domingo, 30 de julho de 2017

“Disseram que o meu filho era normal e saí da maternidade sem orientação” - Veja o vídeo.

Tauana Camargo, de 27 anos, é mãe de Davi, que tem paralisia cerebral e epilepsia. Ela reclama de maus-tratos e falta de transparência na Maternidade Interlagos, onde o filho nasceu, em São Paulo

TAUANA CAMARGO, EM DEPOIMENTO A GABRIELA VARELLA

Foto: Julia Rodrigues/ÉPOCA
Tauana Camargo,desempregada e mãe de David,2 anos  (Foto:  Julia Rodrigues/ÉPOCA)
“O Davi já chegou a ter uma parada cardíaca no meu colo. Quando o bombeiro chegou, ele me disse que admirava a calma que tive para socorrê-lo”

“Quando descobri a gravidez, a minha pressão estava um pouco mais elevada que o normal. Fiz acompanhamento com a ginecologista e tudo ia bem com os exames. Entrei em trabalho de parto e, quando fui escutar o coração do meu filho, o batimento do Davi já estava fraco. Mesmo com três dedos de dilatação, fui internada. Descia muito sangue pelas pernas, mas o médico disse que eu não precisava me preocupar.

Fui para o pré-parto com o pai do Davi como acompanhante, o Thiago, e fui colocada no soro com ocitocina para ajudar a dilatar mais rápido. O banho teve menos de cinco minutos, e falaram para ir rápido, porque não tinha toda a água do mundo para mim. Pedi a bola ou algo disponível para dar uma melhorada na dor, mas me disseram para ficar quieta no leito. Cada hora aparecia um médico com um diagnóstico diferente. Com um dedo diferente, uma mão diferente. Em alguns momentos eu tinha cinco dedos de dilatação, outros tinha quatro. Ora o Davi estava encaixado, ora estava lá em cima. A minha pressão subiu e senti falta de ar, reclamei de dor de estômago. Falaram que era frescura minha, que isso era a dor do parto e, se fiz o filho, tinha de aguentar.

A enfermeira mandou descer da maca e fazer força agachada. Ela disse que, por minha culpa, o Davi estava subindo para o meu estômago. Não havia maca, então me levaram andando para a única sala de parto disponível. Quando cheguei lá, ainda estavam terminando de limpar e a médica pediu que eu segurasse a contração – não sei até hoje como fazer isso.

A enfermeira subia em cima de mim e empurrava a minha barriga com os dois braços. Fiquei com vários hematomas. Disseram que o Davi estava atravessado, que era necessário fazer uma cesárea de emergência. Tiraram o Thiago da sala. Tomei várias picadas nas costas e não vi mais nada. Quando eu acordei, já estavam costurando. Fui para o quarto, perguntei do meu filho e só me falaram que ele estava na UTl, que eu poderia vê-lo no outro dia. Passei a noite inteira em claro.

Quando cheguei na UTI, vi que o Davi era um bebê enorme, de quase 4 quilos. Ele tinha sido entubado, então ainda não tinha comido. Tentei dar leite no copinho, na seringa… Nada. Ele engolia e engasgava. Colocaram sonda nasogástrica nele. No outro dia, cheguei para visitá-lo e ele estava com as duas mãos enfaixadas e com a sonda do outro lado do nariz. A médica me disse que ele tinha arrancado a sonda, e que deveria ficaria amarrado por conta disso.

Quando o meu filho conseguiu engolir a primeira vez, ele deu umas engasgadas muito fortes. Eu não entendia, mas falavam que era normal. Alguns dias depois, tiraram a sonda nasal e viemos para casa.

 
Eu criei meu sobrinho, o Gabriel, então eu sabia que tinha alguma coisa errada. Foram noites sem dormir. O Davi começou a convulsionar em casa, mas eu não reconhecia os sintomas, porque ele não espuma pela boca. Na primeira consulta no posto de saúde, a médica falou que as tremedeiras que ele tinha não eram normais. Descobrimos que era epilepsia. Com um encaminhamento do posto, consegui passar na neurologista da Maternidade Interlagos. De cara, a médica pensou que fosse um erro ligado à genética, por falta de um encaminhamento do hospital.

Fizeram todos os exames e não deu nada. Foi aí que soube que ele tem paralisia cerebral. Fiquei indignada por ter saído da maternidade sem orientação e por dizerem que o meu filho era normal. O Davi não olhava para nós, não sorria, não tinha expressão nem prestava atenção em nada, em nenhum barulho ou brinquedo.

