quarta-feira, 7 de junho de 2017

Fora das ‘estações olímpicas’, cadeirantes sofrem com falta de acessibilidade

Na estação Sampaio, Pedro Luís depende da ajuda dos fiscais
Na estação Sampaio, Pedro Luís depende da ajuda dos fiscais Foto: Fábio Guimarães / Extra

Marina Navarro Lins

Pedro Luís Salles desceu do trem na estação Sampaio, no ramal Deodoro, na Zona Norte do Rio, na tarde do último dia 22. O primeiro desafio do vendedor de 39 anos, que é cadeirante, apareceu logo que ele atravessou a saída da plataforma: um lance de escadas com mais de 30 degraus. Foram precisos dois agentes da Supervia e um passageiro segurando a cadeira de rodas — e quase três minutos — para chegar ao patamar.

Mas não acabou por aí. Para sair da estação, é preciso subir o mesmo número de degraus. Sem rampas ou elevadores. Pedro se esgueirou para fora da cadeira e usou os braços para se arrastar pela escada suja e com cheiro de urina. Outro passageiro o ajudou com a cadeira.

Coordenados por Pedro, o deputado Carlos Minc (sem partido) e a vereadora Luciana Novaes (PT) fizeram uma vistoria nas 18 estações do ramal Deodoro e encontraram seis sem rampas, sete sem elevador e 16 com irregularidades no nivelamento entre o trem e a plataforma.

É vergonhoso ter que passar por isso, ser carregado no colo por outros passageiros. Só quero que garantam o meu direito de ir e vir — declara Pedro.

                        No segundo lance de escadas da estação Sampaio, Pedro teve que se arrastar
No segundo lance de escadas da estação Sampaio, Pedro teve que se arrastar Foto: Fábio Guimarães / Extra

A vistoria é uma iniciativa da comissão do "Cumpra-se", da Assembleia Legislativa do Rio, presidida por Minc. Na próxima sexta-feira (9), os dois parlamentares, um grupo de 40 cadeirantes e representantes do Procon farão uma ação na estação do Riachuelo para chamar a atenção para o problema. O levantamento também será encaminhado ao Ministério Público e à Agência Reguladora de Transportes do Estado do Rio (Agetransp).

Morador do Riachuelo há 25 anos, o vendedor Antônio José Rocha, de 61, sofre com dores no joelho esquerdo desde 2011, quando fez uma cirurgia. Para subir a escada da estação de trem do bairro, ele vai agarrado ao corrimão.

Vou com frequência à Central comprar peças e fico com medo de cair na escada. Muitos velhinhos reclamam. É uma falta de respeito com as pessoas — diz Antônio.

Antônio José Rocha, de 61 anos, tem dificuldade para sair da estação Riachuelo
Antônio José Rocha, de 61 anos, tem dificuldade para sair da estação Riachuelo Foto: Fábio Guimarães / Extra

Legado olímpico

Segundo Carlos Minc, as únicas estações que chegam perto de cumprir as leis de acessibilidade são a Maracanã, Engenho de Dentro e Deodoro. Mesmo assim, o elevador de Deodoro está quebrado e há desníveis na do Maracanã.

Só adaptaram as estações que foram deixadas como legado da Olimpíada porque o mundo todo estava olhando para o Rio. Pelo visto, os outros não tem os mesmos direitos. Sabemos que é possível fazer, mas parece que falta vontade — afirma Minc.

Estação Riachuelo, no ramal Deodoro, não tem rampas
Estação Riachuelo, no ramal Deodoro, não tem rampas Foto: Fábio Guimarães / Extra

Procurada para comentar a vistoria, a Supervia informou que o processo de modernização das estações faz parte do acordo de melhorias firmado com o governo do estado, com obras que foram iniciadas em 2012 e seguirão “de acordo com as prioridades avaliadas pela concessionária”. Segundo a empresa, as intervenções vão padronizar as plataformas, que recebem 17 tipos de trens, com alturas e larguras diferentes.

Ainda de acordo com a Supervia, seis estações tiveram, no ano passado, obras de revitalização para atender aos padrões internacionais de acessibilidade. No ramal Deodoro, foram a de São Cristóvão, a Olímpica de Engenho de Dentro e Deodoro. A concessionária acrescentou que a estação São Francisco Xavier recebeu plataformas elevatórias, e a de Madureira, elevadores, rampas e escadas rolantes.

Já a Agetransp informou que o plano de investimentos do contrato de concessão é acompanhado por por uma comissão mista, formada pela agência, pela Secretaria estadual de Transportes e pela Central. Segundo a agência, é aberto um processo regulatório e a Supervia pode ser penalizada quando são identificadas falhas de forma sistemática, como escadas rolantes quebradas.

                      Levantamento feito pelo deputado Carlos Minc

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