segunda-feira, 31 de julho de 2017

Estudo da Unicamp traça novos parâmetros de crescimento de crianças e jovens brasileiros com Down

Curva brasileira de referência usada pelo Ministério da Saúde contempla apenas indivíduos até os 24 meses de idade; entre 2 e 18 anos, comparação é feita com modelo norte-americano.

Por Fernando Evans, G1 Campinas e região

O pediata Gil Guerra Júnior, coordenador da pesquisa na Unicamp (Foto: Antoninho Perri/Unicamp)
O pediata Gil Guerra Júnior, coordenador da pesquisa na Unicamp (Foto: Antoninho Perri/Unicamp)

Uma pesquisa realizada pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) traçou parâmetros de peso e altura de crianças e jovens com Síndrome de Down. É a primeira vez que um estudo apresenta curvas de crescimento específicas da população brasileira com Down de zero aos 20 anos - os dados em uso pelo Ministério da Saúde são do início dos anos 2000 e contemplam apenas os primeiros 24 meses de vida.

Responsável por coordenar a pesquisa na Faculdade de Ciências Médicas (FMC) da Unicamp, o pediatra Gil Guerra Júnior destaca que as curvas são essenciais para identificar possíveis desvios de peso e altura e permitir aos pais e médicos um acompanhamento adequado dos pacientes com Down.

"Essas curvas de referência existem no mundo todo, mas são antigas. A curva brasileira existente é uma única feita com poucas crianças com Síndorme de Down, na cidade de São Paulo, no início dos anos 2000. E só com crianças até 8 anos de idade. A curva, no entanto, é adotada como referência pelo Ministério da Saúde só até os 2 anos de idade. Dos 2 aos 18, usa-se ainda a referência norte-americana", explica Júnior.

O pediatra espera que o Ministério da Saúde adote as curvas de referências elaboradas pela equipe da Unicamp, num estudo que mapeou 938 crianças e jovens com Down de todo o Estado de São Paulo. "É uma pesquisa mais representativa", defende.

Modelo necessário
A adoção de uma curva brasileira mostrou-se necessária após a comparação dos dados com populações europeia e norte-americana. "O mecanismo não mostra se os dados são para mais ou menos, mas apontam que há diferenças significativas, o que comprova a necessidade de se ter uma curva própria do Brasil para análise dos indivíduos nascidos aqui", explica o pediatra.

Um software comparou os dados das crianças e jovens brasileiros com Down com as curvas de Portugal e dos Estados Unidos. "A população norte-americana, de uma forma geral, é mais alta que a brasileira. Quando você coloca um indivíduo do Brasil em uma curva americana, ele sempre vai parecer mais baixo do que é", compara Júnior.

Esses dados são essenciais para um entendimento, de pais e médicos, se o desenvolvimento do indivíduo com Down segue os mesmos padrões de outros pacientes no Brasil. "Às vezes uma criança com Down considerada com sobrepeso ou obesa em uma curva anterior, não tenha esteja fora do padrão dentro da realidade brasileira", aponta o pesquisador.

Criança com Síndrome de Down passa por avaliação antropométrica para estudo da Unicamp (Foto: Antonio Scarpinetti/Unicamp)
Criança com Síndrome de Down passa por avaliação antropométrica para estudo da Unicamp (Foto: Antonio Scarpinetti/Unicamp)

Trabalho árduo
O trabalho durou mais dois anos e monitorou mais de mil crianças e adolescentes em diversas cidades do Estado de São Paulo. A compilação dos dados, que constitia em registrar peso, a estatura, perímetro cefálico e índice de massa corporal (IMC), foi feita pelo educador físico Fabio Bertapelli.

Assessor científico colaborador da Federação das Apaes do Estado de São Paulo e, com financiamento da Coordenadoria de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes), Bertapelli desenvolveu as novas curvas durante o seu doutorado, feito sob a orientação de Gil Guerra Júnior, na Unicamp, e de Stamatis Agiovlasitis, na Universidade Estadual do Mississipi, nos Estados Unidos.

Referência
Gil Guerra Júnior espera que em breve o Ministério da Saúde adote a nova curva de referência desenvolvida na Unicamp. "Apresentei os dados à Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP), que aprovou e enviou o pedido ao Ministério da Saúde", informa.

"Esse é um trabalho que ocorre constantemente. Talvez daqui 20, 30 anos, essa curva esteja defasada e será preciso que fazer outra. Isso ocorre com todos os indivíduos", explica.

Fonte: g1.globo.com


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