sexta-feira, 7 de julho de 2017

Quando a arte é para todos

Tecnologias em vídeo e autodescrição representam um avanço.

O diretor de um musical conversa com os pais de sua principal artista ao fim do espetáculo. Eles elogiam o figurino, o cenário, a iluminação, mas não a voz da jovem. Os pais da cantora são surdos. A cena do filme “A Família Bélier”, um dos mais recentes a exibir as dificuldades pelas quais pessoas com deficiência enfrentam quando vão a programas culturais, pode acontecer em qualquer teatro. Ao não utilizar ferramentas inclusivas, a arte parece distante desse público específico.

Em BH, porém, ações recentes têm buscado ressignificar as manifestações artísticas e torná-las acessíveis a minorias. Exposições, shows e peças têm buscado ser mais inclusivas – ainda que haja muito a ser feito. No início do ano, por exemplo, a tradicional Campanha de Popularização Teatro e Dança trouxe, pela primeira vez, espetáculos com interpretação em libras. Recentemente, a cantora paulistana Fabiana Cozza fez o mesmo ao se apresentar no Sesc Palladium. Ao abordar o slogan “Dizer o indizível” na Semana Nacional de Museus, em maio, espaços de BH trouxeram artistas com deficiência mental.

“Ainda precisamos avançar. As outras pessoas estão se adaptando a essa realidade, a não tratá-los como diferentes. Nós, do teatro e da dança, estamos sensíveis a isso, e o resultado foi muito positivo”, diz o presidente do Sindicato dos Produtores de Artes Cênicas-MG, Rômulo Duque. Ele afirma que nos próximos anos o projeto continuará abrindo espaço para acessibilidade. “Já estamos estudando como fazer a inclusão para as pessoas com deficiência visual também. Além disso, queremos trazer espetáculos com artistas com deficiência. Fizemos isso em Araxá, e foi ótimo”, conta Duque.

Artista plástico, curador e cadeirante, Marcelo Xavier está otimista com os recentes avanços. “O Brasil tem essa mania de correr atrás do que a Europa faz. E, como os países de lá já têm projetos de acessibilidade total há anos, creio que vamos progredir. Estamos no começo”, aponta.

No entanto, o artista plástico chama atenção para o fato de que além das manifestações artísticas e dos equipamentos serem acessíveis, é necessário que o entorno seja reorganizado. “Falta pensar a questão de forma aberta e contemporânea. Os responsáveis pelo trânsito precisam priorizar os pedestres, e não os carros. É incrível como um buraco no asfalto é imediatamente tampado, enquanto temos que conviver com calçadas inacessíveis”, destaca.

Ele também observa que em prédios tombados há resistência em mudanças. “Nas cidades coloniais, os cadeirantes eram uma vergonha para a família, mas felizmente estamos em outro tempo, as pessoas precisam entender isso”, diz.

Como curador, Xavier conta que tem encontrado receptividade entre os gestores dos espaços, como na Casa Fiat de Cultura, que sedia atualmente a exposição “Sylvio Coutinho Mostra Belo Horizonte”. Entre gravuras e fotografias, ele propôs a inclusão de peças tridimensionais, voltadas também a pessoas com deficiência visual. “Naturalmente, vamos tentando introduzir propostas, mas é um desafio. Não podemos esperar do poder público uma mudança que não venha de uma quase guerra. Felizmente, o movimento social de inclusão está mais forte”, diz.

Desafios. A especialista em acessibilidade cultural e diretora do Museus Acessíveis, em SP, Viviane Sarraf, que desenvolve projetos em espaços culturais, pensa da mesma forma. “Avançamos muito. Pela minha experiência, vejo que os curadores e os gestores, por exemplo, estão mais conscientes. Às vezes, eles têm algum receio, por desconhecimento ou informação preconcebida, mas está mais fácil dialogar. Agora, o que precisamos é desenvolver mais ferramentas de comunicação inclusivas, como audiodescrição, peças táteis. No caso dos surdos, por exemplo, sabemos que, mesmo onde há textos, há uma dificuldade, porque a primeira língua deles é a de sinais”, argumenta.

Segundo ela, até 2010, as instituições faziam programas de acessibilidade temporários. Recentemente, os programas criados têm caráter permanente.

O Circuito Liberdade, que reúne 15 equipamentos culturais do Estado, passou a tratar o assunto com ênfase em 2015, conta a coordenadora de Patrimônio do Circuito Liberdade pelo IEPHA, Luciana Cajado. “Começamos discutindo as possibilidades de requalificar o atendimento ao visitante com deficiência ou de minorias e criamos grupos de discussão. Tivemos uma fase de diagnóstico e estabelecemos linhas de atuação de cada equipamento e em conjunto. Desde 2016, entramos em uma fase intensa de capacitação”, explica.

Uma das metas é conseguir trazer esse público, hoje presente via instituições parceiras, para a visitação espontânea. “Há poucos anos, o entendimento era acessibilidade como resultado de ações de mediação, educativas. Hoje, isso mudou, e por isso queremos que todos os funcionários, e não só de um setor específico, saibam libras, estejam sensíveis a minorias como um todo”, diz.

Além dos equipamentos, há investimento em tecnologias. “Uma série de marcos legais foi a mola motriz para a mudança na cadeia. A lei já exige que 5% do acervo das bibliotecas seja acessível, e incorporamos essa ideia em nossos editais para exposições, por exemplo, pedindo que artista e proponentes pensem ao menos 5% como programação inclusiva”, conta.

Neste mês, a exposição “Não me Espere para o Jantar”, de Adriel Visoto, no Memorial Minas Gerais Vale, por exemplo, inaugurou um sistema de audiodescrição para pessoas com deficiência visual.

Fontes: O Tempo Magazine  -  turismoadaptado.com.br

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