quarta-feira, 2 de agosto de 2017

Pioneira em audiodescrição, Lívia Motta revela avanços do recurso e o crescimento de demandas no país.

Lívia Maria Villela

"Ver com palavras", através da descrição de imagens, filmes, eventos e programas diversos, ao vivo, gravada ou simultânea, a audiodescrição é um recurso que está em alta demanda em inúmeros setores da sociedade. Ela avança muito com intuito de atender pessoas com deficiência visual, dando-lhes oportunidade de acesso e permitindo que possam ser incluídas na sociedade por meio da audiodescrição. O Blog "Novo Olhar" apresenta uma especialista no assunto, a Dra. Lívia Motta, que tem formação em Letras e parte de seu doutorado no Reino Unido (Inglaterra).

Descrever nos mínimos detalhes cenas do cotidiano, eventos, filmes, teatro, enfim, tudo que for necessário para transmitir a quem não consegue enxergar por meio da transformação de imagens em palavras. Isso permite à pessoa com deficiência, participar, ter acesso, idealizar em sua mente um ambiente, uma foto, um espetáculo. Trazer um olhar diferenciado através das palavras é tarefa para Lívia Motta, que concluiu seu doutorado na PUC de São Paulo. Lívia realizou a primeira audiodescrição no teatro, descrevendo as cenas, gestos, expressões, cores e movimentos que deram à pessoa com deficiência visual, acesso às informações com riqueza de detalhes.

Novo Olhar (NO): Como você conheceu o recurso de audiodescrição e o que ele representa na vida das pessoas com deficiência?

Lívia Motta (LM): Iniciei meu doutorado em Lingüística Aplicada e Estudos da Linguagem na PUC, de São Paulo e fiz uma parte no Reino Unido, onde vi pela primeira vez esse recurso para cegos e pessoas com baixa visão, em filmes, na época em VHS. Aquilo me entusiasmou bastante! Adquiri materiais, fiquei pesquisando bibliografias sobre o assunto e quando voltei aqui já começava a se falar em audiodescrição. Comecei então a experimentar e trabalhar com essa técnica no final de 2004 e início de 2005, no Instituto Vivo, onde implantamos a audiodescrição no teatro, pois o Teatro Vivo já dispunha de aparelhos para tradução simultânea. Foi fantástico! A peça de Ariano Suassuna "O santo e a porca", foi o primeiro trabalho, uma fase de preparação de voluntários para o lançamento do recurso no circuito comercial. A primeira pela no Brasil com audiodescrição foi o ‘Andaime’, exibida no Teatro Vivo em 2007. De lá pra cá venho trabalhando bastante, são peças, espetáculos, casamentos e eventos diversos que têm feito as pessoas com deficiência terem acesso à cultura. Elas se sentem respeitadas, valorizadas, pois podem frequentar o teatro, compreender melhor os mais variados temas, aliados aos conhecimentos que passamos sobre as obras e contexto cultural diverso, algo que não é transmitido, o que acaba encantando pessoas dos mais diversos públicos, com e sem deficiência visual.

NO - Em que proporção vem acontecendo os trabalhos de audiodescrição e quais os tipos de espetáculos para o qual este trabalho tem sido contratado por empresas?

LM - A procura tem crescido bastante, a lei de incentivo à cultura determina que filmes e espetáculos precisam ser adaptados à realidade destas pessoas. São óperas, peças, espetáculos de dança, musicais, espetáculos de circo e até casamentos, somos procurados para trabalhar em diversas regiões do país. O público que freqüenta os espetáculos com acessibilidade tem crescido bastante. Quem assiste a uma peça musical ou outro tipo de espetáculo com audiodescrição, quer mais, assiste novamente e traz outras pessoas. Divulgar o espetáculo ou produto audiovisual acessível é super importante, pois faz chegar a informação até o público alvo.

NO - Em relação aos filmes, como está a produção destes trabalhos e como o público tem reagido a tal recurso?

LM - Antes mesmo do teatro, uma mostra de curta-metragem foi o primeiro trabalho com audiodescrição no Brasil. A produção da audiodescrição em filmes vem crescendo principalmente depois da instrução normativa 116, no final de 2014, que estabelece que todos os filmes financiados com recursos públicos federais deverão contemplar nos seus orçamentos serviços de legendagem descritiva, audiodescrição e libras – língua brasileira de sinais.

NO - Quais os critérios para se tornar um audiodescritor e o que compreende a atuação deste profissional?

LM - É importante que a pessoa seja preferencialmente da área de letras, comunicação, cinema, rádio e TV, tradução ou venha do ramo das artes. Ela precisa ter um conhecimento vasto sobre cultura, conhecimento geral, bom domínio da língua portuguesa, disponibilidade para estudo e pesquisa, para conseguir transmitir as informações de forma compreensível, levar entendimento transcrevendo cada cena. é necessário fazer um curso de audiodescrição para assumir a função de audiodescritor, seja ele roteirista, narrador ou consultor. O consultor é uma pessoa com deficiência visual, que com conhecimento do recurso, avalia, revisa e valida o trabalho. Assim sendo, a qualidade da audiodescrição fica de acordo com a necessidade do público alvo, gera oportunidade de trabalho também para pessoa com deficiência, proporciona acesso à cultura com igualdade diante dos demais na plateia, seja em espetáculos, produtos audiovisuais, casamentos, palestras ou nos mais variados tipos de eventos, situações de trabalho, estudos ou lazer.
Sentir a emoção de estar incluído na sociedade, tendo acesso de fato ao que ocorre ao seu redor, não tem preço! Somente quem necessita pode descrever a importância desse recurso. Haverá um dia em que audiodescrição será tarefa normal em todas as esferas da sociedade.

Fonte: g1.globo.com

Nenhum comentário: