sábado, 11 de agosto de 2018

Único cadeirante a disputar o Rally dos Sertões, cearense se desafia: "Não sei o meu limite"

Antônio Cavalcante está prestes a completar 50 anos e após vencer a meia-maratona internacional de Fortaleza, voar num ultraleve e ser campeão de tiro ao prato, irá se aventurar no maior rali do país

Único cadeirante a disputar o Rally dos Sertões, cearense se desafia:

Por Juscelino Filho e Matheus Pereira, Fortaleza, CE

Quando aciona os motores do UTV, Antônio Cavalcante se transforma. Quanto mais potência, melhor! Nada de pouca velocidade. Os terrenos irregulares parecem virar pistas simples com ele ao volante. A poeira, as pedras, a lama, nada disso é dificuldade para o piloto que está prestes a completar 50 anos. Com a vida repleta de desafios, o cearense coleciona conquistas nos mais diversos mundos. Cadeirante, Antônio perdeu o movimento das pernas num acidente há mais de 35 anos. Exemplo de dedicação e perseverança, está prestes a se aventurar no Rally dos Sertões, o maior do país.

Antônio Cavalcante irá disputar o Rally dos Sertões (Foto: Juscelino Filho)
Antônio Cavalcante irá disputar o Rally dos Sertões (Foto: Juscelino Filho)

Apesar da idade, Antônio tem pouco tempo de rali. Começou em 2017 e já coleciona conquistas. Das 18 provas em que participou, subiu ao pódio em 17. Os troféus estão espalhados pelo escritório. Empresário, divide o tempo entre a família e a paixão pelos esportes.

Esta será a primeira participação de Antônio no Rali dos Sertões pilotando uma UTV. Será o único cadeirante. Perdeu o movimento das pernas depois de cair do terceiro andar de um prédio há 36 anos. Nem mesmo isso o limitou a se aventurar, a descobrir o próprio limite. Se no colégio jogava futsal, basquete, handebol, depois do acidente descobriu que não havia nada que o pudesse parar.

- Eu me acidentei em 1982, com 13 anos. Quando me acidentei, passei um ano mexendo apenas o pescoço. Fiz a cirurgia e melhorei. Quando foi em 1989, chegou o primeiro jetski aqui no Brasil e e fui praticar. Depois fui voar de ultraleve. Eu fui o primeiro piloto paraplégico do mundo. Também fui campeão de tiro ao prato que é um esporte olímpico, mas não para cadeirantes. Depois passei um tempo sem esportes. Mas depois conheci o mundo do rali. Conheci o UTV e me apaixonei - explicou.

Antônio exibe os troféus que já conquistou ao longo da vida (Foto: Juscelino Filho)
Antônio exibe os troféus que já conquistou ao longo da vida (Foto: Juscelino Filho)

No dia-a-dia, Antônio é sócio numa empresa de terraplanagem e locação de máquinas pesadas e vai para cima e para baixo na empresa porque não gosta de ficar no escritório. Para aguentar a rotina, ele treina numa academia com um personal, três vezes por semana. Para poder participar da rali, Antônio adaptou a UTV. Pilota com a mão direita e usa o freio e acelerador com a esquerda.

- Eu ainda não sei qual é o meu limite. Eu não sei. Eu achava que não daria para competir com o UTV, mas fui me adaptando. Eu piloto só com uma mão. Com a mão direita eu acelero e freio com a mão esquerda. Eu fui operado seis vezes na coluna. Estou na academia só há dois meses para conseguir competir no Rally dos Sertões, porque vou precisar. Eu ainda não sei qual é o meu limite.

Ao todo, foram 17 pódios em 18 provas de rali (Foto: Juscelino Filho)
Ao todo, foram 17 pódios em 18 provas de rali (Foto: Juscelino Filho)

Em 2017, competiu no rali RN 1500. Venceu. Mas enfrentou, pela primeira vez, um grande desafio. O pneu do carro furou e foi necessário trocar. Sem maiores problemas, Antônio desceu do carro e foi trocar as peças.

- O maior perrengue que eu já passei foi no RN 1500. Tive que descer do carro e trocar o pneu. Enquanto o navegador me ajudava, eu desci e acochava a roda, apertava. Os concorrentes que passavam não acreditavam quando me viam arrastando no chão para trocar os pneus - relembrou.

Antônio realmente não tem limites. Antes que o repórter esqueça de dizer, ele foi campeão da Meia-Maratona Internacional de Fortaleza em 2014. Dá palestras motivacionais para jovens e é a primeira vez que irá participar do maior rali do Brasil. Quando não tiver mais desafios a serem quebrados no kart, já sabe qual será o próximo esporte.

- Depois do rally eu acho que vou começar a fazer kite - concluiu.

Antônio Cavalcante com a família (Foto: Juscelino Filho)
Antônio Cavalcante com a família (Foto: Juscelino Filho)

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