segunda-feira, 6 de agosto de 2018

1º caso de microcefalia por zika, menina anda, vai à escola e é referência - Veja o vídeo

Romero Moreira de Araújo/Ipesq
Catarina dá tchau enquanto desenvolve as passadas

Carlos Madeiro Colaboração para o UOL, em Maceió

Era tarde desta quarta-feira (1º), em Juazeirinho, no semiárido paraibano. Catarina Maria, agora aos dois anos e cinco meses, chega a seu terceiro dia de aula.

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Pela primeira vez, os pais as deixam só. "Ela deu tchau, virou as costas e não olhou mais para trás", conta a mãe, a fisioterapeuta Conceição Alcântara, 37.

A história poderia ser mais uma entre tantas de crianças que iniciam a vida escolar, mas Catarina é diferente. A menina foi o primeiro caso publicado no mundo que confirmou a presença do vírus da zika relacionado à microcefalia, em novembro de 2015.

Catarina tem um rotina igual à de outras crianças de sua idade: brinca, interage, sorri.

Seu "milagre" ficou ainda mais visível nas últimas semanas, quando ela começou a dar os primeiros passos --o que à época de seu nascimento parecia ser algo impossível.

Catarina tem a chamada síndrome congênita do zika vírus, classificada pelos médicos como de grau moderado.

Seu desenvolvimento era uma incógnita quando foi diagnosticada, mas se tornou uma referência em tratamento para as crianças com o mesmo problema --e isso enche seus pais de orgulho e alegria.

"Ela ainda não tem firmeza em suas primeiras passadas. Tem hora que ela dá umas passadas, tem hora que não. A primeira vez foram duas passadinhas sozinhas --e todo dia tinha um avanço", conta a mãe.

Cada passada era uma conquista, uma emoção na certeza de que os passos pequenos e curtos aos pouco vão evoluindo para passadas mais firmes e prolongadas
Conceição Alcântara, fisioterapeuta e mãe de Catarina.

A garota teve um diferencial em sua trajetória de sucesso: a mãe fisioterapeuta, que tinha conhecimento específico na área e a estimulou desde que chegou em casa.

"Como eu acompanho --como mãe e fisioterapeuta-- desde o seu nascimento, toda evolução que ele teve, diante de um diagnóstico recebido, nos surpreende", relata.

Arquivo pessoal
Catarina de mala pronta para ir para a escola

Nos primeiros dias da escola, a pequena Catarina interagiu bem e participou de todas as atividades.

Depois de tantos avanços, a mãe está otimista. "Vivemos um dia após o outro e lutamos para que ela venha a ser o mais independente possível, dentro de suas limitações, se existirem. Mas sei que será um futuro brilhante", afirma.

Bons resultados transformam menina em caso-modelo

Romero Moreira de Araújo/Ipesq
Mãe fisioterapeuta ajuda a menina sempre

O caso de Catarina se tornou um modelo de acompanhamento na Paraíba. Ela e outras crianças são tratadas pelo Centro de Apoio às Crianças com Microcefalia, do Ipesq (Instituto de Pesquisa Professor Joaquim Amorim Neto), em Campina Grande.

O instituto é presidido pela médica e pesquisadora Adriana Melo --que foi a primeira pessoa a relacionar o vírus da zika ao aumento de casos de microcefalia.

Foi ela também quem coletou material da mãe ainda durante a gravidez e enviou à Fiocruz (Fundação Oswaldo Cruz), confirmando a pela primeira vez um caso de microcefalia ultrainterino.

Segundo Melo, crianças como Catarina tinham um prognóstico incerto ao nascer. O desenvolvimento surpreendente, porém, a fez adotar o mesmo critério de estímulos às crianças que fazem fisioterapia no local.

"A gente pegou o modelo de Catarina Maria e capacitou os nossos profissionais, que estão fazendo o mesmo com as crianças mais graves: oferecendo fisioterapia cinco vezes na semana, uma hora por dia. A gente tem tido bons resultados. Ainda não é pesquisa, é um estudo-piloto, mas esperamos até o fim do ano ter alguns resultados", explica a médica.

A mãe de Catarina foi uma das profissionais contratadas para atender as crianças no centro.

Romero Moreira de Araújo/Ipesq
Estímulos diários sensoriais fizeram a diferença no tratamento

"A Catarina não era um caso [de microcefalia] muito leve e, com muito estímulo, ela alcançou coisas que não esperávamos. Então a gente acha que o que fez a diferença foi a fisioterapia precoce e intensiva, todos os dias", diz.

Para Melo, a resposta das crianças --atualmente chegando aos três anos de vida-- é boa e mostra que uma assistência intensa deu perspectiva de redução dos efeitos do vírus da zika.

"Quando a gente via as imagens dos fetos na barriga das mães, a gente via até mais danos. Nos primeiros casos, achávamos que iam ser aquelas crianças que iam ficar paradas, porque o vírus zika é muito destrutivo, interfere muito no desenvolvimento cerebral", diz Melo.

"A expectativa que a gente tinha para essas crianças era muito baixa. Mas algumas nos surpreenderam. Como toda doença, tem os casos mais graves e os mais leves. Mas está demonstrado que, desde que a gente interceda cedo, temos resultados muito bons."

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