sábado, 14 de abril de 2018

Criança cadeirante dribla escadas e buracos em saga por Bilhete Único

Jennifer, 11 anos, foi baleada na coluna em 2016. Ela saiu de Parelheiros para fazer perícia por cartão de gratuidade e demorou quatro horas no trajeto

Kaique Dalapola, do R7

Kaique Dalapola/R7
Elevadores da Estação Grajaú não estavam funcionando
Elevadores da Estação Grajaú não estavam funcionando

Em cima de uma cadeira de rodas, a menina Jennifer Santos de Freitas, de 11 anos, precisou superar buracos em ruas e calçadas, elevadores da CPTM quebrados e sinalizações falhas no Metrô para ir de sua casa — no bairro de Vargem Grande, região de Parelheiros (extremo da zona sul de São Paulo) — até a SPTrans, no bairro do Pari (centro paulistano).

A garota e a mãe, Andreia Helena de Freitas, 29 anos, foram fazer perícia na região central para tirar o Bilhete Único que dá direito à gratuidade no transporte público da capital. O R7 acompanhou a viagem, que durou quatro horas.

Jennifer não consegue andar desde quando foi baleada, há um ano e quatro meses. Ela perdeu o movimento das pernas na noite de 16 de dezembro de 2016, depois que foi baleada em uma tentativa de assalto à sua família, em frente à casa da avó, também em Vargem Grande.

Atualmente, a garota consegue ficar de pé e a expectativa da família — com base nas informações médicas — é de que ela volte a andar nos próximos dois ou três anos.

Na sexta-feira (6), dia da perícia na SPTrans, a reportagem foi recebida na casa da família pelo pai da menina, Luciano dos Santos Silva, 38 anos, às 3h30.

A irmã da garota dormia, enquanto ela e os pais estavam havia meia-hora se preparando para pegar o primeiro ônibus da linha 6093-10 (Vargem Grande/Terminal Grajaú), que sai às 4h sentido a estação da linha 9-Esmeralda da CPTM.

"Vamos na perícia para ver se a gente consegue o bilhete para não precisar mais pagar condução, porque tem sido bem puxado pagar as conduções das duas [mãe e filha] toda vez que temos que sair para médico, tratamento", conta Andreia Helena de Freitas, 29 anos, mãe da menina.

Em cima da cadeira de rodas, Jennifer demonstra rapidamente duas de suas características: é bastante vaidosa e muito responsável. Passando creme no rosto e no cabelo, a menina coloca a televisão em um canal que está passando jornal. "Eu gosto de jornal, e prefiro assistir ao Balanço Geral por causa da Hora da Venenosa", diz a garota.

Um longo caminho

Depois de tomar café, com pão e bolo, Andreia e Jennifer são acompanhadas por Luciano até o portão. Ele não vai levá-las porque, assim que amanhece, sai para exercer o trabalho de motorista em uma empresa na região de Interlagos (também na zona sul). Logo após a despedida, os primeiros desafios do dia de mãe e filha.

Kaique Dalapola/R7
Mãe e filha na rua da casa onde moram, na zona sul
Mãe e filha na rua da casa onde moram, na zona sul

Em uma estrada de terra, esburacada e sem calçadas, Andreia  empurra a cadeira de rodas de Jennifer nas ruas úmidas, com muitas pedras e poças causadas pela chuva do dia anterior.

Poucos minutos antes das 4h, mãe, filha e outras cinco pessoas aguardam o primeiro ônibus para ir sentido centro. A expectativa é chegar no destino antes das 8h, horário marcado pela perícia da SPTrans.

Dez minutos depois de sair do final da linha, às 4h10, o transporte passa no ponto onde Jennifer e Andreia estão. Não teve nenhum problema: o coletivo era adaptado e rapidamente mãe e filha subiram o elevador da escada do ônibus para iniciar a primeira viagem. "Aqui todo mundo conhece, porque só ela de cadeirante sai na rua e pega ônibus por aqui", afirma Andreia.

