domingo, 4 de junho de 2017

Pessoa com deficiência vive revolução do acesso ao sexo e ao direito de ter menino

por Jairo Marques

A atriz e consultora Tabata Contri, que recentemente teve o primeiro filho, Francisco Imagem de Di Monique Novaes/Divulgação

Uma amiga que teve paralisa cerebral, com importante grau de comprometimento, anunciou em uma rede social –e chocou parte de seu mundo– que está grávida, feliz e realizada. Um querido casal, ambos com esclerose múltipla, celebra meio ano da chegada do rebento Francisco e tenta driblar com leveza os obstáculos que os outros querem enxergar na nova realidade deles.

Por todo canto, tenho observado o povo prejudicado das partes ou dos sentidos abrindo caminhos para a formação justa e necessária de famílias “malacabadas”. São mulheres barrigudas em cadeiras de rodas, pais meio capengas quebrando a cabeça para arrumar soluções de proteger suas crias. Vive-se hoje uma revolução do acesso ao direito de ter menino.

Até há pouquíssimo tempo, sexo e deficiência era combinação que beirava o esdrúxulo, o improvável. Daí a pensar que essa gente pudesse gerar filhos era sandice, caso de internação compulsória. Esse demérito vinha basicamente da exclusão social, alidada a uma forma errônea de ver cegos, surdos e tortinhos em geral como seres dignos de dó ou aptos a receberem extrema caridade apenas.

Quando parte da sociedade começou a encarar a diversidade humana como característica de vida e somente isso, foi possível para milhares de pessoas sair das catacumbas do isolamento forçado e conquistar espaço na rua, nas escolas, no trabalho, em camas de motel e em corações.

Com o poder de “ser igual que nem gente” em mãos, os quebrados apareceram nas baladas, levaram para jantar a namorada, passaram a pensar seriamente em ter gato, cachorro e filharada.

Com credenciais de anão, zarolho, amputado ou lascado das partes, garanto que é bem menos custoso arranjar uma boa transa e abrir passagem para a conquista de um parceiro de “vida toda” do que conseguir reconhecimento público de que nenhuma característica física ou dos sentidos irá determinar potenciais, inclusive o de botar criança no mundo e saber zelar por ela.

Não vou escrever aqui que é fácil, de boa, lidar com minha biscoita Elis, que veio calibrada para deixar o pai cadeirante em polvorosa durante tarefas simples como escovar os dentes, mas sinto-me plenamente pai mesmo entre uma porção de creme dental espalhada por nossos rostos ou com a escova de dente se tornando aviãozinho.

Não raro, além da decisão de subverter as ditas impossibilidades de viver para ter a “audácia” de gerar novas vidas, pessoas com deficiência precisam assimilar críticas sobre o suposto impacto de transmitir sua condição para futuras gerações, em caso de herança genética.

Penso que cabe, sim, uma discussão social madura em relação ao tema, embora a palavra final tenha de ser dada pelo casal ou pelos indivíduos que resolvam ter filhos com possíveis suscetibilidades de repetirem uma condição de deficiência. O que não avalio como pertinente são sentenças ou avaliações baseadas em preconceito, suposições ou simulações de fatalidades, sofrimentos.

Cada caso tem suas particularidades, cada família tem seu preparo de receber, amar e criar seus filhos. Entender a diversidade como condição ajuda a não examinar a realização dos outros com base em fracassos e limitações próprias. Um viva à novíssima geração da resistência à perfeição.

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