquei um pouco deprimido. Basicamente, você vira um prisioneiro nas quatro paredes da sua casa. Eu não podia mais enxergar para digitar meus relatos de jogo. Como não podia mais fazer isso, eu falava em um gravador. Você perde a confiança na vida depois que fica cego. Até você compreender isso, nunca irá entender o que estou falando”, ressalta.

Em dias de jogo, Stancombe chega ao estádio escolhido para aquela data com boas duas horas para aproveitar antes da bola rolar. Então, ele é acompanhado pelo perímetro por um voluntário, que lhe explica as peculiaridades de cada arena: o número de refletores, a altura da grama, o diâmetro do vestiário, os detalhes do céu e o tamanho, cor e quantidade de arquibancadas. Isso ajuda John a criar a imagem do estádio em sua mente.

Stancombe também combina com cada clube para que um narrador se sente ao lado dele, descrevendo todos os detalhes da partida, sempre de maneira voluntária.

Com essas ajudas, ele vem conseguindo manter uma incrível marca de partidas assistidas in loco, que depois são compiladas em um livro anual feito por ele mesmo.

O fanático vem escrevendo relatos de jogos por 30 anos, um interesse que surgiu quando ele era torcedor do Wimbledon.

“Eu comecei a fazer meus relatos depois de conhecer dois torcedores do Wimbledon que estavam fazendo isso para uma revista chamada Dons’ Outlook. Então, deixei a escola de cegos aos 16 anos e pensei que gostaria de me arriscar nisso. Consegui um passe especial para cegos nos ônibus e fui aos estádios da Isthmian League gravando jogos”, relatou.

“Depois, descobri que havia alguns cursos para cegos em um centro de empregos, e lá eu conheci esse software que me permite escrever os relatos de jogo novamente, mesmo agora sendo totalmente cego. Apesar de que, como alguém narra a partida para mim, meus textos são feitos sempre a partir da percepção de outra pessoa”, analisa.

Stancombe diz que hoje já não tem mais um time de coração. Ele quer se dedicar apenas a acompanhar o maior número possível de partidas que conseguir.

“Como um groundhopper, sou neutro. Então, para mim, nunca importa quem vence. Se um time me trata bem, comenta bem os jogos, então eu espero que esse time vença. Mas você vai aprendendo que, conforme você vai subindo de divisão, os clubes cada vez mais olham para você como se você fosse apenas um número em meio à multidão”, lamenta.

“Varia de time para time. Mas sempre me conseguem um jornalista ou um narrador de rádio para me ajudar comentando a partida. Muitas vezes eles ficam nervosos com a pressão, já que não estão acostumados a ajudar um torcedor cego”, revela.

A temporada 2015/16 foi o 29º livro de sua coleção, contando as partidas de número 1.575 a 1.614 de suas aventuras pessoais.

Em cada relato, ele detalha tudo: do número de torcedores e preços cobrados a curiosidades como se há um bar dentro do estádio ou como são os banheiros.

A atenção ao detalhe vem de sua “enorme afeição” pelo futebol, como ele conta. Stancombe recorda que foi através de seu pai que veio o amor pelo esporte.

“Foi acompanhando o Wimbledon com meu pai que me apaixonei por futebol. Meus pais também são cegos. Meu pai enxerga parcialmente, mas minha mãe é como eu, totalmente cego. A gente vivia em Balham, no sul de Londres, e quando eu era jovem foi na pior era do hooliganismo. Então, era muito difícil para um pai que mal enxergava levar o filho que também mal enxergava a um estádio”, rememora.

“Lembro de uma partida em particular contra o Derby County que houve muitos problemas. Os policiais não nos deixaram sair do estádio até meia hora depois do jogo. Depois, nós, que éramos 30 torcedores, fomos escoltados por 50 policiais à estação de trem. Havia muita violência. Chegou um momento que eu já não estava mais gostando. Então, passei a acompanhar futebol amador. Prefiro a camaradagem dos times não-profissionais, a amizade e a paixão pelo jogo. Você vê que os caras querem jogar porque amam esse jogo, e não porque vão encher os bolsos de dinheiro”, salienta.

Como o planejamento e a preparação para ir aos jogos é bastante trabalhosa, Stancombe fica muito feliz quanto consegue ir a mais de uma partida por dia, o que só é possível quando há duelos realizados em localidades próximas.

“Uma vez consegui ir a três jogos no mesmo dia. Para um groundhopper, isso é até normal, mas para mim é sempre mais difícil, principalmente porque tenho que ter todos os horários de trens memorizados. As viagens são bem cansativas. E, como não posso enxergar, tenho que confiar nos meus outros sentidos. O problema é que minha audição também é meio ruim, e eu não tenho olfato”, conta.

Hoje, Stancombe diz que acompanhar as partidas pela Inglaterra é muito mais que um hobby. Tornou-se seu propósito de vida.

“Eu faço isso porque senão ia ficar sentado no pub o tempo todo. Quando você é um cego sozinho em casa, fica só tirando cochilos. Eu não queria ficar em casa dormindo, então estou há 30 anos fazendo isso. Só porque sou cego eu deveria parar de fazer isso?”, questiona.

“Eu já tive muitos problemas de saúde, mas, enquanto houver clubes que se proponham a me ajudar, eu continuarei desafiando todos e indo aos estádios”, encerra.

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