Ainda desconfiada, Jennifer passa os 38 minutos de viagem até o Terminal Grajaú acordada, mas falando pouco: "Eu sou tímida". A mãe retruca, alegando que o que ela deseja seguir não sugere que ela tenha timidez.

"É, eu quero ser youtuber. Eu faço vídeos de desafios e brincadeiras, junto com meus primos, mas mesmo assim eu tenho um pouco de vergonha aqui", explica a menina.

Jennifer tem várias referências de jovens youtubers, e usa a plataforma para publicar vídeos que grava principalmente na casa de sua avó materna, em Carapicuíba (região metropolitana de São Paulo). O preferido dela é o de "torta na cara", segundo do canal, publicado em 28 de outubro de 2016, menos de um mês antes de ser baleada.

Terminais e estações

Kaique Dalapola/R7
Andreia e Jennifer não conseguem usar calçada no Brás (região central de SP)
Andreia e Jennifer não conseguem usar calçada no Brás (região central de SP)

Às 4h48 o ônibus chega ao destino, no Terminal Grajaú. Depois de todos do coletivo desembarcar (cerca de 40 pessoas), motorista e cobrador descem Jennifer e Andreia para elas irem para a segunda etapa do trajeto: da estação Grajaú para a estação Pinheiros, onde farão a transferência da linha 9-Esmeralda da CPTM para linha 4-Amarela do Metrô.

No terminal de ônibus, o primeiro desafio é subir um andar em direção às catracas da estação de trem. Depois de 11 minutos de espera, um funcionário a serviço da CPTM passou via rádio de comunicação a seguinte informação ao empregado a serviço da SPTrans: "Nenhum dos elevadores da CPTM está funcionando, um funcionário vai ajudar nas escadas".

Mais três minutos e dois funcionários descem para levar Jennifer pelas escadas rolantes. O outro elevador da estação, que leva à plataforma onde embarca no trem, funciona normalmente.

Pouco depois das 5h inicia a nova etapa da saga. Quase toda viagem de cerca de 40 minutos no trem, Jennifer passa dormindo. Ela conta que está cansada porque, como faz todos os dias, foi dormir às 22h, depois de tomar os medicamentos — teve cinco horas de sono. "Ela toma os remédios, passa a sonda, sabe a hora e faz tudo sozinha, eu nem falo nada", diz a mãe.

Na estação Pinheiros, sem nenhum grande problema, Jennifer e Andreia fazem a transferência da CPTM para o Metrô, e embarcam sentido Luz, para fazer nova transferência na estação República (desta vez da linha 4-Amarela para a 3-Vermelha).

As novas dificuldades aparecem na estação República, onde elas desembarcam às 6h05 para pegar o metrô sentido estação Brás da linha 3-Vermelha (último ponto antes de ir para o destino final).

Por causa da falta de sinalizações, Jennifer e Andreia não conseguiram localizar o elevador que as levaria para a plataforma que precisam. Novamente, foram pela escada rolante — desta vez sem ajuda de funcionários.

Ruas e calçadas

Kaique Dalapola/R7
Jennifer comeu um churrasco grego antes de voltar
Jennifer comeu um churrasco grego antes de voltar

Os problemas de locomoção para cadeirantes não se limitam às ruas das periferias de São Paulo. A ida da estação Brás até a SPTrans, no bairro do Pari, região central da capital, é cheia de obstáculos. Andreia precisa usar a força e a coragem em vários momentos para subir as calçadas e andar no meio da rua movimentada por causa da falta de espaço adaptado para cadeira de rodas nas calçadas.

Depois de parar em uma banca de jornal no largo da Concórdia e comprar água para Jennifer tomar os medicamentos, a distância até chegar no endereço desejado é de aproximadamente 40 minutos.

"Eu não ligo para a distância que tem que andar. Ando o tanto que for necessário para levar a Jennifer onde for preciso"
Andreia, mãe de Jennifer

"Eu não ligo para a distância que tem que andar. Ando o tanto que que for necessário para levar a Jennifer onde for preciso. Os obstáculos no caminho que são complicados", afirma Andreia. Sorrindo e em tom de brincadeira, a criança fala sobre a distância que percorreram: "Também cansei".

O atendimento na perícia da SPTrans estava agendado para 8h. Jeniffer e Andreia chegaram cerca de 15 minutos antes. Foram chamadas com cinco minutos de atraso e, depois de três minutos de atendimento, saem com a notícia de que "deu tudo certo, graças a Deus". Ficou acordado que, em 20 dias, a família receberá uma carta comunicando a próxima etapa para tirar o Bilhete Único com gratuidade.

A volta à estação Brás foi de transporte público. "É muito longe, vamos esperar o ônibus mesmo", sugere Jennifer. Pelas janelas do coletivo, fica evidente que seria impossível voltar na cadeira de rodas. Devido ao horário, as calçadas já estão sendo tomadas por pessoas e barracas, e as ruas estão mais movimentadas com os carros.

Mãe e filha descem próximo à estação Brás. "Na rua, gosto de comer esse pão com carne ou pão de queijo, igual ao meu pai", avisa Jennifer antes de comer o churrasquinho grego vendido bem em frente ao ponto, se preparando para iniciar o caminho de volta para a casa.

ROTINA

                        Kaique Dalapola/R7
                           No Brás, a menina parou para tomar os medicamentos
                        No Brás, a menina parou para tomar os medicamentos

Aluna do 6º ano do ensino fundamental de uma escola estadual próxima de onde mora, Jennifer estuda à tarde e, às terças-feiras e sextas-feiras, é levada pelo Atende (Serviço de Atendimento Especial). Nos outros dias é levada pela mãe.

Um dos horários que a menina deve tomar remédio e passar a sonda, coincide com o período de aula. Ela sai e faz as obrigações sozinha, apesar de ter uma cuidadora à disposição para auxiliá-la fora da sala.

Jennifer gosta de matemática, apesar de achar que o professor é muito exigente. Ela tem bastante amizade na sala, mas algumas amigas ficaram em outra turma quando elas mudaram de escola. Os melhores relacionamentos da criança, no entanto, são nos dias de tratamento na Rede de Reabilitação Lucy Montoro.

Andreia leva a filha para a fisioterapia no instituto às segundas-feiras e quartas-feiras. Elas saem de casa às 5h, são atendidas entre 8h e 9h, e voltam para casa. Falta pouco tempo para a menina conseguir a internação na unidade de reabilitação, o que representará, segundo a mãe, um grande avanço para a recuperação da menina.

Outro fator que auxiliaria na recuperação seria a prática de esportes, mas a família enfrenta dificuldades em conseguir vagas. Uma tentativa é colocar Jennifer para fazer natação no CEU (Centro Educacional Unificado) de Parelheiros. No entanto, segundo Andreia, sempre que tenta fazer matrícula é informada que não tem vaga.

As artes marciais na unidade de Parelheiros do CEU também não contam com professores preparados para atender pessoas com necessidades especiais, de acordo com a mãe.

Já no CER (Centro Especializado em Reabilitação) de Santo Amaro, Andreia conta que para receber atendimento deve ser encaminhado pelo posto de saúde e, no local, a alegação para não atender Jennifer é a distância da residência da menina para a unidade.

OUTRO LADO

Buracos e calçadas

Em nota, a assessoria de imprensa da Secretaria das Prefeituras Regionais disse que "de acordo com a legislação, a responsabilidade pela conservação de calçadas é do proprietário do imóvel". A secretaria afirma ainda que "a Prefeitura Regional Parelheiros realiza os serviços de regularização mecânica nas ruas de terra e de zeladoria".

Questionada em ligação telefônica sobre a ausência de calçadas na região, impossibilitando qualquer tipo de manutenção realizada por moradores, a assessoria da pasta informou que a prefeitura não pode fazer as calçadas no bairro por ser  tombada pelo Patrimônio Histórico, Cultural e Ambiental da Cidade de São Paulo e está no PAC (Programa de Aceleração do Crescimento), do governo federal.

