quinta-feira, 1 de junho de 2017

Ficar com rosto paralisado é mais comum do que se imagina. Saiba o que pode provocar a paralisia de Bell

Causas são desconhecidas em 75% dos casos; alguns pacientes podem ter sequelas

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Em 75% dos casos de paralisia, as causas são desconhecidas

Imagine acordar de manhã e perceber que metade do seu rosto está paralisado. A maioria das pessoas poderia pensar que se trata de sonho ou até mesmo de um AVC (acidente vascular cerebral), mas a condição é mais comum do que se pensa e pode acontecer com qualquer um. O vice-coordenador do departamento científico de doenças do neurônio motor da Academia Brasileira de Neurologia, Marco Antonio Chieia, explica que a paralisia de Bell é uma reação à inflamação no nervo facial. Em 75% dos casos, as causas são desconhecidas.

Na maioria dos casos, a paralisia não tem causa específica para se estabelecer de primeiro momento. A pessoa começa com dor ao redor da orelha, depois sente fraqueza na musculatura facial, não consegue mexer a boca nem fechar os olhos. Posteriormente, todo o movimento da mandíbula fica comprometido, fica difícil movimentar a sobrancelha, assoviar, beijar. Isso acontece de forma progressiva pouco antes da paralisia. O mais característico é a dificuldade de fechar o olho, deixando a córnea exposta.

O nervo facial percorre os ossos da região temporal e se distribui. É um nervo inicialmente motor, mas também ajuda na produção da lágrima, no controle da saliva e das papilas gustativas. E não tem relação com AVC, esclarece o neurologista.

A paralisia de Bell acomete apenas esse nervo facial e não tem nada a ver com AVC porque é localizado abaixo do encéfalo. Nestes casos, não há comprometimento do encéfalo nem do tronco cerebral. [No primeiro momento], o que diferencia as duas é a localização. A paralisia cerebral não acomete o andar superior da face — olhos e testa. Só prejudica a boca e a musculatura abaixo da boca.

De acordo com Chieia, a incidência é de 20 a 30 casos entre 100 mil, o que não é tão raro assim. Com um simples exame neurológico e uma inspeção já é possível fazer o diagnóstico.

É importante é saber a história da pessoa, fazer exames laboratoriais e pesquisar com tomografia, ressonância e exames mais aprimorados para saber possíveis causas. Em 20% dos casos, a causa é viral. O vírus herpes-zóster, que provoca catapora, por exemplo, pode afetar o nervo quando a imunidade está mais baixa.

A doença também pode estar ligada a outras enfermidades, explica o neurologista.

É bastante raro, mas a paralisia pode acontecer nos dois lados do rosto. Nestes casos, o tratamento é mais complexo porque a causa pode estar ligada à uma variante da síndrome de Guillain-Barré, ou mesmo leucemia, doenças reumatológicas, sarcoidose [doença autoimune] etc.

O uso de medicamentos imunossupressores e o consumo de drogas, assim como outras condições que abaixam a imunidade também pode ser gatilho para a doença. Chieia esclarece que a paralisia atinge as pessoas mais predispostas.

Mulheres na fase dos 20 aos 50 anos, que têm mais chances de desenvolver doenças neurológicas, mulheres na fase pós-gestacional, pessoas com doenças reumatológicas ou diabetes, pacientes que fazem quimioterapia etc. Ou seja, pessoas mais suscetíveis às infecções.

O que é bastante disseminado entre a população é relacionar estresse ou até mesmo choque térmico com a paralisia. Porém, o especialista esclarece que nenhum estudo científico comprovou que esses fatores provocam a doença.

A paralisia está relacionada à baixa imunidade e ao desequilíbrio neurológico, mas não está estabelecida relação com o estresse. O que se sabe é que o estresse também contribui para a perda de controle da imunidade, assim como outras causas. Também não existe estudo específico que comprove que choque térmico provoque paralisia.

O que a gente fala é da queda do equilíbrio imunológico e da perda da barreira protetora importante do nervo, o que facilita o aparecimento de qualquer virose, como uma simples gripe, por exemplo.

Dá para tratar, mas deve ser rápido
O tratamento para a paralisia de Bell é relativamente simples, mas deve ser feito o mais rápido possível para evitar possíveis sequelas aos pacientes, informa Chieia.

Em 90% dos casos, em até quatro semanas o paciente fica curado. Os médicos geralmente prescrevem corticoide para tratar a inflamação do nervo e reduzem a dose de forma progressiva. Se forem detectados vírus, deve-se fazer o tratamento contra esses microrganismos com drogas especificas.

Durante o tratamento, o paciente também pode utilizar medicamentos para aliviar sintomas consequentes da doença. Se o paciente não consegue fechar o olho ou parar de lacrimejar, por exemplo, os médicos prescrevem colírio específico para evitar úlcera de córnea ou mesmo pomada, explicou o neurologista.

No final de 1985, Ayrton Senna acordou com o lado direito do rosto paralisado. Em entrevistas na época, o piloto de Fórmula 1 relatou ter pensado que se tratava de um AVC a princípio. Com tratamento à base de medicamentos e massagens, ele se recuperou totalmente no ano seguinte.

Já a recomendação de exercícios de fisioterapia com estimulação elétrica, gera controvérsia entre os profissionais da área, pois não existe estudo que prove a eficácia desse tipo de terapia. No entanto, o tratamento não é contraindicado desde que seja associado aos medicamentos. Se o paciente não melhorar em até quatro semanas, é necessário intensificar o tratamento, informa o especialista.

É adequado fazer mais exames detalhados que vão mostrar se houve acometimento do nervo para avaliar a possibilidade de recuperação maior. Se não houver cura ou se o dano for muito intenso, o paciente pode ficar com sequelas.

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