sábado, 8 de julho de 2017

Andrew Parsons: "O esporte muda a percepção da sociedade em relação às pessoas com deficiência"

O presidente do Comitê Paralímpico Brasileiro (CPB) fala sobre o trabalho que vem sendo feito com atletas paralímpicos e como isso fortalece o movimento por mais acessibilidade e menos preconceito

Estúdio Globo (Publieditoria)

Andrew Parsons: o gestor à frente do Movimento Paralímpico, que vem projetando o Brasil no mundo (Foto: Guto Gonçalves/Estúdio13)
Andrew Parsons: o gestor à frente do Movimento Paralímpico, que vem projetando o Brasil no mundo (Foto: Guto Gonçalves/Estúdio13)

O fluminense Andrew Parsons começou no Comitê Paralímpico Brasileiro (CPB) em 1997, como estagiário de jornalismo. Entre 2001 e 2008, foi secretário-geral da entidade e, a partir de 2005, acumulou a presidência do Comitê Paralímpico das Américas. Em 2009, passou ao comando máximo do CPB e foi reeleito quatro anos depois, por aclamação. Sob sua gestão, o Brasil saltou do 9o lugar no quadro geral da Paralimpíada de Pequim (2008), com 16 medalhas de ouro, para o 7o nos Jogos de Londres (2012), com 21 ouros.

Seu trabalho é reconhecido como modelo de gestão esportiva. Junto com sua equipe, ele levou conhecimento técnico e encabeçou iniciativas que projetaram o esporte paralímpico brasileiro no mundo, conseguindo com isso também transformá-lo em eficaz ferramenta de inclusão e aceitação das pessoas com deficiência. A seguir, Parsons fala do funcionamento do CPB, do atual momento paralímpico, do legado dos Jogos no Rio de Janeiro e como tudo isso contribui para que a sociedade repense a relação com pessoas com deficiência.

Qual é o papel do Comitê Paralímpico Brasileiro?

O CPB é a entidade que rege o desporto paralímpico no Brasil, buscando a promoção e o desenvolvimento do esporte de alto rendimento para pessoas com deficiência. Como presidente, lidero a organização no sentido de preparar os atletas - cuidando desde a base, com a formação de novos talentos, até a etapa do alto rendimento - e promover o desenvolvimento das modalidades paralímpicas no Brasil em conjunto com as respectivas confederações. Organizamos a participação do país em disputas continentais, mundiais e jogos paralímpicos e ainda desempenhamos a função de confederação, gerenciando o calendário de competições de cinco modalidades - atletismo, natação, halterofilismo, esgrima em cadeira de rodas e tiro esportivo.

Alan Fonteles: atleta paralímpico descoberto na infância em um programa do CPB  (Foto: Alexandre Battibugli)
Alan Fonteles: atleta paralímpico descoberto na infância em um programa do CPB (Foto: Alexandre Battibugli)

Como se constrói um atleta paralímpico?

A partir do momento que a pessoa se acidenta e fica com uma deficiência ou nasce com uma deficiência e toma consciência dela - geralmente acontece quando a criança vai para a escola e vê que seus colegas não têm as mesmas características que ela -, o caminho é buscar um centro para habilitação ou reabilitação. Tudo começa nesses centros que, em parceria com clubes e associações de pessoas com deficiência, promovem o incentivo ao esporte. E o CPB tem sistemas que ajudam a identificar jovens talentos, como as Paralimpíadas Escolares, maior evento esportivo para atletas com deficiência em idade escolar (12 a 17 anos). Nossa primeira edição foi realizada em 2006 e revelou o velocista Alan Fonteles, do Pará, por exemplo. Procuramos trazer esses atletas para nossos programas, dando estrutura para que se desenvolvam e cheguem a uma delegação paralímpica.

É esse trabalho que vem garantindo bons resultados para o Brasil nos Jogos Paralímpicos?

Sim. Saímos da 37a colocação no ranking paralímpico em Atlanta (1996) para a 7a em Londres (2012). Ao longo desses 16 anos, buscamos novos talentos, conseguimos dar melhor estrutura aos atletas, desenvolvemos um modelo de trabalho em parceria com as confederações, construímos delegações mais fortes. O 7o lugar em Londres foi planejado lá atrás, em 2009. No Rio, nosso objetivo é a 5a colocação. É uma meta ambiciosa. Para atingi-la, teremos que ultrapassar Austrália e Estados Unidos, duas potências paralímpicas. Mas estou certo de que o Brasil entra na disputa em condições de enfrentar esses países.

Um dia o Brasil chega ao topo?

Vamos dar um passo de cada vez. O objetivo agora é o 5o lugar no Rio, o que será um resultado extraordinário se alcançado. O Brasil hoje é uma nação paralímpica, estamos entre as grandes. Mas considero que existem duas superpotências paralímpicas: China e Rússia. E serão necessárias algumas décadas para chegarmos ao patamar delas, pelo nível de investimento e estrutura que já possuem. Atingir o topo leva tempo, mas temos condições de chegar lá.

"Se você olhar para o que uma pessoa pode fazer em vez do que ela não consegue fazer, a perspectiva muda e perde-se a visão de coitadinho"
ANDREW PARSONS

Quais as modalidades com maiores chances de medalhas para o país?

O Brasil participará das 22 modalidades do programa paralímpico, até mesmo das novas - rúgbi em cadeira de rodas, triatlo e canoagem. Mas as que já temos tradição de conquistas em campeonatos mundiais são atletismo, natação, futebol de 5 (com atletas com deficiência visual), judô e bocha. É nessas que estamos confiantes para o maior número de medalhas de ouro, para assim chegarmos ao 5o lugar no ranking geral. Já há algum tempo o Brasil vem se destacando na natação e no atletismo, que são esportes em que qualquer país que tenha metas ambiciosas em relação à conquista de medalhas - como nós temos - tem que investir. E nós investimos. Além de atletas multimedalhistas, nosso conjunto nas duas modalidades tem muita força.

Centro de Treinamento Paralímpico, em São Paulo: legado que contribui para o desenvolvimento de nossos atletas (Foto: Alexandre Schneider/GettyImages)
Centro de Treinamento Paralímpico, em São Paulo: legado que contribui para o desenvolvimento de nossos atletas (Foto: Alexandre Schneider/GettyImages)

Que legados os Jogos Paralímpicos deixarão para o Brasil?

O Centro de Treinamento Paralímpico, em São Paulo, é um deles. Principal centro de excelência do Brasil e da América Latina e um dos melhores do mundo para alto rendimento, ele conta com instalações esportivas que servem para treinamentos, competições e intercâmbio de atletas e seleções em 15 modalidades paralímpicas: atletismo, basquete, esgrima, rúgbi e tênis em cadeira de rodas, bocha, natação, futebol de 5 (para cegos), futebol de 7 (para paralisados cerebrais), goalball, halterofilismo, judô, tênis de mesa, triatlo e vôlei sentado. E um legado intangível, muito importante para nós, é a mudança de percepção da sociedade em relação às pessoas com deficiência. Quanto mais nossos atletas apresentam resultados expressivos, mais vamos sendo convencidos do potencial das pessoas com deficiência. Ninguém precisa enaltecer as habilidades do atleta paralímpico, é possível vivenciar isso por meio das competições. Isso ajuda a colocar em perspectiva que uma pessoa com deficiência pode ser um grande profissional da minha equipe, um grande colega de trabalho, um grande amigo, um chefe de família, alguém do meu convívio familiar e social.

Nenhum comentário: