quinta-feira, 29 de junho de 2017

Os números da intolerância

Vivemos em um país multirracial e multicultural. Isso, por si só, deveria ser suficiente para nos fazer um povo mais aberto e evoluído.

Por Rafael Públio e Aline Morais da Santa Causa*

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Rafael Públio e Aline Morais da Santa Causa

Vivemos em um país multirracial e multicultural. Temos, em nossas raízes genéticas e culturais, a influência de diversos povos. Isso, por si só, deveria ser suficiente para nos fazer um povo mais aberto e evoluído, com uma predisposição natural para entender e valorizar a diversidade. Mas, na prática, não é isso o que acontece no Brasil, infelizmente.

O discurso de valorização da diversidade não é novo. Veio da luta de muitas minorias – que no Brasil são maioria – e ganhou destaque nos últimos tempos quando o mundo capitalista percebeu que respeitar e enaltecer a diferença não é só politicamente correto, mas pode ser também muito produtivo e consequentemente lucrativo para as empresas.

Apesar disso, ao escancararmos os dados, não precisamos nos aprofundar muito para perceber que o nosso país trata a diversidade com muito preconceito e desinteresse. Segundo a ex-consulesa francesa, escritora e militante dos direitos negros Alexandra Loras, o Brasil tem a segunda maior população negra do mundo, só perdendo para a Nigéria.

Mais da metade (54%) dos brasileiros se declaram negros, de acordo com o IBGE. Porém, é fato que não vemos essa proporção da população representada em programas de televisão, no Congresso ou ainda, no comando de grandes empresas (menos de 4,7% segundo pesquisa do Instituto Ethos). Mas o número em que eles são recordistas é no de vítimas de assassinato: do total de jovens vítimas de homicídio no Brasil, 77% são negros.

Entre esses jovens estão também as mulheres, que naturalmente nesse caso sofrem duplamente por conta do preconceito de gênero, marcante também em nosso território por conta de uma herança cultural machista. Uma pesquisa impressionante da Catho, publicada em março deste ano, revelou que a mulher ganha menos em todos os cargos que ocupa – em alguns, a diferença beira os 63%.

Como se ainda não fosse suficiente, conseguimos conquistar outra marca histórica: o ano de 2016 foi o recordista em violência contra pessoas LGBTs. Segundo o Grupo Gay da Bahia (GGB), foram 343 assassinatos, ou seja, a cada 25 horas uma pessoa homossexual foi morta, fazendo do Brasil o campeão mundial de crimes contra as minorias sexuais. O preconceito é um mal que prejudica o processo de inclusão social, intimida e limita a vida das pessoas, como um todo.

Atualmente, o país conta com uma série de políticas de cotas com o intuito de resgatar esses processos de exclusão históricos. Como é o caso das pessoas com deficiência, que gozam do direito de acesso ao trabalho por meio de uma legislação específica. No entanto, dos 31 milhões de pessoas com deficiência em idade produtiva, somente 400 mil estão empregados. Isso representa menos de 1% das vagas de trabalho disponíveis no país. Algumas empresas preferem pagar multa do que oferecer a oportunidade de trabalho para um profissional com deficiência.

O lado positivo é que, dessas mazelas, acabam surgindo esperança e força como o Movimento Think Olga que nasceu para batalhar pelo empoderamento das mulheres ou o trabalho realizado pelo Instituto Ethos que juntamente com outras organizações criou a Coalizão Empresarial para Equidade Racial e de Gênero para impulsionar a promoção da diversidade no mercado de trabalho, o Fórum de Empresas e Direitos LGBT e a Rede Empresarial de Inclusão Social ambas com missões similares mas a primeira com olhar para os direitos humanos LGBT e a segunda para a pessoa com deficiência.

São muitas as iniciativas que estão se consolidando com a proposta de envolver a sociedade nessas discussões com o intuito de diminuir o preconceito e batalhar por políticas públicas que garantam e protejam os direitos dessa parcela da população mais discriminada. Por isso, é preciso ficar claro que essa é uma luta da sociedade.

Você não precisa ser negro, não precisa ser homossexual, não precisa ser mulher, nem ter algum tipo de deficiência para lutar, vestir essa camisa e combater o preconceito. O preconceito prejudica, fere e vitimiza a todos nós. Não aceite atitudes discriminatórias no seu ambiente de trabalho, na escola, no parque, nem na sua casa. Mostre para as pessoas que o preconceito existe, mas ele pode ser combatido e cada um tem a sua parcela de responsabilidade nesse processo de transformação.

Queremos mudar esses recordes brasileiros. Esses números nos assustam, mas também nos motivam. Não queremos viver em um país recordista da intolerância. Essa atitude é o que nos move e nos faz levantar todos os dias e ir à luta. Essa vontade de mudar está em cada projeto, em cada palavra trocada com um amigo ou parceiro de trabalho. Está nas postagens das redes sociais e até no happy hour. Esse é o nosso propósito. Vem com a gente?

Santa Causa*
Rafael Públio é publicitário, com MBA em Gestão Pública, e Aline Morais é jornalista, especializada em Gestão para o Terceiro Setor. Esse encontro profissional começou com a criação da primeira Secretaria para a Pessoa com Deficiência do Brasil. De lá para cá, cada um acumula mais de 10 anos de experiência atuando em políticas públicas inclusivas e direitos humanos. Atualmente, são sócios da Santa Causa, empresa criada para transformar ideias do bem em projetos.

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