segunda-feira, 31 de julho de 2017

Katya Hemelrijk: "Nós precisamos de acesso, mas sem privilégio"

Em depoimento a ÉPOCA, portadora de osteogênese imperfeita (ossos de vidro) fala sobre a dificuldade que enfrentou para embarcar em avião. Sem equipamentos adequados, ela precisou rastejar para subir até a aeronave

KATYA HEMELRIJK DA SILVA, EM DEPOIMENTO A RENATO MACHADO

                            "Diziam que eu brincava de ser feliz e, não, eu sou feliz de verdade", diz Katya Hemelrijk da Silva (Foto: Arquivo pessoal)
"Diziam que eu brincava de ser feliz e, não, eu sou feliz de verdade", diz Katya Hemelrijk da Silva (Foto: Arquivo pessoal)

Aos 21 anos, Marta me trouxe ao mundo. Quando nasci, em São Paulo, os médicos falaram que eu não passaria do primeiro ano de vida. Ninguém entendia muito bem o que eu tinha. Diziam que minha frágil caixa torácica não teria um pulmão bem desenvolvido e a insuficiência pulmonar logo dominaria.

Minha mãe foi atrás de ajuda. Tudo que sugeriam e havia alguma possível melhora para mim, ela tentava. Cresci com cuidados, mas com muito incentivo para que eu fizesse o que me deixava feliz. Eu tenho osteogênese imperfeita (ossos de vidro), uma falta de cálcio nos ossos que me leva a ter fraturas com o menor dos choques. Até os dez anos eu já tinha contado 200 fraturas.

Minha mãe sempre me ensinou desde pequena que nada pode impedir que a gente faça o que tem vontade. Se eu quebraria um braço dormindo, eu preferia quebrá-lo me divertindo. Se era pra quebrar, que eu estivesse feliz.

Sempre fui em associações e, nesses lugares, as pessoas andavam com uma cara triste, mães que só choravam. Aquilo me fazia muito mal. Eu tinha meu jeito enérgico e diziam que eu brincava de ser feliz e, não, eu sou feliz de verdade. As pessoas achavam que isso era impossível para a realidade delas e minha mãe dizia pra eu ir, que eu deveria transmitir isso para as pessoas.

Eu fui crescendo com essa premissa de que eu tinha que fazer as coisas, óbvio que dentro das minhas limitações, mas que eu não deixaria de fazer nada que estivesse com vontade por causa disso. Como ir ao casamento de uma amiga, em Foz do Iguaçu, Paraná. Na segunda-feira (1º), eram 4h20 quando cheguei no aeroporto para o embarque. Fui despachar a mala e a cadeira de rodas enquanto ouvia os funcionários da companhia conversando no radinho que o "delta fox" (código interno para deficiente físico) estava embarcando no voo para Curitiba com destino a São Paulo, e que o stair trac (aparelho que auxilia a entrada de cadeirantes na aeronave) estava descarregado.

"Moço, a delta fox aqui sou eu e a stair trac está descarregada. Como é que vocês vão fazer? Vocês têm uma horinha pra dar uma carga rápida pra eu poder subir?”, perguntei. Eles me tranquilizaram e garantiram uma solução para a hora do embarque. Foi um descuido, uma falha humana. Alguém esqueceu de colocar o equipamento na tomada. Eram três as sugestões da empresa: me carregar no colo, me subirem com a minha própria cadeira ou esperar três horas para carregar o aparelho, me relocando no voo seguinte. Eu optei por subir as escadas de bumbum, como sempre faço em São Paulo. É para mim a forma mais tranquila e que me sinto mais segura.

Foto tirada pelo marido de Katya, Ricardo, enquanto ela embarcava no avião (Foto: Arquivo pessoal)
Foto tirada pelo marido de Katya, Ricardo, enquanto ela embarcava no avião (Foto: Arquivo pessoal)

A foto no Facebook veio por eu já ter sofrido isso há 8 anos, na minha lua de mel. Foi triste ver que o tempo passou e nada mudou. Eles não evoluíram. Era mais um desabafo, um pedido pras pessoas se movimentarem e prestarem mais atenção. As comissárias de bordo estavam revoltadas com a situação, mas não sabiam ao certo como me ajudar. Era uma junção de despreparo técnico e emocional.

Fazer o que tenho vontade, tocar a minha vida, é um ato de liberdade. A forma como eu consigo dirigir é pedindo ajuda para entrar e sair do carro. Eu vou para tudo quanto é lugar. Graças a Deus o povo brasileiro é muito solícito e não tenho dificuldade nenhuma de transitar por São Paulo. Quando a gente fala de acessibilidade, isso significa fazer as coisas sozinho, por conta própria. Não adianta um restaurante dizer que é adaptado com uma rampa que parece uma parede de escalada. Eu não vou conseguir subir sozinha. Isso acontece na calçada, com a prefeitura, ou em estabelecimentos privados.

As pessoas têm que estar abertas para escutar, para fazer essas adaptações simples para facilitar o dia a dia. Nós precisamos de acesso, mas sem privilégio. Pra tentar amenizar nossa falta de acesso, as pessoas acabam nos dando um monte de privilégios. E acabam fazendo com que a gente passe muita vergonha. Eu não quero fular fila, eu não quero pagar meia, isso está errado.

Eu agora não quero tirar proveito da Gol, não quero passagem de graça ou algum benefício próprio. Mas deixem nós, cadeirantes, ajudar. É mais simples do que eles imaginam, não é preciso contratar uma mega consultoria, gastar mundos e fundos, ou destruir o que já foi construído até hoje. É na atitude, é na forma de lidar.

Em comunicado, a Gol afirmou que lamenta o ocorrido com a cliente Katya Hemelrijk da Silva e afirma que "já está tomando as medidas necessárias para evitar que situações como esta voltem a acontecer. A companhia esclarece ainda que o Stair Trac – equipamento utilizado para levar clientes com deficiência física até o interior de aeronaves – da base de Foz de Iguaçu não estava disponível para uso na manhã do dia 1, e por isso não pôde ser utilizado durante o embarque do voo 1076 pela passageira. A GOL tentou com as demais empresas conseguir o equipamento, o que também não foi possível, e ofereceu outras alternativas para a Cliente, que optou por seguir sem a ajuda dos colaboradores da companhia."

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