sábado, 30 de junho de 2018

No Dia Internacional da Síndrome de Down, mãe luta pelo ensino da filha de 17 anos: ‘Escolas não estão preparadas’

Desde que entrou na escola, jovem é aprovada nas séries sem o acompanhamento necessário. Escola de Juruaia (MG) não consegue professor de apoio na Superintendência de Ensino.

Por Fernanda Rodrigues e Régis Melo

Mãe de jovem de 17 anos luta há nove anos por professor de apoio em escola de Juruaia (MG) (Foto: Arquivo Pessoal)
Mãe de jovem de 17 anos luta há nove anos por professor de apoio em escola de Juruaia (MG) (Foto: Arquivo Pessoal)

“Tenho uma filha, hoje com 17 anos, estudante do 9º ano do ensino fundamental, que mal sabe ler e escrever”. Esta é apenas uma parte do relato de uma mãe que há anos luta pela alfabetização completa da filha com síndrome de Down na rede pública de ensino de Minas Gerais. Sem a ajuda de um professor de apoio, a jovem avançou pelas séries e chegou ao ano da formatura escrevendo apenas o primeiro nome. "As escolas não estão preparadas".

Esta quarta-feira (21) é o Dia Internacional da Síndrome de Down. Para lembrar a data, o G1 conta a história da dona de casa Neiva Lopes da Silva com a filha Suelen, de 17 anos. A jovem com síndrome de Down é estudante do 9º ano de uma escola da rede estadual de Juruaia (MG).


Suelen está em um grupo de milhares de alunos que buscam a inclusão na rede pública de ensino, mas esbarram na burocracia e têm os direitos negados.

Neiva luta pela alfabetização da filha aos 17 anos em escola de Juruaia (MG) (Foto: Arquivo Pessoal)
Neiva luta pela alfabetização da filha aos 17 anos em escola de Juruaia (MG) (Foto: Arquivo Pessoal)

Desde 2009, há quase 10 anos, Neiva trava uma luta na Justiça pela inclusão completa da filha no ensino regular, com a autorização para um professor de apoio dentro da sala de aula. Os pedidos incluem inúmeras solicitações à Superintendência Regional de Ensino.

“Desde então, sofro indignada vendo uma filha que amo tanto sofrendo por ter que ficar na sala de aula sem um professor de apoio”.

A mãe coleciona laudos médicos sobre a situação da filha. Além da síndrome de Down, a jovem foi vítima de meningite e, segundo um neurologista em avaliação feita em 2016, apresenta “retardo neurospsicomotor” e “desafagem pedagógica significativa”. O resultado dos laudos é o mesmo – Suelen não acompanha o restante da classe e, portanto, precisa de acompanhamento de um professor de apoio.

A rotina na escola
Na sala de aula, enquanto a turma faz os exercícios comuns do 9º ano, Suelen faz atividades diferentes. “Sofro ao ver minha filha ir à escola, muitas vezes, à força, às vezes chorando. Quando pergunto o que ela fez na aula, ela diz que fez alguns desenhos que ela sabe fazer, e por conta dela mesma”.

“Minha filha tem ido às aulas somente para cumprir o horário”.

Nos cadernos da jovem, há apenas exercícios simples, geralmente aplicados às turmas dos primeiros anos da escola, desenhos e poucas palavras. “Ela reclama por não fazer nada. Quando o professor pode dedicar a ela, dá visto em alguma coisa que ela fez, ela fica muito contente, por coisas simples”.

Segundo a mãe, além do próprio nome, ela consegue escrever apenas algumas palavras simples. Não consegue formar frases e nem o sobrenome.

“Eles [os profissionais da superintendência de ensino] falaram que ela não precisa de professor de apoio porque ela é super inteligente. Eu sei que ela é. Mas com mais de 40 alunos dentro da sala, você acha que o professor dá conta de se dedicar a ela?”.

Os professores e o diretor da escola são considerados grandes parceiros por Neiva. “Não é culpa dos professores. Falta treinamento, falta tempo... muitos não sabem lidar. Eles são maravilhosos e sei que se dependesse só deles, minha filha já estaria alfabetizada. Ela é adorada pelos funcionários da escola e todos reconhecem a necessidade de um professor de apoio para ela”.

Cadernos de Suelen, de 17 anos, têm apenas atividades simples sem o professor de apoio. (Foto: Arquivo Pessoal)
Cadernos de Suelen, de 17 anos, têm apenas atividades simples sem o professor de apoio. (Foto: Arquivo Pessoal)

A luta de Neiva para manter a filha na escola, vai além da inclusão pedagógica. A mãe quer mostrar à filha o mundo das jovens do qual ela faz parte e deve participar. “Eu mando ela pra sala de aula é pra ela ver o comportamento das meninas, como se vestem, como conversam... é parte da adolescência e da inclusão na vida dela. Por isso não tiro ela da escola. Ela precisa dessa convivência”.