Sobre o problema na locomoção na região central, a secretaria disse que, "desde o início da gestão em 2017, foram executadas 100 rampas de acessibilidade na região da Mooca, inclusive no Pari e no Brás".

Elevador no Grajaú

A reportagem informou à CPTM e à SPTrans sobre o problema que Jennifer encontrou com os elevadores do terminal para a estação Grajaú e questionou sobre como seria solucionado. Por telefone, a assessoria da SPTrans informou que a responsabilidade era da companhia de trem.

Em nota, a companhia disse que "a empresa contratada para a manutenção dos elevadores da Estação Grajaú, RV Manutenção em Elevadores, já foi notificada e multada pela CPTM por não manter pelo menos um dos elevadores de acesso ao terminal de ônibus em funcionamento".

A assessoria de imprensa ainda informou que, desde a última terça-feira (10), "dois elevadores estão funcionando na estação Grajaú — um de acesso à plataforma e outro de acesso ao terminal". O terceiro elevador, que também dá acesso do terminal à estação, segue em manutenção, com previsão de conclusão até este sábado (14).

Elevador na República

Informada e questionada sobre a falta de sinalizações para o elevador na transferência para da linha 3-Vermelha para a 4-Amarela do Metrô, a assessoria de imprensa da companhia disse que a responsabilidade é da empresa ViaQuatro, responsável pela linha Amarela.

Em nota, a ViaQuatro disse que "suas estações são totalmente acessíveis para pessoas com deficiência e pessoas com mobilidade reduzida, contando com elevadores preferenciais, dispostos nos mezaninos e plataformas". Ainda segundo a assessoria, "os colaboradores da ViaQuatro estão preparados para atender a pessoas com deficiência e pessoas com mobilidade reduzida, inclusive em condução de cadeirantes".

Limitação no Atende

Sobre o serviço do Atende utilizado por Jennifer, a SPTrans afirmou que a menina utiliza o atendimento às terças-feiras e sexta-feiras para ir à escola, e às segundas-feiras e sextas-feitas para ir ao tratamento no Lucy Montoro, "estando ainda pendente somente o atendimento para a escola às quintas-feiras, devido a dificuldade de encaixe imediato".

A assessoria da SPTrans ainda disse que as análises de solicitações de pedidos para o uso do Atende são realizadas diariamente e "a disponibilidade de atendimento depende da estrutura de logística do serviço, com base na rota comum a outros usuários, dias, horários e condição de transporte (se há cadeira de rodas e acompanhante), para que seja sempre compatível a inclusão de novos pedidos à rota de atendimento".

Por fim, a assessoria disse que "todos os cuidados são tomados para que o serviço chegue a um maior número de pessoas possível de tal maneira que ninguém fique sem ser atendido".

Vaga no CEU

Em contato telefônico, a assessoria de imprensa da Secretaria Municipal de Educação disse que "o CEU tem uma política de inclusão" e todos alunos que praticam esportes nos centros têm atendimento igualitário sendo que as pessoas com necessidades especiais têm preferência no surgimento de vagas.

Ainda de acordo com a pasta, não existe registro de Jennifer na lista de espera por vaga no CEU de Parelheiros e informou que a solicitação deve ser feita pela mãe diretamente na coordenação da unidade. Depois disso, a gestão entra em contato com a família disponibilizando a vaga para a prática das atividades do local.

Atendimento no CER

A reportagem também repassou para a Secretaria Municipal de Saúde os questionamentos feitos pela mãe a respeito das burocracias e impossibilidade que Jennifer tem para receber atendimento no CER de Santo Amaro. Em resposta, a CRS (Coordenadoria Regional de Saúde) Sul disse que "a mãe da paciente em questão já foi contatada pelo CER (Centro Especializado em Reabilitação) Santo Amaro para o tratamento".


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