sábado, 29 de julho de 2017

Autismo é capa de Veja. E daí?

10 anos e parece que pouca coisa mudou na forma como a mídia trata o autismo.

10 anos e parece que pouca coisa mudou na forma como a mídia trata o autismo.

                        
Por Rita Louzeiro*

A revista Veja desta semana trouxe, como matéria de capa, o autismo. Toda vez que a grande mídia toca no assunto há um misto de entusiasmo e ansiedade na comunidade autista: o entusiasmo por ver a questão sendo trazida ao grande público com o medo da abordagem que será feita, se trará algo novo ou se somente irá requentar velhos estereótipos.

A falada reportagem da Veja sobre autismo esqueceu um ponto básico e importante: “nada sobre nós sem nós!”. Em suas muitas páginas não há autistas falando sobre autismo. Daí decorre um efeito dominó: a definição vem de pais/mães e psiquiatras. Nisso, obviamente, o autismo é chamado de doença (pelo psiquiatra) e não há uma vírgula sobre nerodiversidade, capacitismo, stims.

Fala-se em 2 milhões de autistas no Brasil, presumem-se 3 milhões, sem citar a fonte desses números. As fotos e exemplos trazidos são todos de meninos brancos. Não foi visto nenhum autista não branco na matéria. Este padrão vem interferindo e até mesmo impedindo o diagnóstico de autista de raça, gênero, classe e faixa etária distintos do padrão “capa de revista”. Evidentemente, esta questão sequer foi mencionada na matéria. A única autista mulher é Temple Gradin.

Não é ao acaso que a capa da Veja dessa semana repete a capa da Revista Época de 2007 (10 anos atrás!): um menino branco e uma chamada falando em um novo olhar/novo mundo do autismo.

A matéria também tem suas qualidades. Ponto positivo por trazer um bom histórico, claramente apoiado no livro recém lançado “Outra Sintonia” e por citar o referido livro. Ponto positivo também por citarem as consequências das fraudes envolvendo médicos e cientistas ao longo da história. Ponto positivo por citarem como escolas usam de estratégias desonestas para barrar alunos autistas. Há alguns poucos anos, não tínhamos esse tipo de informação sendo veiculada na mídia de massa.

Porém, ainda é muito pouco diante de tudo que temos que avançar. É lamentável que um psiquiatra tenha espaço para falar sobre autismo, e ainda chamar de doença, numa matéria na qual nenhum autista fala por si mesmo e não se diz absolutamente nada sobre o movimento da neurodiversidade que muito tem avançado.

Lamentável porque é uma revista que alcança uma boa parte da população, pessoas passam a tratar os temas com certa familiaridade e elas irão reproduzir a visão do autismo como um grande enigma, um mistério que deve ser desvendado e controlado.

Sei que há ativistas na linha “melhor falar alguma coisa do que não falar nada” ou “pelo menos está divulgando o autismo” e entendo e reconheço os avanços com relação a isso. Mas já está mais que na hora da começar a mudar o foco do modelo médico para o modelo social e de direitos humanos quando resolve falar sobre condições neurodiversas como o autismo. Menos pais falando de amor e aceitação e mais pais que lutam para conseguir direitos básicos para seus filhos. Menos diversos meninos brancos e mais autistas diversos, de diversas idades, gêneros, raças e classe sociais.

Precisamos de uma vez por todas entender que não ter autistas falando sobre autismo é um absurdo comparável a ter uma matéria sobre direitos das mulheres em que só homens falam sobre o tema ou uma matéria sobre racismo em que somente pessoas brancas tem voz. É inadmissível e não há outro nome para definir isso a não ser capacitismo.

*Rita Louzeiro é ativista pela neurodiversidade.

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