terça-feira, 27 de junho de 2017

Expressões artísticas são usadas para auxiliar tratamento do autismo

Entre outros benefícios, a arte pode promover a aprendizagem, a expressão, a organização e a relação dos pacientes

Isabella de Andrade - Especial para o Correio

João Saidler/Divulgação
A educadora Camila Alves, durante atividade de arte e acessibilidade

Utilizar a música e seus elementos, o teatro, as artes plásticas e outras formas de expressão artística, pode se transformar na construção de um dos caminhos mais criativos e eficazes para auxiliar no tratamento de crianças, jovens e adultos no transtorno do espectro autista. Os processos que envolvem arte podem promover e facilitar a comunicação, a relação,a aprendizagem, a mobilização, a expressão, a organização e diversos outros pontos relevantes do desenvolvimento e convívio social. Entre os projetos de música, teatro, visitas em museus e contação de histórias, a criança com algum grau de autismo pode desenvolver seus potenciais e melhorar sua integração em sociedade.

É o que se pode perceber no projeto de musicoterapia de Ana Carolina Steinkpof, que resultou em um musical formado por um elenco que levou 50 autistas das mais diversas idades ao palco. A musicoterapeuta percebeu que a música poderia ser usada como terapia para trabalhar o vínculo, a expressão, a aquisição de vocabulário, as habilidades motoras e outras tantas em pessoas no espectro autista. “A família também faz parte do processo. Os pais ensaiam as músicas em casa com as crianças e isso fortalece o vínculo entre a criança, os pais, os irmãos; além de fortalecer a autoestima dos pais ao verem seus filhos no palco superando dificuldades”, enfatiza Ana Carolina. A equipe de criação conta com psicólogas e terapeuta ocupacional que, juntas, tentaram criar as melhores adaptações possíveis para o elenco.


João Saidler/Divulgação
Turma de autistas durante uma visita na galeria de arte

Todas as adaptações foram feitas para proporcionar o melhor desenvolvimento possível dos participantes e que o trabalho passou por diversas etapas, lembra a coordenadora do projeto. Nos primeiros momentos de criação, que durou cerca de seis meses, os ensaios eram feitos em pequenos grupos, de até cinco crianças.

Na segunda parte, foram feitos os ensaios gerais, reunindo todo o elenco que faria parte do espetáculo. “Trabalhar com eles requer uma série de adaptações, muitas vezes a estética musical fica em segundo plano. No primeiro momento, foram organizadas atividades separadamente justamente para trabalhar as particularidades de cada pessoa e para que elas fossem incluídas nesse fazer musical”, afirma. Para a musicoterapeuta, é importante ressaltar que o trabalho artístico valoriza as pessoas que o fazem e, para as pessoas com autismo, além de trazer mais autoestima e confiança, leva ao público um pouco mais de informação sobre o espectro e suas possibilidades.

Guilherme Lima, de 7 anos, é filho de Tatiana Lima e participou da montagem musical. A enfermeira e mãe do menino, conta que o interesse por participar do projeto surgiu ao perceber as dificuldades do filho na sociabilização e, principalmente, em apresentações de datas festivas na escola. “Ele nunca conseguia se apresentar, procurei então o musical para tentar ajudar ele a se socializar e foi a melhor coisa que fiz. Ele teve várias mudanças ao longo do processo e percebi que a concentração e a linguagem verbal melhoraram bastante. Foi muito bonito ver meu filho subindo no palco e conseguindo se apresentar para toda aquela plateia”, conta Tatiana.

Museu democrático

Daniela Chindler é coordenadora do programa educativo do Centro Cultural Banco do Brasil, nas cidades de Brasília, Belo Horizonte, Rio de Janeiro e São Paulo. Para ela, o espaço do museu deve ter acesso democrático, ou seja, possível para toda a população. As ações do educativo acontecem em sintonia com as exposições que passam pelos museus e trabalham de maneira direta com o autismo, com foco no trabalho de inclusão através dos espaços culturais.

A arte-educadora e produtora cultural Fabiana Martelotte trabalha no projeto educativo do Rio de Janeiro e lembra que o interesse pelo trabalho com autismo surgiu há 16 anos, quando apareceu o diagnóstico de seu irmão mais novo. “Queria contribuir para o projeto, acredito que conhecer várias manifestações artísticas é uma vivência rica, que contribui muito para o autista. Penso que ocupar os espaços culturais gera não apenas a oportunidade de relação com a arte em si, mas de estar e ser no mundo”, afirma.

Para a educadora um dos pontos mais importantes do projeto é acolher as pessoas e tornar claro que existe o interesse por ser acessível a elas. Em muitos casos as famílias e os autistas já viveram vários momentos de exclusão, de falta de receptividade aos comportamentos e a maneira de ser que apresentam. Receber esse acolhimento pode ser decisivo para a construção desse público, para sua permanência e retorno”, afirma Fabiana.

A produtora cultural conta que, estando no papel de educadora e familiar, acha incrível viver os momentos com os grupos que visitam o projeto e perceber as relações que eles crivam com o espaço e como isso se relacionava com o ambiente. “Como familiar, era fascinante perceber como meu irmão ficava à vontade ao interagir em um espaço de criação com pessoas dispostas a ele” Para Fabiana, o ponto alto é observar o quanto um grupo se diverte enquanto faz uma visita ao espaço do museu.

Famílias

Camila Alves é psicóloga e coordenadora pedagógica do programa educativo e trabalha há quatro anos com arte e autismo. Ela lembra que o interesse surgiu a partir do encontro com o próprio público autista durante seus trabalhos artísticos no museu e da vontade de consolidar a programação educativa e cultural para essas pessoas e suas famílias. “A implementação foi realizada com muita pesquisa, estudos, parcerias com instituições e familiares de pessoas com autismo. No Programa educativo do Rio de Janeiro, a Semana de Conscientização do Autismo é realizada desde 2013 com mesas-redondas e programação tanto para conscientização de todos os públicos quanto para o atendimento a pessoas com autismo nas galerias, possibilitando a convivência e o acesso”, conta a educadora. Em Brasília, o projeto passou a fazer parte do centro cultural a partir de 2015.

A educadora enfatiza que o trabalho artístico é muito importante para possibilitar a experimentação e mostrar que os espaços culturais de uma cidade possam ser também pontos de relação, expressão e contato – consigo mesmo e com os outros. “Pensamos sempre em modos que sejam interessantes para as pessoas com autismo estarem no museu. Nos interessa que possamos atender a todas as idades, não somente as crianças. Contações de histórias, laboratórios de ações criativas, atividades de música e espaços de convivência. Tudo isso se torna uma possibilidade de trabalho. Nos interessa muito que essas pessoas e suas famílias se sintam acolhidas nos seus modos de expressão”, comenta Camila.

Atualmente, os quatro centro culturais (Brasília, RJ, SP e Belo Horizonte) trabalham para ampliar suas ações e receber um público cada vez maior de autistas e tantas outras especificidades. O espectro autista é amplo e mostra a ideia de suas infinitas possibilidades. Sendo assim, é importante considerar as particularidades de cada um com sensibilidade e parceria para criar e construir a partir do trabalho artístico.

O som da poesia

Dayanne Timóteo está lançando o audiolivro O som da poesia, criado especialmente com o objetivo de aproximar as pessoas com deficiência visual da literatura. Com isso, os ouvidos assumem a função dos olhos. Os poemas foram gravados com trilha sonora concebida para o projeto. O audiolivro será lançado hoje, às 16h, no Centro de Ensino Especial de Deficientes Visuais.


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