domingo, 16 de julho de 2017

Voltei a escutar depois de 29 anos

Com o implante coclear, deixei de ser surda e pude ouvir a voz das minhas filhas pela primeira vez.

Reportagem: Ana Cavalcanti (com colaboração de Luiza Schiff

Foi como nascer de novo! | <i>Crédito: Redação Sou mais Eu
Foi como nascer de novo! | Crédito: Redação Sou mais Eu

Aos 24 anos, em novembro de 1979, acordei surda dos dois ouvidos. Assim, do nada, deixei de escutar. Depois de muitos exames, veio o diagnóstico: surdez súbita. Ou seja, uma perda de audição repentina, sem causa nem cura.

Foi um choque: eu era recém-casada, com uma filhinha pequena, e estava cursando o último ano de Arquitetura. Ficar surda, no começo da vida, parecia absurdo. Tive de reaprender a viver.

Aprendi leitura labial
Recebi muito apoio dos meus parentes e amigos desde o primeiro dia de surdez. Meus pais e meu marido ficaram visivelmente abalados. Foi por vê-los assim e por crer em Deus que segui em frente. Não quis me colocar como vítima. A partir de então, tentei reconstruir minha vida. Nos primeiros meses, me dediquei a aprender leitura labial. Foi muito difícil. Eu tinha que pedir para as pessoas falarem devagar, olharem nos meus olhos e repetirem a frase.

Em seguida, voltei à faculdade para terminar o curso. Defendi minha tese respondendo às perguntas por escrito e conquistei meu diploma. Abri meu escritório em casa. A educação da minha filha também exigiu adaptações. Ela só tinha um ano de vida e mal conseguia falar. Estabelecemos o seguinte: sempre que ela quisesse me chamar, era só me puxar pela roupa. Assim, eu decifrava o que ela queria de mim.

Nos anos seguintes, tive mais duas filhas, em 1980 e em 1983. Eduquei as três com todo meu esforço, mas tive medo de falhar como mãe. Aí entrava o apoio incondicional do meu marido, sempre ao meu lado.

Nova vida com o implante
Já estava bem adaptada à vida de deficiente auditiva quando soube do implante coclear. Foi no ano de 2008, por meio de uma revista. Busquei mais informações no Hospital das Clínicas, em São Paulo, e me submeti a uma avaliação médica. Tudo constatado: minha surdez era total e irreversível. Isso significava que eu tinha o perfil ideal para o implante. Marquei a cirurgia gratuita pelo SUS para o dia 12 de março de 2008. Quanta expectativa...
Acordei da operação sem escutar um pio e com dores terríveis no ouvido. Mas eu sabia que isso fazia parte da recuperação. Precisei ficar em repouso absoluto e esperar um mês, o tempo médio da cicatrização, para conectar o aparelho.

Os primeiros ruídos foram estranhos: metálicos e sem definição. Levei alguns meses até identificar a origem do primeiro som. Foi incrível! "Isso é um carro. Agora uma moto. E esse é um latido de cachorro!", gritei emocionada para as minhas três filhas, enquanto passeávamos em uma rua pra lá de movimentada.
Eu parecia uma louca descobrindo os sons mais comuns da vida. Mas quem se importa? Estava feliz, sem saber se ria ou se chorava! A emoção foi ainda maior quando pude identificar as vozes das minhas filhas. Parecia mesmo um milagre de Deus.

" Me considero uma mulher privilegiada
Minha qualidade de vida mudou completamente depois do implante. Ainda tenho que tomar alguns cuidados simples, claro, como desconectá-lo na hora de tomar banho e evitar quebrá-lo em alguma batida. Mas é só isso. Já os benefícios são infinitos: eu posso falar e escutar ao telefone, ver televisão, ouvir música... Ou seja: eu posso tudo de novo! Que maravilha de vida! Me sinto muito privilegiada!

É como se eu tivesse um ouvido biônico
O implante coclear é um equipamento eletrônico computadorizado que substitui totalmente o ouvido de pessoas com surdez total ou quase total. Uma parte dele é colocada dentro do ouvido, na região chamada cóclea. O dispositivo estimula diretamente o nervo auditivo, levando sinais para o cérebro. Já a parte externa do aparelho tem microfone, processador de fala, codificador e transmissor. O som proporcionado pelo implante é metalizado, como se fosse um ouvido biônico. Cada paciente tem um grau de recuperação diferente, que depende de fatores como memória auditiva, estado da cóclea e reabilitação.

O que é surdez súbita?
É exatamente o que a expressão significa: surdez que surge de forma repentina, em questão de horas. "Há mais de cem causas possíveis para a surdez súbita, mas em cerca de 40% dos casos não se descobre a origem", afirma Katya Freire, mestre em Fonoaudiologia pela PUC-SP. A gravidade da perda auditiva pode variar de leve a total. "Para graus leves a moderados, indica-se o uso de aparelhos auditivos comuns. Mas para quem sofre de surdez profunda ou total, a melhor solução é o implante coclear", conclui. A cirurgia, que custa cerca de R$ 70 mil, é gratuita pelo SUS.

Shenia Nogueira, 60 anos, arquiteta, São Paulo, SP

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