sábado, 15 de julho de 2017

Em torneio da Fterj, cadeirantes voltam neste sábado ao Parque Olímpico

POR GUSTAVO LOIO

Paulo Emílio, à esquerda, e Vinicius Pontes
Paulo Emílio, à esquerda, e Vinicius Pontes | Gustavo Loio

'Tenho que lutar contra minha própria deficiência para praticar o esporte'. A frase, dita pelo fuzileiro naval reformado Vinicius Pontes, é um retrato de sua paixão e de sua dedicação ao tênis paralímpico. Afinal, um acidente de moto, em 2003, o fez perder os movimentos das pernas e, parcialmente, os do braço direito.

- Eu era destro e fui fazer minha reabilitação no Sara (em Brasília, em 2004), onde tinha uma série de atividades. Uma delas era o tênis de mesa. Falei com o professor na época que não dava para praticar, porque eu era destro. Aí ele disse: 'aqui não tem isso, você tem que treinar'. Comecei a treinar, e na segunda semana já estava difícil de me ganharem - conta Vinicius, que, neste sábado, disputará o 1º Torneio de Cadeirantes, organizado pela Federação de Tênis do Estado do Rio, no Parque Olímpico da Barra. Outras duas atrações do evento serão um aulão para alunos de colégios públicos da região e um torneio de classes.

Com o primeiro contato com o esporte paralímpico, Pontes passou a saborear diversas conquistas inimagináveis para ele até então, após o acidente:

- Foi algo extraordinário fazer simples gestos com a canhota, como jogar um papel numa lixeira, porque o tênis de mesa já me dava a condição de reaprender a viver. Talvez as pessoas não consigam observar o que o esporte traz. Além da parte física, o social, é tudo uma gama de coisas positivas, que às vezes as pessoas não conseguem perceber. Você, recém-lesionado, pode achar que a vida não dá mais, aí começa a interagir e vê que pode. Daqui a pouco, você, que achava que não conseguiria se motivar, acaba motivando, também os outros.

Após o período de reabilitação, Vinicius fui para o rúgbi e, em seguida, para o tênis:

- O tênis é um esporte que tem essa facilidade de integração, de mesclar um andante com o cadeirante, posso treinar com minha esposa, com um amigo.
Quarto colocado no Brasil na categoria quad, para atletas com comprometimentos em três membros, Vinicius espera que o torneio que começa neste sábado seja o ponto de partida para um maior investimento na modalidade no Rio.

- Comecei no tênis paralímpico em um projeto na Uerj, que acabou por falta de apoio e ficamos sem lugar para treinar. Enquanto em outros estados há projetos sociais para os cadeirantes, hoje, mesmo em quarto na minha categoria, preciso pagar para treinar - conta o tenista.


Observado por Paulo Emílio, Vinicius Pontes devolve a bola na quadra central do Parque Olímpico
Observado por Paulo Emílio, Vinicius Pontes devolve a bola na quadra central do Parque Olímpico | Gustavo Loio

E os desafios para um atleta cadeirante que joga tênis não são pequenos:

- A cadeira para treinar é diferente, você tem que ter todo um material específico, que não é barato, o acesso, às vezes, é muito ruim, nem todos conseguem treinar. Por isso que tem muito cadeirante que, além do problema do deslocamento, tem dificuldade de comprar o material.

Na relação de Vinicius com o tênis paralímpico, o médico José Carlos Morais, precursor da modalidade no país, teve um papel bastante importante.

- Como no Rio ele sempre teve ligado a este tipo de inclusão. Ele disponibilizou cadeiras, material.

O fuzileiro naval reformado espera que o torneio no Parque Olímpico seja o ponto de partida para mais ações voltadas aos cadeirantes no estado do Rio:
- Fico feliz por participar e, também, por saber que a Federação vai apoiar projetos para a nossa modalidade - conta.

Parceiro de treino de Vinicius, o coronel reformado do Exército Paulo Emílio Silva também vai jogar o torneio no Parque Olímpico.

- Tenho 22 anos na cadeira de rodas, foi meu segundo esporte, após a natação. Levei um tiro em 1995, fiquei paraplégico e após a natação, comecei a jogar tênis, que já jogava em pé. Sai um tempo e fui para o tiro com arco e depois voltei para o tênis.

Tal como Vinicius, Paulo é grato ao amigo Morais:

- O projeto dele, o Cadeiras na Quadra, em Niterói, é muito importante, porque foi o primeiro que surgiu para trazer crianças deficientes para a quadra.

O coronel do Exército também elogia a iniciativa da Fterj:

- Esta parceria com a federação é muito importante, pq vai propiciar o que não temos, pois vai oferecer quadra, cadeira, que não é a cadeira do dia a dia, é um ponto entre a cadeira de basquete e a normal. Se a federação nos apoiar, vamos trazer os cadeirantes para cá. No Rio estávamos órfãos e esta iniciativa do presidente da Fterj é muito bem-vinda - elogiou.

Presidente da federação, Renato Cito é outro a destacar a importância de Morais:

- Ele é nosso conselheiro estatutário, um amigo que aprendi a admirar. A primeira vez que o vi foi num torneio no Itaquá Soccer, torneio que ele faz em parceria com a ITF. Senti um ótimo clima, alto astral entre os jogadores. Nossa aproximação foi natural. Ele viu que a federação não veio para enganar ninguém, nem pra fazer pose, teatro. Falei para ele: vamos fazer um calendário, vamos buscar os cadeirantes.

PROGRAMAÇÃO. Para ver toda a programação do evento no Parque Olímpico, clique AQUI.


Alexandre Katz, diretor técnico da Fterj, Paulo Emílio, Renato Cito, presidente da entidade, e Vinicius Pontes
Alexandre Katz, diretor técnico da Fterj, Paulo Emílio, Renato Cito, presidente da entidade, e Vinicius Pontes | Gustavo Loio

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