No último ano do ensino fundamental, a jovem caminha para celebrar uma formatura sem nenhuma formação da educação básica. Neiva não vê motivos para comemorar anos de aprovação sem desenvolvimento.

“Querem que eu pague boleto pra festa, que eu faça formatura pra uma criança que não sabe nem escrever seu nome completo?”

O que diz a lei
A queixa de Neiva quanto à dificuldade de conseguir a aprovação de um professor de apoio para a filha tem embasamentos na constituição. A Lei Brasileira de Inclusão da Pessoa com Deficiência, de 2015, traz pontos voltados à educação, além de moradia, acessibilidade e trabalho.

Sobre a educação, a lei estabelece a inclusão do aluno em todos os níveis e modalidades e a oferta de profissionais de apoio. Este profissional deve ficar em sala de aula para garantir o acesso do aluno ao conteúdo, com adequações necessárias.

Para Neiva, mesmo com o direito garantido por lei, as escolas ficam reféns de processos burocráticos e pouco eficientes. “É mais do que claro que falta estruturação da rede pública de ensino para crianças especiais. Escolas públicas não estão preparadas para inclusão de crianças especiais e, geralmente, divulgam o contrário. Essa não é a realidade”.

A vida com Down
“Eu quero que as pessoas vejam a minha filha, ela precisa ser vista. A criança com síndrome de Down não consegue enxergar pra frente porque ela é barrada. Sinto, às vezes, que a inclusão não existe. Existe muito mais preconceito do que inclusão”.

Neiva e Suelen lutam pela educação inclusiva em Juruaia (MG) (Foto: Arquivo Pessoal)
Neiva e Suelen lutam pela educação inclusiva em Juruaia (MG) (Foto: Arquivo Pessoal)

O relato é da mãe que encontra portas fechadas na educação e na vida da filha. O desafio, para Neiva, é mais difícil na sociedade do que dentro de casa. “Eu fiquei sabendo depois que ela nasceu que ela tinha a síndrome. Então na hora, assim, pra mim estava tudo certo. Era só eu dar carinho, atenção, respeito, amor, tudo pra ela. Então era fácil. Era só eu aceitar. Só que na verdade não é bem assim. As pessoas e o meio não aceitam. Eu acho que a luta é maior que o limite da gente. Porque as dificuldades na escola e nas ruas são todos os dias”, explica.

“E eles são felizes, pra eles tudo está bom. É uma felicidade ser mãe de uma criança com síndrome de Down. Hoje, não consigo imaginá-la diferente do que é”.

O sonho da inclusão
Mesmo com a espera de quase 10 anos por uma decisão da Superintendência Regional de Ensino que libere um professor de apoio à Suelen, Neiva mantém a esperança.

"A gente quer que a história dela toque as pessoas e principalmente a superintendência. Que eles possam perceber o quanto estão sendo injustos com ela. O que eu espero é que ela aprenda a ler, entre nas redes sociais, como tanto sonha. Ela merece ter uma vida de uma menina de 17 anos".

"A minha luta é para que algum juiz, alguém autorize essa professora de apoio. Que a minha filha possa vir a ler e a escrever. Eu acredito que a hora que uma audiência, alguma decisão acontecer, a coisa pra ela vai mudar muito. Ela vai conseguir essa professora de apoio".

O que diz a Secretaria de Estado de Educação
Procurada pelo G1, a diretoria da Escola Estadual Eduardo Senedese disse que não poderia comentar o caso, já que a decisão sobre a disponibilização de um professor de apoio cabe à Superintendência Regional de Ensino de São Sebastião do Paraíso e precisa ser liberada posteriormente pela Secretaria Estadual de Educação.

Em nota, a secretaria diz que a Superintendência Regional de Ensino de São Sebastião do Paraíso, responsável pela coordenação da escola, acompanha o caso com a direção e equipe pedagógica da escola.

Ainda conforme a secretaria, "de acordo com a avaliação da equipe, a aluna apresenta boa interação com os professores e colegas durante as aulas, desempenho satisfatório nas atividades e desenvolvimento da autonomia, aspectos fundamentais no processo de inclusão" e, por isso, foi designado o Atendimento Educacional Especializado (AEE) em vez de um professor de apoio.

Por fim, a nota diz que "é importante esclarecer que o Professor de Apoio à Comunicação, Linguagem e Tecnologias Assistivas é indicado para alunos com necessidades de suportes na comunicação alternativa com o uso de recursos de tecnologia assistiva e na ambientação escolar de alunos com quadros psiquiátricos que apresentam alto nível de auto e heteroagressividade", o que não seria o caso da aluna.

Fonte: g1.globo.com

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