Eu já havia brigado pelo prontuário médico do Davi, e a Maternidade Interlagos disse que havia perdido o papel do meu pedido. Após o diagnóstico da paralisia cerebral, fui novamente ao hospital e briguei com a assistente social, cerca de sete meses depois. Falei que não sairia de lá sem o documento e ameacei chamar a polícia. Peguei o prontuário, levei na neurologista e ela descobriu que o meu filho tinha tomado gardenal na maternidade, tinha convulsionado e que o certo seria eu ter saído com um encaminhamento para tratá-lo.

Foram muitas internações, muitos exames. O Davi tem asma e disfagia (dificuldade em deglutir). As coisas começaram a apertar, ele precisou tomar muitas medicações. Criei uma página no Facebook para receber doações e pagar as fisioterapias respiratória e motora, que são custeadas por uma doadora. Se eu deixasse com o SUS, provavelmente ele já estaria atrofiado. É uma luta constante, não consegui quase nada pelo governo. Dei entrada na Secretaria da Saúde para pedir o leite específico da dieta dele (Davi tem intolerância à comida caseira) e só liberaram dez latas, mesmo que ele se alimente de 30 em um mês.

Em média, gasto R$ 2.600 por mês. Fora que pago aluguel, contas de água e luz. Cada mês a gente dá um jeito, eu pego roupa para passar, faço um doce para vender, uma faxina. Hoje, por exemplo, é um dos dias em que estou desesperada. Só tem mais uma lata de leite e estou tentando vender tudo para alimentá-lo. Para mantê-lo vivo, eu dou um jeito. Marco consultas em diversos lugares, porque muitos médicos eu só consegui por meio de pessoas comovidas com a situação. É ‘humilhante’, porque é um direito do meu filho e ele não consegue ter acesso. O que me ampara são essas pessoas, que são anjos sem asa. Deus me deu o Davi de presente e me ajudam a mantê-lo vivo.

Aquela maternidade errou desde o parto, pela violência comigo, e depois ainda me deram alta sem encaminhamento. Talvez se ele não tivesse convulsionado tanto em casa, ele não teria tantas sequelas graves. A epilepsia destrói, a cada convulsão, milhares de neurônios na cabeça da criança. As consequências continuam aparecendo. Ele adoece com facilidade por conta da imunidade baixa, já fez três cirurgias e ainda vai fazer mais. Ontem ele teve uma crise de convulsão, mas foi pequena. Hoje ele ainda não teve. Vivemos um dia de cada vez, rezando para não acontecer.

Com o meu filho eu não tenho a opção de dar um banho quando está com febre, um remédio e ir para o hospital. Ou eu vou rápido ou ele convulsiona e tem parada cardíaca. Aprendi a aspirá-lo para que ele não engasgue com a própria saliva, mas as crises respiratórias acontecem do nada. Corro para o posto, chamo a ambulância ou os bombeiros. Ele já chegou a ter uma parada cardíaca no meu colo. Quando o bombeiro chegou, ele me disse que admirava a calma que tive para socorrê-lo.

Esperei uma gravidez, um filho normal. Passei da vida para o luto. Aquela criança que planejei, que corre, anda, vai à escola, ela não existe. Ganhei uma outra criança, uma vida totalmente diferente. Tive de largar tudo, a faculdade, o emprego. Aprendi a ser mãe dele, que é uma pessoa maravilhosa. Eu não me importo de não ter as coisas para mim, desde que o meu filho tenha o que precisa. Do Davi, eu corri atrás de tudo desde quando nasceu. Eu, nem pós-parto fiz. Recentemente, fui fazer um ultrassom e descobri um tumor no ovário e no útero.

Todos os médicos falam que o Davi é um milagre, porque ele não desiste de viver. Ele vê as crianças correndo e fica batendo as perninhas. Levo ele na piscina com as crianças, sento com ele. O Davi já é privado de tanta coisa, como não vou deixá-lo brincar? A gente tenta fazer o máximo para ele viver bem. Não sei quanto tempo tenho com o meu filho. Cada dia é uma surpresa.”

O outro lado
Em nota, a Secretaria da Saúde do Estado de São Paulo encaminhou um posicionamento do Hospital Maternidade Interlagos sobre o caso de Tauana: “O recém-nascido de Tauana foi devidamente assistido pela equipe da UTI Neonatal e acompanhado equipe multiprofissional, incluindo neurologista pediátrico no ambulatório do hospital, por um período de dois anos, paralelamente aos tratamentos rotineiros da atenção básica. Todos os encaminhamentos para a atendimento especializado devem partir da atenção básica. O prontuário foi entregue em menos de um mês, em 12 de março de 2015”.

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