quinta-feira, 29 de junho de 2017

Preferências por crianças brancas e sem deficiência dificultam adoção no Amapá

Bebês de até 1 ano são outro fator que lidera a exigência de famílias que desejam adotar. Estado tem 56 crianças e adolescentes disponíveis para 190 pretendentes em espera.

Por G1 AP*, Macapá

Crianças brancas e sem deficiência são as mais procuradas para adoção (Foto: Reprodução/Rede Amazônica)
Crianças brancas e sem deficiência são as mais procuradas para adoção (Foto: Reprodução/Rede Amazônica)

Tanto no Amapá, quanto no Brasil como um todo, o número de famílias que desejam adotar é maior do que a quantidade de crianças ou adolescentes disponíveis, segundo o judiciário no estado. Entre os principais fatores que contribuem para o impasse da adoção estão a preferência por brancos, bebês com até 1 ano, e com ou sem irmãos, além da procura por crianças sem deficiência.

No Amapá, 56 crianças e adolescentes estão disponíveis para 190 famílias cadastradas como pretendentes, de acordo com o Cadastro Nacional de Adoção. No país, são mais de 7 mil crianças disponíveis para adoção, e quase 40 mil famílias que desejam adotar.

Nos estados da Região Norte, o Amapá aparece em terceiro no número de pessoas disponíveis para adoção. O Pará lidera o número de crianças em abrigos com 95 para 318 pais interessados, seguido por Rondônia,com 62 para 302, Amazonas, 47 para 124, Tocantis, com 43 para 174, Acre, com 9 para 212, e Roraima, é o que tem menos pessoas para adoção, com 4 crianças para 53 pretendentes.

Juíza Larissa Noronha diz que pretendentes têm perfi fechado (Foto: Reprodução/Rede Amazônica)
Juíza Larissa Noronha diz que pretendentes têm perfi fechado (Foto: Reprodução/Rede Amazônica)

Para a juíza Larissa Noronha, do Amapá, a maioria dos perfis das crianças e adolescentes não atende à exigência dos interessados por adoção. Ela conta que a idade mais procurada é de até um ano.

“A maioria das nossas crianças disponíveis têm mais de 7 anos, algumas estão em grupos de irmãos, ou têm alguma necessidade especial, algumas mais leves ou mais importante, ou são adolescentes. A conta não vem fechando porque a maioria dos nossos pretendentes ainda tem o perfil muito fechado de querer um recém-nascido, criança de até 1 ano, de cor branca ou parda”, reforçou.

A magistrada disse que visita os abrigos e é questionada pelas próprias crianças sobre os processos em andamento.

“São crianças normais, que esperam um carinho, um abraço, um afeto e esperam, sim, uma família. Quando a gente vai lá conversar [no abrigo], eles sempre perguntam: 'tia, achou uma família pra mim? uma mãe?' Então eles esperam sim”, disse a juíza.

Psicóloga Lídia Weber afirma que perfis não são erros (Foto: Reprodução/Rede Amazônica)
Psicóloga Lídia Weber afirma que perfis não são erros (Foto: Reprodução/Rede Amazônica)

Para a psicóloga Lídia Weber, não é um erro os pretendentes terem preferências. A especialista ressalta que muitos pais buscam crianças mais parecidas com as famílias. Por isso, é realizada uma preparação para os interessados.

“Por um lado é preconceito, e, por outro, não podemos culpar só os adotantes, pois eles precisam ser preparados. Quando alguém pensa pela primeira vez em adoção, pensa em um bebê parecido com eles. Isso não é um crime, é um desejo. Mas os adotantes precisam entender que um desejo não é um direito. O direito é da criança que já está esperando. Preparar, conscientizar faz com que os adotantes mudem a sua opção”, finalizou.

Adoção na Região Norte

ESTADO CRIANÇAS PRETENDENTES
PARÁ 95 318
RONDÔNIA 62 302
AMAZONAS 47 124
AMAPÁ 56 190
TOCANTINS 43 174
ACRE 9 212
RORAIMA 4 53

Fonte: Cadastro Nacional de Adoção

O Brasil possui 19,7% de famílias que querem adotar, mas buscam por meninos ou meninas brancos. Contudo, 66,1% das crianças disponíveis para a adoção são negras. Outro dado que exclui é quanto a saúde: cerca de 6% das famílias querem crianças saudáveis, mas 25,3% delas têm alguma doença ou deficiência.

O casal Judite Sandra Lima e Rúbia Braga adotou a pequena Bia, de apenas 3 anos, que é deficiente visual. Residentes em Macapá, as mulheres já tinham duas filhas, a Bruna, de 21 anos, e a Ana Clara, de 10, mas acreditaram que ainda tinham amor para outra criança.

“Logo no início eu fiquei preocupada, a gente fica com um certo medo. Mas depois acaba totalmente o medo, a gente passa a ter tanto amor por aquela criança. Só o fato de fazê-la feliz e se sentir mãe da criança é maravilhoso”, falou Judite.

Judite Santa Lima e Rúbia Braga adotaram Bia, deficiente visual (de vestido rosa) (Foto: Reprodução/Rede Amazônica)
Judite Santa Lima e Rúbia Braga adotaram Bia, deficiente visual (de vestido rosa) (Foto: Reprodução/Rede Amazônica)

As duas mães conheceram a caçula da família no abrigo quando ela ainda tinha 1 ano. Elas contam que Bia nasceu cega e desde muito cedo enfrentava diversos problemas de saúde, mas, acima de todas as dificuldades, a menina se dedica aos estudos.

“É tudo maravilhoso para mim. Apesar da bagunça, tendo criança em casa, é sempre mais alegre. Nós temos aquela preocupação com escola, no caso da Bia, que é especial, a deficiência dela não atrapalha em nada”, finalizou.
*Com informações da Rede Amazônica no Amapá.

Amapá tem 56 crianças e adolescentes disponíveis para adoção (Foto: Reprodução/Rede Amazônica)
Amapá tem 56 crianças e adolescentes disponíveis para adoção (Foto: Reprodução/Rede Amazônica)

Fonte: g1.globo.com

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