quinta-feira, 3 de agosto de 2017

Cegueira já afeta 36 milhões de pessoas no mundo, diz pesquisa

Envelhecimento da população é responsável por número de casos

POR O GLOBO

Shutterstock / Shutterstock
Médicos defendem esforços para desenvolver novas técnicas de tratamento

RIO- Um estudo publicado ontem na revista médica “Lancet” indica que, atualmente, a cegueira afeta 36 milhões de pessoas em todo o mundo e, embora a prevalência da deficiência na população mundial tenha diminuído, os especialistas alertam para o aumento no número absoluto de casos. Entre as hipóteses para explicar o quadro, além do crescimento da população mundial, os pesquisadores apontam como possível causa o envelhecimento da população. Os cientistas projetam ainda que a quantidade de pessoas com deficiência visual tende a continuar crescendo.

A expectativa é de que, em 2020, a cegueira atinja 38,5 milhões de pessoas. Já em 2050, serão quase 115 milhões de cegos no mundo. Já a quantidade de pacientes com comprometimento da visão variando de moderado a grave baterá a casa dos 588 milhões no mesmo ano. Atualmente, há 217 milhões de pessoas com comprometimento nesses níveis (em 1990 eram 160 milhões). Os médicos frisam, no entanto, que as projeções podem mudar de acordo com a evolução da população mundial. De acordo com o relatório, os mais atingidos vivem em países em desenvolvimento.

Para chegar a essas conclusões, a pesquisa analisou a situação de 188 países entre 1990 e 2015 a partir do Global Vision Databases, um banco de dados sobre o tema.

— Mesmo uma deficiência visual leve pode afetar significativamente a vida de uma pessoa. Pode, por exemplo, reduzir sua independência. Em muitos países, (a deficiência visual) muitas vezes significa que as pessoas estão impedidas de dirigir. Assim como reduz suas oportunidades educacionais e econômicas — comentou o pesquisador Rupert Bourne, responsável pelo estudo. — Com o número de pessoas com deficiência visual crescendo, devemos agir para aumentar nossos atuais esforços no que diz respeito ao tratamento a nível mundial, regional e nacional.

Embora a quantidade de pessoas cegas tenha aumentado de 30,6 milhões, em 1990, para 36 milhões, em 2015, a prevalência da deficiência visual em relação à população mundial caiu. Se há 17 anos o índice era de 0,75%, em 2015 a taxa foi de 0,48%. O mesmo movimento aconteceu com os casos de comprometimento moderado a grave da visão, passando de 3,83%, em 1990, para 2,90%, em 2015. Mas ainda que o percentual em relação à população mundial tenha caído, a projeção dos especialistas é que essas taxas voltem a subir ligeiramente em 2020.

ACESSO À SAÚDE EM JOGO

Os cientistas também analisaram casos menos graves de deficiência visual, como a presbiopia— dificuldade de enxergar de perto, principalmente a partir dos 40 anos, a popular “vista cansada” — e constataram que pelo menos 1,1 bilhão de pessoas acima de 35 anos em todo planeta sofrem desse mal.

— A incidência de algumas doenças, que no passado era menor, agora está maior. Muitas dessas doenças têm ligação com o envelhecimento. A maculopatia, que afeta a retina, está relacionada à idade. Há ainda a presbiopia, o glaucoma, a catarata. São doenças que estão aumentando no mundo — afirma Paulo Augusto de Arruda Melo, professor de oftalmologia da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) e integrante do Conselho Brasileiro de Oftalmologia (CBO).

O relatório mostra que os países com menor renda são os mais atingidos pela cegueira. Um exemplo é que, em 2015, tanto no Oeste quanto no Leste da África Subsaariana e no Sul da Ásia, a prevalência de cegueira foi superior a 4%. Enquanto isso, em regiões de alta renda, como Europa e América do Norte, entre outras, o índice foi de 0,5%.

De acordo com Melo, a maior prevalência de casos de cegueira está intimamente ligada à precaridade na oferta de serviços de saúde e educação:

— Nos países onde não há acesso à educação e acesso deficiente à saúde há grande número de deficientes visuais. São pessoas que, por falta de informação, não se protegem e têm maior número de acidentes de trabalho. Ou pessoas que têm uma má alimentação. Há ainda a população que teria condições de recuperar a visão e não tem acesso à saúde.


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